
Foto de M. Rokhman Az-Ziqro N.S. na Unsplash
Assinado, um Homem livre

Hoje, 13 de maio de 1888, o país está em festa. Até que enfim aconteceu a abolição da escravidão. Agora estou livre. Não colocarão mais correntes em meus pés, não lançarão chicotadas sobre minhas costas, nem voltarão a me tratar como um animal. Este 13 de maio, é um domingo. Estamos todos felizes. Agora podemos cantar, tocar, expressar nossa religião. Estamos livres. Que alegria.
Hoje. 13 de maio de 1888, estou livre, e o dia já se vai. E agora que parei pra pensar, não sei como achar minha família. Levaram minha filha ainda no cativeiro, levaram minha esposa pro lado do Sul. Preciso encontrá-las. Até que enfim estamos livres e seremos felizes.
Hoje é 14 de maio de 1888, uma segunda-feira. Estou livre, mas não tenho casa, terra e dinheiro. Não recebi nada após essa libertação. Eu ainda não sei ler, não sei escrever e não faço ideia por onde procurar minha família. Vou buscar trabalho e abrigo. Não tenho sapatos. Percebi que os homens livres precisam ter sapatos. Caminharei atrás de trabalho. Até encontrar, é melhor a rua que a senzala
Avistei uma roda de capoeira. Nunca tinha visto uma ao ar livre. Me aproximei. Cantamos e jogamos, mas de repente tudo escureceu.
Hoje é 14 de maio de 1888, uma segunda-feira. Já é noite. Eu não vou dormir mais na rua, pois a polícia chegou no meio da roda. Bateram e acertaram minha cabeça, apaguei e agora estou preso, novamente com correntes nos pés. Prenderam a mim e mais uns pretos. Estamos aqui amontoados na cela de uma prisão. Disseram que um capoeira acertou um policial e que vamos responder pelo crime. Mas que crime eu cometi?
Hoje, 23 horas do dia 14 de maio de 1888, entendi que não estou livre nesse solo. Que esse país não queria minha liberdade, felicidade ou cidadania, Querem meu corpo sangue e minha alma explorado até a morte. Existe uma lei de liberdade, mas continuo cativo. Não me enxergam enquanto cidadão, e preso aqui não posso procurar minha família.
Hoje é 14 de maio de 1888, e eu juro que esse Estado pagará por toda essa violência. Pode não ser hoje, mas Exu é o senhor do tempo, dos caminhos, e da justiça, e a pedra foi lançada!
Assinado, um Homem livre
Douglas Souza — Nascido na comunidade do Parque Veras. Fundador do movimento Fortaleza Negra. Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisador da história negra no Ceará. Produtor cultural, músico, escritor e articulador político.

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