por Rebeca Gadelha__


por Rebeca Gadelha


Artista: Palow Nakamura
por Alessandro Caldeira___

Durante toda a minha juventude brinquei só. Fingi ter amigos, amigos da espécie mais rara que só criança consegue presenciar: os imaginários. No entanto, a presença deles nunca foi capaz de sanar a minha infelicidade. Depois de horas brincando, até eles voltavam para a casa e, assim, eu voltava a ficar só. Desde então, descobri que a solidão era a casa onde eu morava e por isso que ninguém sobrevive quando peço para entrar.

Me é estranho que a infância ainda me seja um desejo porque não lembro muito bem dela. Mesmo tendo 15 anos, a minha infância é um passado distante. Mas quando perguntam meu nome, eu respondo: Rafael, mas na infância eu sei que só atendia às vozes do vazio que se aproximava e me perguntava: você tem nome, garoto? E eu respondia, com os olhos assustados, só que cheios de esperança dessa pessoa desconhecida que habita no escuro dos meus dias ser meu novo amigo: tenho sim! Me chamo solidão. 

Hoje, no auge da minha pré-adolescência, onde a pele não queima no sol e nem enruga na chuva, portanto, com boa saúde, não escapo da minha insanidade que habita em mim constantemente e dos meus pensamentos  que me tornam criança novamente, como diria Graciliano, eu misturo coisas atuais a coisas antigas.

É por isso que muitos me pegam de surpresa por lugares que nem são mais meus ou que se quer existiram, e numa atitude desesperadora e impaciente, me acudam, “acorda”. A minha vida é reduzida em alguém sempre me pedindo para eu acordar. Não as culpo. Elas querem que eu esteja perto, mas quando “acordo” nego que estivesse dormindo.

Estava sim!”, afirma de forma veemente e irritante a Lari. Ela é a minha amiga, sei que é; principalmente quando ela diz que “se preocupa com as coisas que eu tenho na cabeça”, mas quando ela fala desse jeito me sinto aborrecido porque tenho a impressão de que faço parte de uma espécie diferente. É legal ser diferente, porém só quando as pessoas percebem que você é diferente, caso contrário, você só fica sozinho.

Por que têm tanto medo da solidão, Rafa?”, a Lari me pergunta isso todos os dias (irritante!), mas eu minto que “não sei”, em parte porque eu quero que a Lari pare de ser chata e não se intrometa onde não é chamada, mas é porque, também, não quero entrar em assuntos que me doem.
Só que mais uma vez me ponho distraído e volto a viver coisas antigas...

Continua...


____________________________

Alessandro Caldeira é jornalista, santista e nas horas vagas prefere postergar qualquer um desses títulos para se dedicar à literatura, música e cinema.



por Adriane Garcia__



por Tadeu Sarmento__


por Taciana Oliveira__



Sou bem desorganizada. Posso está errada, mas meus amigos aceitam isso numa boa. Eles são parte dessa desorganização. Na verdade, eles me organizam. Sou uma caixa de memórias. Livros, filmes e vinis me acompanham como uma bússola, uma referência para não perder a lucidez. Minha casa não é uma construção física, um imóvel herdado da família, uma escritura registrada em cartório. Já morei em tanta casa que nem me lembro mais. Não moro com meus pais. Minha casa sou eu.

Há alguns meses a radiola, que ganhei de presente do meu irmão, parou de funcionar. Uma hora dessas resolvo esse problema e compro um daqueles modelos vintage, anunciados nas redes sociais. Voltarei a rotina de ouvir Ella Fitzgerald pela manhã, enquanto faço café e penso no que posso deixar de fazer. Conheço e sou usuária dos serviços de streaming. As playlists seguem meus roteiros de caminhadas pelas ruas de Hellcife. Mas escutar um vinil proporciona um monte de sensações que poucas pessoas irão compreender. Muitos não viveram o ritual de visitar lojas de LPS, de garimpar descobertas e dividir essa alegria. Não conheceram seus melhores amigos emprestando um vinil. E aqui começa a história que quero  contar para vocês.

Em 1989, voltei a morar com meu pai. Eu era vizinha do cinema São Luiz e enlouquecia meu irmão, escutando repetidas vezes um compacto de quatro faixas de Janis Joplin, brinde da saudosa Revista BIZZ, publicação da Editora Abril Cultural. Juntei uns trocados, atravessei a cidade e comprei o álbum póstumo Farewell Song, que vinha com umas das interpretações que mais amo de Janis: One Night Stand. Era uma overdose sonora sem fim.



Meses depois comecei as aulas de natação na UFPE, como prática obrigatória da disciplina de Educação Física para os alunos do primeiro período de todos os cursos da Universidade Federal. Naquelas aulas conheci uma grande amiga que me levou ao encontro de outra grande amiga. Vica, estudante de Psicologia, tocava guitarra e desde sempre tinha uma delicadeza que humanizava uma rocha.
Nos encontramos pela primeira vez nos corredores do CFCH (Centro de Filosofia e Ciências Humanas). Ela me emprestou Enterrada Viva - A Biografia de Janis Joplin, de Myra Friedman e o álbum Kosmic Blues. Com o tempo chegaram em minhas mãos On the road, de Kerouac e Escuta, Zé Ninguém!, de Wilhelm Reich.

Tenho certeza que nossos amigos jamais irão esquecer os acordes e a voz inconfundível de Vica: She said: Hey, honey, take a walk on the wild side. Ela adorava Rita Lee, The Doors, Legião Urbana, Lou Reed, David Bowie... Confundia arrumadinho com dobradinha, jogava vôlei pessimamente, mas seu time sempre ganhava. Não entendia nada de futebol, assistia todas as partidas da seleção brasileira pra gritar: “Gol de Raí!” O irmão do jogador Sócrates era o único que ela lembrava o nome. Quando decidiu fazer mestrado e morar em Campinas, foi me contar a novidade, já sabendo que iríamos nos despedir. Naquela tarde ouvimos 10.000 Maniacs. Falamos do futuro, ficamos emocionadas. Minha vida havia tomado um rumo estranho e esquisito. Mas juramos não perder contato. Vica, fiel a sua condição de delicadeza, sempre me guiou de volta pra casa: Não vou deixar você se afastar. Não aceito isso.



Em 2020, estamos tão distantes. A geografia é ingrata. Ela em Sorocaba. Eu em Recife. Mas sempre nos comunicamos, cobramos de nós, coragem. Aquela coragem que ousamos buscar para defender a nossa identidade. Nunca aceitamos a intolerância, o preconceito. Nossa bandeira é plural. Nossa religião, o afeto.
Outro dia, trocando mensagens, Vica me conta que tinha ouvido uma canção no rádio. Tentava lembrar o nome, ia procurar e retornar. Era Janis, era Kosmic Blues. Hoje, aniversário de Vica, tomei café da manhã e vim escrever esse texto. Ouvi Kosmic Blues nas alturas. Acho que, em Sorocaba, ela também ouviu.  


* para Viviane Mendonça
_______________________________________________



*playlist do álbum Kosmic Blues
_______________________________________________



Taciana Oliveira é mãe de JP, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem.

por Taciana Oliveira__  

Limite, Dir. Mário Peixoto


por Taciana Oliveira__ 

No artigo Fotografia:Imagens-poesia como lugar de memória, os autores Rogério Luiz Silva de Oliveira e Edson Silva de Farias afirmam: A fotografia pode ser entendida como imagem-poesia do cotidiano e pode descrever os acontecimentos da rotina de uma cidade como faz a crônica. Ela representa os cotidianos da rua e de interiores. É uma forma de narrativa apegada aos detalhes captados pelo olhar atento do fotógrafo-poeta. No caso da fotografia, uma história escrita com luz.
Selecionamos seis fotografias do mineiro Ricardo Laf para compor a seção Fotogramas do mês de janeiro. Ricardo escreve uma crônica visual que nos apresenta uma cidade poética, solitária e humana. Suas imagens também podem ser consideradas registros fotoetnográficos. Eles revelam histórias culturais presentes na construção e transformação de grupos sociais de Belo Horizonte.


Quilombo Manzo/ Fotografia: Ricardo Laf

por Taciana Oliveira__



curadoria por Taciana Oliveira__


por Taciana Oliveira__

O itinerário biográfico de Bianor Mendonça na cultura popular do Estado de Pernambuco é tema de uma publicação assinada pela historiadora Carla Maria de Almeida e pelo antropólogo Cássio Raniere Ribeiro da Silva. Bianor Mendonça é uma das figuras responsáveis pela construção da identidade social e artística do município de Camaragibe. Os resultados desse projeto, incentivado pelo Funcultura - Secretaria de Cultura e Governo do Estado de Pernambuco, podem ser acessados no site desenvolvido por Ticiano Arraes e na publicação Bianor-Trajetórias e Memórias, disponibilizada para download gratuito na plataforma digital. Conversei com o Coordenador Geral do projeto Ângelo Fábio, sobre os detalhes da produção e os próximos passos para sua continuidade. 

Bianor Mendonça / Acervo da Família

por Adriane Garcia__


por Tadeu Sarmento__








A relação entre História e Literatura não é nova, e a medida em que a primeira abre mão da imaginação em favor da objetividade e, a segunda, colhe o que foi desperdiçado pelo historiador para encher suas narrativas com a riqueza de detalhes, continua motivo de controvérsias. Para um escritor, o risco de pintar um grande painel histórico onde colocar seus personagens é justamente o risco de desaparecer atrás da miríade dos atos e dos acontecimentos. Mas isso não parece assustar Raimundo Carrero que, em sua profunda e corrosiva epopeia (repleta de crítica social) sobre a elite nordestina em absoluta decadência, elege a escrita como principal possibilidade de enriquecimento da História, a partir dos detalhes que ela ignorou no quadro geral de suas explicações totalizantes.

por Taciana Oliveira__

BUDEGAS, mais que vendinhas, elos! é uma exposição promovida por nove artistas cearenses. Ela dialoga com a memória e geografia afetiva da periferia, revelando sons, imagens e palavras desse cotidiano periférico. 
Gustavo Costa, um dos artistas, explica: A Budega cearense é espaço de “manutenção da nossa vida". Nas seções Fotogramas Corredor de Criação iremos apresentar uma série com algumas das obras expostas no Carnaúba CulturalA nossa segunda publicação apresenta o trabalho da fotógrafa Joyce S. Vidal.


Bodega do Edmundo / Fotografia: Joyce S. Vidal

por Taciana Oliveira__

BUDEGAS, mais que vendinhas, elos! é uma exposição promovida por nove artistas cearenses. Ela dialoga com a memória e geografia afetiva da periferia, revelando sons, imagens e palavras desse cotidiano periférico. 
Gustavo Costa, um dos artistas, explica: A Budega cearense é espaço de “manutenção da nossa vida". Nas seções Fotogramas Corredor de Criação iremos apresentar uma série com algumas das obras expostas no Carnaúba Cultural. A nossa terceira publicação apresenta o trabalho da fotógrafa Lucianna Silveira. 

Budega do Seu Valente/ Fotografia:  Luciana Silveira