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Meio ambiente a todo custo, pessoas nem tanto? | Igor Mateus Soares

 por Igor Mateus Soares |



Meio ambiente a todo custo, pessoas nem tanto? 

Hoje se abre um debate fundamental que é a preservação do meio ambiente, aquecimento global e o racismo ambiental. Pautas e lutas fundamentais que mais uma vez são apropriadas pela classe média branca e pelo academicismo que vê a periferia de forma distante dos seus debates. 

Aqueles que passam pelas dores e dissabores dos desastres ambientais, vivendo distante dos fóruns e das mesas de discussões, viram números e visualizações de engajamento na internet. Quase nunca protagonistas, pois existem salvadores que quase sempre carregam o mesmo tom de pele e o ar professoral de superioridade de quem tem algo a ensinar para aqueles que aprenderam a sobreviver no sufoco. 

Esse padrão não é isolado. Recentemente, uma senhora de 62 anos foi resgatada em regime análogo à escravidão em um condomínio de luxo no bairro Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza, Ceará. Não houve tanta comoção ou mobilização, afinal não é uma árvore, é uma pessoa. Não deve ter tanta importância assim. 

O mesmo silêncio se repete quando olhamos os números. A cada 23 minutos, morre um jovem negro no Brasil; a cada 17, uma pessoa negra. 77% das vítimas de homicídios são negras. A maioria cresce sofrendo diversas facetas do racismo, seja policial, político ou ambiental. Isso, ao que parece, não merece tanto empenho de muitos ambientalistas, afinal são pessoas e não árvores. 

Essa desconexão entre discurso e prática fica ainda mais clara em situações concretas. Um influencer e artista cearense publicou que foi autorizada a construção de uma escola pelo Governo do Estado no Residencial José Euclides, onde residem mais de 10 mil pessoas. No conjunto não há coleta de lixo com regularidade, esgotos estourados, falta de água, ausência de CEI e de equipamentos básicos, tal qual um posto de saúde. Alguns comentários estavam preocupados com as árvores, mas não com: "Como pode um conjunto habitacional com mais de 10 mil pessoas não ter uma escola de ensino médio?" O racismo ambiental atinge todos os dias essas pessoas e a ausência de direitos humanos também. Mas a preocupação era com as árvores, afinal, são árvores e não pessoas. 

E os dados mostram que isso não é exceção. Meio milhão de domicílios em favelas no país não têm acesso a água, segundo o IBGE. 86% das favelas enfrentam eventos climáticos extremos. A maioria das pessoas atingidas em Brumadinho são mulheres negras. Diante disso, talvez caiba perguntar: por que os fóruns, parlamentares, ONGs e órgãos de debates estão lotados da classe média e da branquitude, enquanto a dor das periferias, que são as mais castigadas com eventos climáticos e o racismo ambiental, torna-se apenas engajamento para essa mesma branquitude? 

Ao fim, vale mais a performance e o falso moralismo da classe média, branca e elitista, do que o protagonismo dos que estão da "ponte pra cá", como diz a letra dos Racionais MC's: "O mundo é diferente da ponte pra cá". O engajamento nas redes sociais vale mais. 

Discutir o impacto dos data centers usando as redes sociais das grandes big techs, que são as principais causadoras de assoreamento, desmatamentos e destruição, vale mais.

Discutir soberania digital? Saídas para a soberania nacional e proteção de dados? Dois problemas para enfrentarmos de frente. Salve importante aos mais impactados por esses empreendimentos. Talvez fique aqui um "se toque" para aqueles que se apropriam dos espaços e das lutas buscando estrelismo. 

Os de baixo não são algoritmos, não são views, não são somente números de seguidores. Esses têm sentimentos, alegrias, medos, angústias e tristezas ao fim do mês sem saber o que vai ter para comer. Afinal, são pessoas e não árvores. 

E você, de que lado da ponte está? 




Igor Mateus Soares - Nascido em Fortaleza e criado na periferia de Caucaia, no bairro São Miguel II, conjunto habitacional construído em regime de mutirão. Militante da Revolução Solidária e Ação Negra.