Curadoria por Taciana Oliveira

por Taciana Oliveira
Colaboração: João Gomes___

Fábio Pascoal/Divulgação
A trajetória de Fábio Pascoal se conecta com a fundação do TEA – Teatro Experimental de Arte – e ganha alicerce na criação do FETEAG – Festival de Teatro do Agreste. Fábio é antes de tudo um apaixonado pela dramaturgia, uma figura que respira teatro e verbaliza essa paixão na produção de um dos mais importantes festivais independentes do Estado. O depoimento abaixo são trechos de uma conversa que tivemos, onde Fábio partilha de suas histórias e afetos, que são responsáveis por uma rica contribuição na construção de uma cena teatral no agreste de Pernambuco. Conhecer Fábio, naquela tarde do mês de janeiro, foi como um convite para mergulhar no sentido literal das palavras devoção e empenho. Ah! Fiquem atentos para a próxima edição do FETEAG que acontece no segundo semestre!


TEA/Divulgação


Somos contemporâneos

Sou filho de Argemiro Pascoal e Arary Marrocos. Eles foram fundadores do Teatro Experimental de Arte. Meu pai já fazia teatro antes, no Teatro de Amadores de Caruaru, um grupo que já estava estabelecido na cidade. Um teatro bem convencional para época deles. Então, em 1960 eles participaram de um festival estudantil. Eles frequentaram o festival e ficaram entusiasmados com toda a produção, com tudo que vinha de fora, de outros estados. Isso deu um ânimo para se juntarem com os amigos e criarem o TEA em 1962. Eu e o TEA somos contemporâneos, porque eu nasci em fevereiro de 1962 e o TEA em junho. Nascemos praticamente juntos. Então minha vida toda teve muito convívio com o teatro, não só com o teatro mas com os artistas de um modo geral, com poetas, com pintores, com artistas gráfico, músicos. Minha vida toda esteve muito atrelada a essa cultura. Então aos 15/16 anos eu sempre fiquei nas coxias dos grupos, sempre trabalhando nas partes técnica, sempre fiz essa ação no TEA.

O TEA

Divulgação
É o segundo grupo mais antigo em atividade no território do Brasil. Ele é Patrimônio Vivo do Estado e Ponto de Cultura. A sede do TEA é o Teatro Lício Neves, nome de um poeta de Caruaru. Na realidade, ele nasceu em Belo Jardim, mas morava em Caruaru. Um poeta que conviveu muito conosco, com meus pais. Vivemos muito juntos, e quando o TEA foi criado, na casa dos meus pais tinha uma garagem. E essa garagem foi transformada num teatro, que eles nomearam como Lício Neves. Uma homenagem a Lício.

Divulgação
A Sede do TEA

O TEA tem um teatro pequeno. Um palco de 5X3 metros e um auditório de mais ou menos 50 pessoas, feito em casa, numa comunicação com a casa e essa coisa toda. E eu sempre brincava com meu pai, e eu dizia vamos transformar isso em outra coisa e tal. Porque a gente tinha uma dificuldade muito grande, tinha um palco muito pequeno, e se usava muito espaço para oficinas. O palco era muito pequeno, não se conseguia colocar ali nem dez pessoas trabalhando. E a ideia era que a gente conseguisse nivelar o piso, deixar um espaço maior, de uma outra maneira transformasse aquele espaço. E fosse um espaço multifuncional, um teatro multiconfiguracional, como um jogo de armar, como o Teatro Hermilo e o Marco Camarotti. A gente queria muito isso. Em 2016, um temporal em Caruaru danificou uma parte da estrutura do teatro. Comecei a reformar e derrubamos o teatro, e reconstruímos. Estamos agora na fase fina,  precisando realmente de apoio. Ele terá um espaço de 20X8, que é mais ou menos o tamanho do Teatro Hermilo, uma arquibancada móvel, um mezanino e um escritório. Temos uma área total de 180 metros, levantamos a estrutura e agora falta só o acabamento. Buscamos parcerias, vamos tentando construir. Fizemos uma vaquinha e não conseguimos nada, mas algumas pessoas na cidade ajudaram de alguma forma. E assim a gente levantou e cobriu, e estamos agora na fase final, pensando em uma parceria com a Secretaria da Educação para levar alunos para assistirem aula de teatro. A contrapartida seria finalizar a reforma do teatro. 

Reforma do TEA/Divulgação


Um Festival Independente

Mas ou menos em 1980/81, junto com um amigo, Chico Neto, irmão de Cláudio Assis... A gente era muito amigo, eu e Chico. Fazíamos parte de um grupo de música. Eu escrevia as letras. E tinha também um amigo em comum nosso que colocava música. A banda chamava-se Olho D’água. Uma banda que fazia a gente trabalhar com músicas autorais. E com isso participamos de um festival bem importante chamado Festival Arizona de Música Sertaneja. E em 1981, eu e Chico, vendo a dificuldade que a gente tinha no TEA, em tratar as questões junto aos estudantes, criamos o FETEAG em 1981. Desde essa época é um Festival Independente, sempre! E durante muito tempo ele foi dedicado ao público estudantil, com oficinas, palestras, e a participação afetiva dos estudantes. Nos anos 90 esse Festival alterou um pouco o perfil e passou a ser de Teatro Estudantil e Amador do Agreste.

Festival Estudantil com abrangência estadual

Começamos a receber alguns grupos amadores da cidade, sempre em Caruaru. No final dos anos 90, quando foi lançado o Edital do Funcultura, o Festival abriu a grade para as escolas de todo o Estado. Passou a ser um Festival Estudantil com abrangência estadual. Nesse período de 1984, eu termino a Faculdade e venho morar em Recife. Fico de 1984, mais ou menos, até os anos 2000, indo para Caruaru acompanhar o Festival, mas não ativamente. Meus pais é que tocaram o Festival nesse período. No ano 2000, eu voltei, e a gente reconstruiu o Festival de alguma maneira.

A Mostra Profissional

Em 2004 lançamos a mostra profissional. Sempre existiam grupos profissionais que vinham pra Caruaru. Mas a partir de 2004, nós estabelecemos uma mostra independente, uma mostra profissional. O primeiro o espetáculo foi o “Espiral brinquedo meu” de Helder Vasconcelos. Então, é o primeiro grupo que abre essa nova fase do Festival que é a mostra profissional. A gente começa a entrar em contato com outros grupos. Em 2005 conseguimos trazer o Lume, um grupo de Campinas, uma referência no termo de formação do ator. O Lume vem com o espetáculo “Cravo, Lírio e Rosa”. Foi a primeira passagem do Lume pelo Nordeste.


FETEAG /2017 - François Moise Bamba no Boi Tita Teima  

A profissionalização e a Mostra Internacional

Nós trouxemos também um grupo de alunos da USP. Em Caruaru temos um casarão onde funciona a Academia Caruaruense de Cultura Ciências e Letras. Então à a meia-noite o casarão era aberto para a apresentação do espetáculo desse grupo. Eles ficaram uma semana conosco. Esse grupo hoje é a Companhia Hiato. Ali era o primeiro movimento da companhia, ela se formando enquanto grupo. É tanto, que em 2013, trouxemos eles de volta para mostrar exatamente essa trajetória, para as pessoas entenderem que é possível ser profissional. O que a gente provoca com a mostra profissional é uma onda de estímulo. Já que às vezes o teatro em Caruaru é tratado como um hobby. Eu percebia que os artistas não tinham uma necessidade como profissional, era mais um hobby que eles faziam. É a partir da mostra profissional que começamos a investir numa coisa muito mais formativa e profissionalizante. É a partir dessa trajetória que convidamos grupos do Brasil inteiro, e em 2016 nasce a Mostra Internacional.

Carta ao Pai no Boi Tira Teima


A primeira fase seria a partir de 2004. Mas em 2016 é que transformamos o FETEAG em um Festival Internacional. E nesse ano de 2016, vieram Yael Karavan, israelense que mora na Inglaterra, e Bruno Humberto, um português que veio pra cá e deu uma oficina e apresentou um espetáculo. Teve um outro desdobramento da Mostra Profissional. Na sequência culminou com a vinda do festival para Recife. A gente já tinha namorado um pouco isso. Em 2013 fizemos uma parceria com o Magiluth, que era o TREMA, e construímos uma grade juntos, Trema! - Festival de Teatro de Grupo do Recife e Feteag - Festival de Teatro do Agreste. Trocamos algumas coisas, por exemplo do grupo Hiato, um espetáculo de ficção que ia pra Caruaru a gente conseguiu através do TREMA, trazê-lo pra Recife, com o Espanta que vinha pra Recife, e nós conseguimos levar pra Caruru. Então em 2013 se fez essa parceria, mas a gente já tinha namorado essa parceria em 2008, com o festival chamado Conexão Cavalo Marinho idealizado por Helder Vasconcelos e Laura Tamiana. Eles fizeram esse festival, que acontece em Condado, na Zona da Mata, e também conseguimos fazer uma troca com eles. Levamos os espetáculos para Caruaru juntos, pela primeira vez. Como a proposta do Conexão era trabalhar em cima do trabalho do ator, a partir do Cavalo Marinho, e levar espetáculos que tivessem como base o trabalho do ator. Levamos para Caruaru “Brincadeira de Mulato” de Maria Paula, que também estava compondo a grade do Conexão. E em 2013 a gente fez essa parceria com o TREMA, que a gente conseguiu levar para Caruaru o Espanta e trazer pra cá o Café com Queijo do Lume.

Mostra Descentralizada

Mostra Descentralizada

Criamos uma outra mostra, chamada Mostra Descentralizada que acontece na Zona Rural. O primeiro espetáculo que a gente levou foi Olhos de café quente de Quiercles Santana com Soraya Silva no elenco, que mora na Itália. Fechamos um contrato e ela fez um dia no palco oficial, no SESC, que é a nossa sede em Caruaru. E ainda nas zonas descentralizadas da periferia, na Zona Rural mesmo, não é na periferia, é nos sítios. Em 2017 e em 2018 a gente faz novamente a Mostra Descentralizada, agora com a produção do próprio TEA, um espetáculo chamado Jogos na hora da sesta que discute a violência estudantil na escola. Em 2019 a gente já tem um grande convidado: os 15 anos do Espiral brinquedo meu, de Helder Vasconcelos. E vamos fazer na Zona Rural. Estamos procurando uma grande festa pra apresentar o espetáculo. O Helder tem uma kombi que chama-se Zuzu. Vamos apresentar filme e o espetáculo. A gente sempre ocupa esse espaço na cidade, tem um ponto fixo em Caruaru, que usamos muito, que é a Casa de Lúcio do Alto do Moura. Lúcio Omena é um médico caruaruense que foi secretário presidente da Fundação de Cultura, e a gente todo ano faz alguma coisa na casa dele. 

Guandú na casa de Lúcio
Mostra Profissional em Recife

A partir de 2016 a gente realmente resolveu dar a cara tapa e assumir e fazer uma Mostra Profissional em Recife, uma janela na realidade. Essa janela tem uma intenção bem objetiva, que é dar visibilidade à produção, já que é muito difícil a gente trazer esse olhar da imprensa pro interior. Então nós criamos essa janela exatamente pra possibilitar essa abertura na mídia, e eu acho que supriu um efeito fantástico assim, na cobertura que se começou a dar. E aí em 2007 a gente fez parceria com outros dois grupos e festivais: um no Rio de Janeiro e outro na Bahia . E aí, a partir disso, a gente consegue trazer obras importantes. A gente aposta sempre no FUNCULTURA, e nunca teve de fato um apoio da prefeitura, só a partir de 2017. A gente sonha e vai. Tem uma passagem num livro chamado Alma imoral, de Nilton Bonder, que diz o seguinte: O mar não se abriu para Moisés passar, Moisés se atreveu e o mar se abriu. Eu penso sempre nisso, nesse atrevimento de você entrar e as coisas acontecem, não esperar que ele abra, é a gente ir de encontro ao mar.
_________________________________________________________________________

Para saber mais sobre o TEA, assista os documentários abaixo:





________________________________________________________________________





Taciana Oliveira é mãe de JP, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem



por Felipe Rocha___

O horror da guerra afeta a vida das pessoas de forma destrutiva,  provocando dores, traumas e mortes. As consequências são diversas, mas só é possível entender e conhecer sua dimensão graças aos profissionais de comunicação que arriscam suas vidas, trabalhando no meio do caos, mostrando ao mundo as catástrofes provocadas por esses conflitos. É essa triste realidade que o jornalista Hernán Zin quis apresentar em sua obra A Vida Pela Notícia, que como o próprio título já diz, vidas são abdicadas para trazer informação e conscientização ao mundo sobre as guerras.

Em 2012, Hérnan Zin sofre um ataque de pânico em um carro do exército americano, enquanto cobre uma intervenção no Afeganistão, evidenciando  que o peso dos vinte anos  atuando na cobertura de guerras podem resultar no desgaste psicológico de um profissional experiente. 

A partir desse acontecimento, ele decide não mais trabalhar da mesma forma. Anos mais tarde, Hérnan tem a ideia de documentar o quanto é traumático viver à beira da morte, todos os dias, em um campo de batalha. O filme apresenta depoimentos de vários jornalistas, fotojornalistas e cinegrafistas que vivenciaram coberturas de conflitos em vários lugares do mundo: Iraque, Sudão, Afeganistão, Síria, entre outras nações. Eles relatam experiências diante da crueldade da guerra, a perda de amigos e familiares, além dos sequestros e torturas aplicadas por grupos terroristas. Os sequestros são a prova de que organizações e grupos como Al Qaeda não suportam a presença dos jornalistas. Essas organizações os tratam como uma ameaça, pois esses profissionais são os responsáveis por divulgar as atrocidades cometidas nos conflitos, revelando localizações e tornando público o que deve ser mantido em segredo para o resto do mundo. 

A perversidade dessas pessoas se reconhece  na falta de compaixão, revelando o quão terrível o ser humano pode ser. Além de sequestrar, torturar e matar jornalistas, esses grupos são responsáveis por atentados a bombas em cidades, matando, mutilando e ferindo milhares de pessoas inocentes, incluindo crianças e idosos.


A preocupação com os entes queridos é algo recorrente na maior parte dos depoimentos. É angustiante para cada um dos entrevistados pensar na dor que podem proporcionar  a seus familiares e amigos, no caso  de acontecer alguma fatalidade. Por esse motivo alguns profissionais abandonam o ofício, enquanto outros continuam, porque não conseguem trabalhar de outra maneira. 
A falta da adrenalina, presente nas ações de combate e guerrilhas, é algo que a maioria dos correspondentes não conseguem superar. Apesar das tentativas de distanciamento, em prol de uma qualidade de vida familiar, há ocorrências de problemas de depressão e crises de ansiedade. 

Um dos pontos importantes do documentário é a exposição dos problemas psicológicos motivados pela convivência com a guerra. Os entrevistados relatam que nunca mais foram os mesmos depois de passarem por tantas experiências e assistirem a tanto sofrimento. Estresses pós-traumáticos, depressão, angústia extrema, ansiedade, ataques de pânico são alguns dos problemas que afetam esses profissionais.

A importância dessa obra é inconteste. Ela não só apresenta histórias, relatos e sobreviventes, como também, homenageia grandes nomes do jornalismo, que foram assassinados em meio ao horror dos campos de batalha. São profissionais, que inicialmente, se arriscam para trazer informação, mas acabam conhecendo e se envolvendo com a atmosfera que os cercam. Assim, o trabalho ultrapassa os limites da comunicação. Fazer algo pela população também faz parte dessa jornada, o que torna tudo isso algo inspirador.
___________________________________________


____________________________________________




Felipe Rocha é aluno do 7° Período de Publicidade da Faculdade ESM FAMA. Esta resenha foi escrita para o Seminário Narrativas Visuais: Uma Introdução ao Conceito e Formatos do Gênero Documentário, produzido para a disciplina Redação Publicitária TVC.


por Taciana Oliveira_
Colaboração de João Oliveira Melo

Jean – Jacques Perrey
Você sabe quem foi Jean–Jacques Perrey? Você se dá conta que, talvez, em algum momento já ouviu alguma música composta por ele?

Descobri Jean–Jacques Perrey através de uma playlist criada por meu filho, João Pedro. Pioneiro na música eletrônica, músico e produtor francês, ele também era amigo de Robert Arthur Moog - criador do sintetizador Moog. Os dois trabalhariam em projetos intitulados de entretenimento eletrônico. No seu laboratório experimental inventou um processo de gerar ritmos com sequências e ondas, utilizando sons ambientes da musique concréte. Perrey fez uso de tesouras, fitas adesivas e gravadores para produzir loops rítmicos.

Jean–Jacques participou da dupla Perrey and Kingsley, famosos por suas experimentações sonoras. O primeiro álbum da dupla foi lançado em 1966. The in Sound from Way out! demorou um bom tempo para ser finalizado, pois naquela época os avanços da tecnologia digital eram insuficientes para a produção do disco. Horas e horas de sessões de estúdio eram necessárias para que Perrey and Kingsley concluíssem seus trabalhos. A dupla ainda lançaria Kaleidoscopic Vibrations em 1967.

Grande parte das composições de Jean – Jacques Perrey podem ser ouvidas nas trilhas sonoras de alguns filmes produzidos nos últimos anos. Ocean's 8, de 2018, e Savages, de 2012, podem ser citados como exemplo Na Televisão temos Chaves, Bob Esponja, Chapolin e South Park.

Jean–Jacques Perrey morreu em 2016, aos 87 anos. Ele é inspiração para uma geração de compositores de música eletrônica . Vamos ouvir a playlist?




______________________________


Taciana Oliveira é mãe de JP, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem




por João Gomes__

O nosso entrevistado  do  mês é o poeta, músico e produtor cultural David Biriguy.


David Biriguy.
Seu livro Submarino fala sobretudo de amar ou ter sido amado por alguém. Para você, a poesia vem com alguma facilidade, o amor é mais difícil e o que seria um poema pronto? A citar um poema desse seu livro, “Quantas interrogações integram o teu silêncio?”.

A temática do Submarino é o amor, mas o sentimento que se expõe ao longo do livro é o arrependimento. É uma queda. Um declínio. Um mergulho dentro de si para se reconstruir depois da queda.

Acredito que há fluxos de escrita. Não diria que a poesia vem com facilidade, mas que tenho facilidade para escrever e isso facilita a escrita dos poemas. O amor é um lugar comum na literatura, talvez isso o torne mais difícil de abordar de uma forma diferente do que já se tem. O Submarino foi nascendo despretensiosamente. Eu estava em um processo de desapego e estava escrevendo. Quando me dei conta os poemas estavam todos ali. Fiz uma seleção dos melhores textos e reuni neste livro.

Eu não sei se existe “poema pronto”. Mas existem textos que se desenvolvem com mais facilidade que outros, como se já viessem “pré-produzidos” do nosso consciente, isso poderia ser chamado de poema pronto? Outros textos dão mais trabalho, não ficam tão legais na primeira tentativa de escrevê-los e você vai desenvolvendo, lapidando, trocando palavras, talhando a coisa.

Se a citação foi uma pergunta, eu diria que infinitas interrogações integram o meu silêncio e deve ser por isso que escrevo.

Você integra a antologia poética Sub 21, organizada pela poeta recifense Cida Pedrosa, com a proposta de apresentar poetas que na época tinham até 21 anos. Qual a importância de estar em uma antologia ainda que composta por amigos?

Eu entrei na antologia Sub21 por acaso. Alguém indicou a página “poemas no escuro” que eu escrevia uns haicais no Facebook e a Cida Pedrosa acabou me conhecendo. Isso foi em 2013, tinha 18 anos. Foi meu primeiro ano de dedicação à literatura. Foi quando produzi meu primeiro livro também, o “Útero de retratos mundanos”.

Acho que participar de antologias é um primeiro passo pra quem pretende se inserir no mercado da literatura, e foi o meu primeiro passo. Eu ainda não tinha livro, então estar em uma antologia era uma forma de provar que você escrevia. Para além disso, as antologias são mapeamentos de autores, apesar das óticas e dos recortes abordados em cada uma.


Em Submarino você assina como David Biriguy mas em outros momentos como David Henrique Nunes. De onde vem o seu Biriguy e até que ponto o nome do artista importa?

Eu assinava como “David Henrique”, mas as pessoas só me conhecem por Biriguy. Em algum momento o Biriguy iria pedir espaço, e pra não trocar um pelo outro decidi uni-los. O Biriguy vem de um lugar que até eu desconheço. Quando eu era criança um amigo me chamou assim e disse que a origem do nome era um personagem de um desenho animado que se parecia comigo. Até hoje não encontrei vestígios desse personagem. Mas o nome permaneceu.

Acho que o nome é só uma identificação mesmo, nada mais.


Você venceu alguns concursos literários e lançou de forma independente e artesanal pelo seu selo editorial Lara Cartonera. Seus títulos sempre têm algo de livro-objeto, mas como é ser independente num mercado e ramo artístico tão concorrido?

Ser “independente” no sentido de se auto publicar, de não ter uma grande editora que apostasse nos meus textos, não foi uma escolha, foi uma necessidade. Quando escrevi o primeiro livro em 2013 procurei diversas formas de publicar. Os custos de uma publicação por uma editora são altíssimos e eu não tinha dinheiro pra bancar. A primeira via foi publicar em formato e-book pela Castanha Mecânica com Fred Caju. O livro estava publicado mas não vendia. As pessoas queriam o livro físico, o objeto nas mãos. Então veio a Cartonera. Participei de uma oficina com Wellington de Melo e resolvi esse problema. Aí nasceu a Lara Cartonera e comecei a produzir livros artesanais. Hoje produzo livros a partir de diversos materiais, não só no formato cartonero, como no início.

Acredito que ser “independente” é driblar os obstáculos apesar de tudo. É tirar leite de pedra mesmo. Conseguir furar bolhas. Conquistar espaços. A literatura ainda é uma linguagem artística de elite. Em sua maioria produzida pela elite e apreciada pela elite. Nós somos as exceções da regra. E acho que devemos cada vez mais mudar esse cenário. Através do nosso trabalho, do nosso talento e de nossa força. Pra gente é muito mais difícil “chegar lá”, mas devemos chegar e conquistar o que também é nosso.


Sua formação é Comunicação Social e sua participação artística é multidisciplinar. Como você vê hoje a transmissão de ideias na mídia e nas artes visto que os receptores estão cada vez mais sem participação e passivos democraticamente?

Estou cursando Comunicação Social, e estou até certo ponto afastado da universidade. Acho que vivemos a era de maior velocidade nas comunicações. A informação chega e se espalha muito rápido. E isso pode ser bom por um lado e trágico por outro, vide o exemplo das últimas eleições em que as fakenews decidiram o jogo.

Percebo que a arte dentro da lógica capitalista vira um mero produto de consumo e as pessoas estão acomodadas com isso. O público tem cada vez menos interesse em artes e isso se deve a diversos fatores. Seja a falta de uma formação com capital cultural, seja a falta de um bom direcionamento de leitura, e até mesmo a convergência cultural de outras opções de entretenimento.


Poeta, músico, produtor cultural e documentarista com incentivo da Universidade. De tudo um pouco para conhecer o seu olhar, sua persistência e dedicação. Mas como é organizado o seu tempo para caber tudo isso e o que te move para continuar?

Foto: @vaibuscarthalyta
Não existe uma organização formal. O tempo é de fato curto para lidar com tudo. Inclusive por falta de tempo e dedicação integral aos trabalhos é que estou um pouco afastado da universidade. Mais uma vez: não é uma escolha, é uma necessidade. É de cada um desses trabalhos que consigo sobreviver e pagar minhas contas. E eu não escolhi fazer tudo isso, essas coisas me escolheram. Foram chegando e eu fui fazendo. Sempre gostei de experimentar, sempre busquei novas experiências. A música vem desde criança, quando toquei instrumento de sopro numa banda de música em Belo Jardim. Depois veio a poesia, ainda criança também, quando comecei a declamar poemas na escola aos doze anos. O cinema veio através de oficinas no festival de cinema de Belo Jardim e das aulas na universidade. Tomei gosto pela linguagem do audiovisual e venho produzindo e trabalhando também. O trabalho como produtor surge da necessidade de realizar eventos e não se ter aqui em Belo Jardim nenhuma espécie de incentivo ou apoio por parte do poder público. Acabou se tornando outra fonte de renda também.
É muito difícil sobreviver de arte no Brasil. Em Pernambuco. Em Belo Jardim. É fazendo um pouco de tudo, sendo meio Bombril, que consigo me manter através destes ofícios.

Como produtor cultural você idealizou e fez a curadoria de duas edições do Jardins da Literatura em seu município, Belo Jardim. Eu mesmo participei de uma mesa literária em uma escola pública de nível médio com a escritora garanhuense Fernanda Limão. O público estudantil me surpreendeu como nunca vi igual. Conta um pouco das raízes e frutos colhidos por esses Jardins?

O Jardins da Literatura é um projeto de literatura voltado para o público escolar. Acredito que devemos formar leitores ainda na escola, e não da forma como se ensina literatura dentro da matéria de língua portuguesa.
A proposta do Jardins é justamente levar o autor para dentro da escola, mostrar a literatura fora do livro, para que possa ser um outro caminho, mais atrativo, para o aluno chegar ao livro.
Nesta última edição conseguimos circular por 16 instituições públicas de ensino, atingimos cerca de 4.000 pessoas entre oficinas, recitais, palestras e mesas. Publicamos uma antologia com texto de 30 alunos e tivemos uma grande descoberta que foi a aluna Letícia Lorrayne, que já escrevia poemas e declamava. Irei publicar um livro dela pela Lara Cartonera e este ano ela fará parte da programação do Jardins da Literatura.

Os jornais noticiam você com muito orgulho. Como é crescer artisticamente e se perceber diferente com o passar dos anos dentro do noticiários locais? O belo-jardinense citaria alguém com o potencial equivalente e como tem sido o trabalho de expandir a produção cultural no agreste pernambucano?

É gratificante ver todo o esforço sendo recompensado de alguma forma.
Eu sei de onde eu vim. Eu sei quantas barreiras quebrei para chegar aqui. E ainda quebro. Mas entendo também que isso faz parte do sistema. Eles me noticiam com “orgulho” porque o fato de ser escritor elevou meu status social. Só por isso. Infelizmente a nossa sociedade funciona assim. Não é pelo que você é, é o que você representa. O que me alegra mesmo dentro desse processo de evolução é conseguir fazer as coisas acontecerem, conseguir realizar um projeto como o Jardins da Literatura e reunir muitos escritores da nossa época, conseguir publicar meus livros, ministrar oficinas, apresentar recitais, fazer shows, produzir filmes, gravar discos, enfim, fazer.

De Belo Jardim, cito dois artistas com muito potencial: Adones Valença, artista visual, Pierre Tenório, cantor e poeta. Procurem essas figuras.

No momento, como produtor, tenho conseguido expandir a produção cultural em Belo Jardim, com a aprovação de projetos no Funcultura e na antiga Lei Rouanet, agora chamada de Lei de incentivo à cultura. No Agreste, ainda é uma meta.


Você ministra oficinas para elaboração de projetos culturais num tempo de bem menos incentivo cultural e cortes inclusive na educação. O que seria mais decisório para aprovação num cenário com tantos artistas produtores de seus próprios projetos?

Sim. Essa tem sido uma das estratégias para expandir a produção cultural por aqui. Acredito que outros artistas podem e devem tentar aprovar projetos e conseguir financiamento público para desenvolver seus projetos. A verba é nossa, pois é pública. O que devemos fazer é entender os mecanismos para conseguir pleitear os recursos.

O Funcultura, por exemplo, é um edital muito técnico. Talvez até mais técnico do que artístico. Então entender como funciona a distribuição de pontos é uma estratégia decisiva. Para além da parte técnica, acho que ser verdadeiro na parte artística. No final das contas, você precisa convencer quem está julgando. Então uma boa argumentação também pode ajudar a aprovar o seu projeto. Juntando as duas coisas, as chances de aprovar são máximas.

David  na banda Virgulados/ Crédito: Heleno Florentino/Divulgação

A declamação é muito comum no interior pernambucano. A banda que você integra, os Virgulados, também utiliza poema autorais misturando sonoridades. Como se combina os elementos para ter essa experiência poético-musical? Todo poema pode virar canção ou é a récita sonorizada que fala por si?

Sim. Nós exploramos tanto o poema recitado quanto a musicalização do texto. Ultimamente, mais o poema recitado com texturas sonoras criadas como trilha para os textos. Estamos experimentando e procurando nossa estética. Ainda não é um produto “acabado”. Esse ano gravaremos nosso primeiro disco e estamos nessa fase de pesquisa e experimentação do que iremos fazer, de quais impressões e expressões queremos deixar no disco. Neste momento, temos mais perguntas do que respostas.


O que podemos aguardar para os próximos meses desse jovem artista?

A próxima produção é disco do Virgulados, comemorando dez anos de banda. Mais uma edição do Jardins da Literatura. Um curta metragem que ainda está no papel. Publicações de dois autores belo-jardinenses pela Lara Cartonera: Letícia Lorrayne e Jailson Anderson. Por enquanto é isso, e qualquer coisa sigam lá no Instagram pra ir acompanhando minhas andanças: @david_biriguy.



____________________________________________


David Henrique Nunes de Lima (David Biriguy) é poeta, músico, produtor cultural e coordena a Editora Lara Cartonera. Mora em Belo Jardim/PE e estuda Comunicação Social na UFPE em Caruaru/PE. Publicou Útero de Retratos Mundanos (2013), Poemas sem Cabrestos (2014) e Correspondências ao acaso (2018), além de participar de várias antologias nacionais. Na música, lançou os EPS Desencontrários (2015) e Escombros (2016) com a banda Virgulados, da qual é integrante e fundador. Dirigiu os curtas: Pelos galhos de Jurema (2016) e Ventre Morto (2017). Atualmente se dedica a produção cultural no Agreste Pernambucano.
                                                       






_________________________________________




                                                                     
                                  


João Gomes (Recife, 1996) é poeta, escritor, editor criador da revista de literatura e publicadora Vida Secreta. Participou de antologias impressas e digitais, e mantém no prelo seu livro de poesia. 







por João Gomes___

Obra de Leonilson
Nunca me senti tão lembrado, a contragosto dos héteros, por ser o que sou. Junho é o mês LGBTQ, essa sigla que só cresce, arrastando multidões e adere quase tudo pela diversidade em si. Nunca também fui à Paradas, metrópoles, saunas e cinemas pornô. Mas não é por isso que desejo lembrar nossas conquistas, mas há quem ache que uma Parada da Diversidade do Orgulho LGBTQ é apenas um Carnaval fora de época, um golden shower em becos ou mesmo que cirurgia de vasectomia é a causa de ser homossexual.

Não haveria necessidade de uma sigla se as pessoas não gostassem tanto do rótulo, do estar identificado e agrupado para lutar por direitos óbvios. Com a modernidade, depois da Revolução Sexual, não deveríamos estar batendo nisso. Mas como o óbvio é ululante, como sugere Nelson Rodrigues, persistimos em garantir nosso espaço a um preço caro às vezes. Médicos aclamados por sua atuação, como Drauzio Varella, pesquisador do tema HIV/Aids, atenta para a questão biológica citando inclusive a homossexualidade entre animais. Até o Papa Francisco pede que tudo isso seja esclarecido no julgamento final e que não cabe a ninguém julgar no mesmo plano, todos merecem respeito. Mas há quem acuse que toda a cúria é homossexual, as freiras são bissexuais ou lésbicas e tudo é coberto pela manta divina.

Custa pensar como seria se não houvesse esse embate, essa troca de forças, de olhares, de repressões e ataques homofóbicos. É um salve-se quem puder, só deixe que seus amigos saibam, não dê a entender nada para não morrer. Mas tudo é uma questão cultural, do modo de agir e pensar, e biológica do modo natural de desejar. Negar a si mesmo é algo religioso, por isso há os curiosos, os ativos na homossexualidade e negadores da passividade, donos de uma meta corporativa de homofobia que os encubra. Há um pensamento bem verdadeiro que se encaixa a isso: você pode ser gay e não ser homossexual, e homossexual sem ser gay.

Obra de Darcy Penteado
Quanto mais se reprime, maior a incidência de saídas do armário. Porém hoje nada disso mais importa, beijo gay na novela é coisa do passado. Caminhar de mãos dadas e se beijar em público ainda é tido como pornografia que alicia e incentiva crianças que presencia diariamente o feminicídio. A cultura da diversidade sempre terá perseguidores, diferente da do estupro que tem apoiadores e é patrocinada pelo patriarcado. A diversidade é defendida pelos Direitos Humanos, que busca a proteção e a autonomia de existir de forma digna. A do estupro proíbe o aborto, diz se importar com o feto e lhe nega os direitos quando nasce e cresce.

Temos muito a nos orgulhar por ser publicamente o que uma parcela é em segredo. Não é como ser tuberculoso e crer que todos estão só por tossir, é que como humanos nos desejamos e somos castrados socialmente. É poder ser fã de Madonna sem ser gay, ser fisicamente forte e emocionalmente sensível. Conhecer a si pode ser o segredo da felicidade que permite se orgulhar a ponto de provocar inveja. O problema é que podemos saber demais, identificar quase sem erro e com igual preconceito vestígios de comportamentos que nos reduzem e separam. Tudo é mais complexo do que se imagina.

Para incentivar e dar continuidade ao debate, por estarmos no mês LGBTQ, sugiro alguns títulos da Netflix tidos como um presente à irmandade. Recentemente assisti “Elisa y Marcela”, duas mulheres que se juntam no início do século passado, uma delas tentando se passar por um homem e se casando para ainda assim ser descobertas e presas. Há também “Girl”, que narra o processo de transição de gênero de um aspirante a bailarino com apoio do pai e, ainda assim, muito sofrimento em cima da autopercepção e lentidão de todo o processo hormonal. Há verdadeiras entregas na realização de ambas narrativas. A série "Crônicas de San Francisco" também narra o tema para quem prefere produções cinematográficas de longa duração.




Eu ao escrever este texto visto uma camisa com os dizeres: Lute como uma garota, o que me desperta às vezes o choro, mas não a vergonha de ter sido e com um orgulho e enlevo de pensamento maior que qualquer estatística de violência. Maior que qualquer incentivo de presidente tosco representante de um povo iludido e orgulhoso, tanto quanto o outro lado mas por inversão e recalque, defensores da família e da hipocrisia. Há muitos atalhos para sair disso, e o principal deles é o conhecimento, maior inimigo deste desgoverno atual, sempre anterior à modernidade.

Que a arte existe porque a vida não basta já dizia Ferreira Gullar. Todo esse acervo LGBTQ existe para nos colocarmos no lugar do outro, da diversidade ir em encontro com uma inclusão já existente. Negada em nome de um obscurantismo capaz de fazer uma chacina numa boate gay, mesmo tendo provas de o assassino ser homossexual também. Guerras sempre existirão, entre os sexos, entre os da mesma condição sexual, mas o que incomoda é esse decidir pela vida do outro, como se tomar partido e satisfação daquilo que o outro faz com seu corpo fosse de nosso interesse. Como não me rendo, prefiro viver a sonhar, e ser mesmo o destemido que se traveste, que provoca a dúvida e deixa a resposta por conta própria do tempo de assimilação de cada um. Um viva a toda forma de ser amor.




______________________________




João Gomes (Recife, 1996) é poeta, escritor, editor criador da revista de literatura e publicadora Vida Secreta. Participou de antologias impressas e digitais, e mantém no prelo seu livro de poesia.

por Taciana Oliveira___


Escrevo ainda “sofrendo” o impacto de assistir Todas as coisas que brilham. Rapidamente faço uma busca para conhecer detalhes da produção do filme e encontro uma matéria no The Washington Times celebrando a estréia da peça  em Nova York:

Every Brilliant Thing no Barrow Street Theatre é talvez uma das peças mais animadoras e alegres para ver neste inverno, mesmo que se aprofunde sobre o tema suicídio e você seja solicitado a ler algo em voz alta.

Explicando: Todas as coisas que brilham é um documentário dirigido por Fenton Bailey e Randy Barbato, que capta durante dois dias, três apresentações, com platéias diferentes, de um monólogo que tem como tema a depressão e o suicídio. A dramatização é conduzida genialmente pelo o ator e músico inglês Jonny Donahoe e pela platéia, que é convidada a atuar em algumas trechos do espetáculo.

O texto é baseado no conto de Duncan Macmillan. Donahoe é o responsável por adaptá-lo para a versão teatral.

O filme e a peça nascem de uma lista elaborada por um filho para sua mãe, que sofre de depressão crônica, Uma tentativa de provar o valor de se viver cada instante da vida. Antes de começar o espetáculo Donahoe distribui pedaços de papel e orienta o público a ler alguns dos itens dessa lista, onde podemos encontrar coisas como: posso me vestir como lutador mexicano, ficar acordado até tarde e poder ver TV, sorvete, guerra de água, a cor amarela, coisas listradas, montanhas russas, chocolates, usar capa, ter uma música perfeita, sexo, passar a noite conversando com alguém, chá com biscoitos...
Jonny Donahoe

Confesso que fiquei um pouco confusa ao determinar o gênero do filme como documentário. Fiz alguns questionamentos que divido com vocês: 

A narrativa teatral é o instrumento principal do filme? O ato de apresentar os bastidores e a preparação da platéia configura como um documentário observativo? A inserção de imagens adicionais para complementar o roteiro é um artifício de uma narrativa poética documental? Teatro filmado é teatro?

Independente de qualquer resposta, Todas as coisas que brilham é um exercício artístico que bebe da fonte de várias linguagens e suportes. Fiquem atentos na maravilhosa playlist, na fotografia em preto e branco e na delicada montagem escolhida  para o filme.

Jonny Donahoe é um ator espetacular. Ele consegue expor um tema tão doloroso  de uma maneira educativa e peculiar. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. 

Todas as coisas que brilham nos convida a dançar, chorar e viver. O filme transborda sentimento.Finalizo o texto partilhando alguns itens da minha lista:

Nadar no mar em dia de sol com chuva (sempre tem um arco-íris no horizonte)
Conversar bobagens com os amigos
Criar playlists com meu filho
Pudim
Café
Abraço
Ser solidária
Ouvir o silêncio
Cheiro de livro novo
Amar e mudar a coisas...

* Disponível na HBO GO

_____________________________________________________




_____________________________________________________



Taciana Oliveira é mãe de JP, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem