por Juliana Santos |
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| Foto de engin akyurt na Unsplash |
ENCARNADA
Minha beleza feminina parece
que está projetada do avesso
Queria poder exalar a bonança
do gênero doce
Suave, terna, branda
Ah! Quem dera que assim fosse
Acho que me perdi
Não que assim eu quisesse,
embora tenha merecido
Às vezes me sinto estrangeira
Nasci, mas é como se não tivesse nascido
Preciso saber se ao menos tenho forças
Se tenho tato, se tenho talento
Se posso ser chuva Se posso ser vento
Posso não ser nada,
assim, eu nem ao menos tento
Preciso me preparar a altura,
ser digna, ser forte
Não quero ser resultado do acaso
Da coincidência ou da sorte
A minha face estranha
Assume um papel estrangeiro, indiferente
Me olho mil vez no espelho,
mas não me reconheço Inóspita,
minha estima se mostra ausente
Sem um representante a altura
Pequena, indigna, insignificante
Caio no abismo que eu mesma criei
Mesmo sendo real, julgo-me figurante
Penosa pelo que criei
Recaio na minha própria loucura
A quem devo clamar, agora?
A tu, universo, pela tua Boaventura?
Esgoelo-me por todos, por ninguém
Clamei a mim, mas fui ausente também
Condenada-culpada
Apática, aquém
Desconhecida, sozinha
Só, foragida
Vivo em mim todos os dias
Mas ainda não aprendi
a dar valor a minha vida
Ungi-me, ó Universo
Com toda sua benevolência
Recolhe-me deste cenário
À Minh ‘alma conceda
o gozo da existência
Já andei por muitos lugares
Em muitos deles me senti presente
Já vivenciei muitas experiências
Estava ali, mas me sentia ausente
Gritava alto!
Corria do medo que me tomava
Todos estavam surdos
Ninguém escutava
Sedenta por atenção
Gritei! gritei! gritava!
nem um ouvido parecia me ouvir
Me perdi dentro do meu próprio vácuo
Minha voz se tornou o silêncio,
calada permaneci
De tanto pedir, esgotei a minha cota de oferta
Tolerei a minha invisibilidade
O silêncio, o nada
A ausência de reciprocidade
Coloquei mordaças em minha boca
Cai no emudecimento
Daqui não sai mais nada
Nem canto, nem grito, nem voz,
nem lamento
Juliana Santos (2000) | Nasceu em Água Branca, no Alto Sertão de Alagoas. É professora, mestra em Geografia. Atua no campo do cultura popular, o estudo do lugar e as subjetividades humanas.


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