Laudelinas XXII



Laudelinas XXII


A violência e a morte invadem diariamente as telas dos nossos celulares. A tecnologia, capaz de conectar continentes em segundos, também nos obriga a testemunhar, em tempo real, a destruição de vidas, corpos e sonhos. Entre notificações, vídeos e manchetes, acompanhamos uma escalada de horror que parece não ter fim.


No Brasil, os números ajudam a dimensionar essa exaustão. Em 2024, com levantamento do Retrato dos Feminicídios no Brasil, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 1.568 feminicídios, o equivalente a quatro mulheres assassinadas por dia e o maior índice desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015. Em cerca de 80% dos casos, o autor era o companheiro ou ex-companheiro da vítima. Mais de dois terços dos assassinatos ocorreram dentro da própria residência. As estatísticas ainda revelam o peso das desigualdades raciais: 62,6% das vítimas eram mulheres negras. Metade das mulheres assassinadas tinha entre 30 e 49 anos, mas os números incluem também meninas menores de 18 anos.


As guerras persistem em  produzir viúvas, órfãs e refugiadas. Mulheres e crianças seguem entre as principais vítimas dos conflitos armados que atravessam o planeta. No Brasil, meninas vítimas de estupro enfrentam barreiras institucionais que dificultam o acesso a direitos já garantidos pela legislação. Debates dessa natureza revelam algo mais profundo: a persistência de mecanismos de controle sobre os corpos femininos (PDL 3/2025). Não se trata de proteção. Trata-se de PODER.


Diante de tudo isso, o cansaço é natural e legítimo.


Mas a Laudelinas não nasceu para celebrar o esgotamento. Nasceu para registrar permanências, construir diálogos e reverberar vozes. Nesta edição, reunimos vinte autoras. Vinte formas distintas de olhar o mundo e transformá-lo através da palavra, da arte, da pesquisa e da reflexão. Publicar mulheres sempre será um gesto político. Vivemos um período que exige atenção, memória e responsabilidade coletiva. A história recente nos ensinou que direitos podem ser fragilizados, instituições atacadas e preconceitos legitimados quando a sociedade se afasta do diálogo democrático e da defesa incondicional dos direitos humanos. 


Por isso, torna-se cada vez mais urgente fortalecer redes de apoio, construir pontes e destacar valores que não podem ser negociados: o respeito à diversidade, a igualdade de gênero, a justiça social e a proteção das populações historicamente vulnerabilizadas.

Faço aqui uma autocrítica necessária. Às vezes, o cansaço nos dispersa, nos isola e nos faz acreditar que nossos esforços são pequenos diante da dimensão dos conflitos. Mas talvez seja justamente nesses momentos que a união se torne mais necessária e que a produção artística e científica precisem ocupar mais espaço. O cansaço faz parte, mas sigamos adiante:


🎶* Só mesmo rejeita

Bem conhecida receita

Quem, não sem dores

Aceita que tudo deve mudar


Que um homem não te define

Sua casa não te define

Sua carne não te define

Você é seu próprio lar🎶


Taciana Oliveira

 Editora


PS: Conheçam nosso espaço virtual e façam o download gratuito da revista em www.revistalaudelinas.com.br 

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*Triste, Louca ou Má, canção de Francisco, el Hombre, 2016


Participam dessa edição: Adriane Garcia, Alice Monteiro Puterman, Argentina Castro, Cinthia Kriemler, Conceição Rodrigues, Daniela Camargo, Danielle Freitas, Flávia Tedoro Alves, Germana Accioly, Iaranda Barbosa, Lisa Alves, Luciana Pinto, Maria Emanuelle Osório Prates, Mariela Mei, Mila Nascimento, N. Netta, Paula Valéria Andrade, Silvana Guimarães, Taciana Oliveira, Yvonne Miller.


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