por Raphael Cerqueira Silva |

Foto: Damir K
General-sem-estrelas

Sinos marcam a derradeira badalada das dez. Fecho o livro. A brisa, vagarosamente, traz o inverno.
Como seria a vista da sua cobertura? A viração do mar sussurrava poesias para você converter em prosa? Dirijo estas perguntas ao velho Braga — em preto e branco, na capa do livro. Tal como a noite, ele preserva o silêncio.
Melhor assim: posso imaginar ondas quebrando lá embaixo, boêmios tamborilando outro sambinha na mesa de ferro, as plantas bailando no jardim suspenso...
Súbito, um berro:
— Não! Eu não quero!
Seguido de um choro desembestado. Como chora o neto do vizinho! É essa choradeira desde a hora em que acorda até a hora de dormir.
— Passa pra cá, seu bosta! Senta aí.
Agora é o vizinho que grita.
“Ele e a esposa não têm idade pra cuidar de criança”, comentam — à boca pequena — os condôminos.
Tenho pena desse menino. O que será de seu futuro? O pai sumiu no mundo; a mãe deve estar em uma boca de fumo — segundo dizem por aí, largou o menino com os avós para viver de vício e gandaia.
A porta da sacada bate.
— Não. Eu não quero, vô. Para.
— Vou te mostrar se você tem querer. Senta aí!
Da avó, não se ouve um pio. “Uma infeliz, que passa maus bocados nas mãos desse general-sem-estrelas”, cochicham pelos corredores do prédio.
O velho tem mesmo o porte e a arrogância daqueles milicos de tempos sombrios. E, no entanto, nunca vestiu farda — aposentou-se como funcionário público.
O menino chora. O avô grita coisas absurdas.
— Você vai fazer a nebulização, sim.
Nebulização. Esta palavra também povoou minha infância de sons.
Não me recordo se, algum dia, precisei me submeter à nebulização. Mas minha irmã, durante muito tempo, viveu às voltas com crises respiratórias. E, todas as vezes que minha mãe preparava o remédio, era aquela confusão: minha menina se escondia atrás da porta ou debaixo da cama; meu pai urrava e xingava — como o velho do apartamento ao lado. Ainda hoje lembro do nebulizador verde-água e barulhento, do choro, da fúria paterna, da mãe pedindo paciência…
— Senta aí. Merda!
— Larga ele! Assim não vai dar, não!
É o filho do vizinho. Enfim, alguém em defesa da criança. Esse cara é meio estranho: solteirão, de pouca conversa, semblante sempre fechado, olhos tristonhos.
— Não grita comigo, seu bosta.
— Já gritei.
— Quer bancar o machão, é?
A criança berra ainda mais. De repente, minhas memórias põem na boca da vizinha as palavras da minha mãe implorando paciência.
— Exijo respeito. Não vem tirar onda pra cima de mim, seu frango.
— Vai lá pra dentro. Eu faço a nebulização nele.
— Tá pensando que é o quê, hein? Filho da puta.
— Igualmente.
— Te enfio a mão na lua, seu merda. Quem é você pra falar assim comigo?
— Tô na minha casa. Falo do jeito que eu quero.
— Ah, chegou onde eu queria. Ouviu isso, né, amorzinho?
O menino não para de gritar; da velha — o “amorzinho” do vizinho — não se ouve nada.
— Quem sustenta essa casa sou eu.
— Isso não te dá o direito….
— Direito é o cacete de Madureira. Não vem com esse papo pra cima de mim.
Nunca entendi por que o rapaz aceita esse velho em seu apartamento. Sim, ele é o legítimo proprietário. Soube disso em reunião do condomínio. Todavia, é o general quem participa das reuniões — sempre tumultuando, falando alto, impondo opiniões ultrapassadas. A síndica comentou, certa vez, que ele o suporta por piedade da velha — mais uma coitada que ainda acredita na indissolubilidade do casamento.
Outra porta bate. Mais pesada. Som de madeira — provavelmente do quarto.
O menino, aos poucos, se acalma.
O zumbido do aparelho toma a noite. Suave, quase inaudível. Nem se compara aos decibéis que eu ouvia na minha infância.
Olho o livro.
Ah, quem me dera uma cobertura em Ipanema, onde eu pudesse contar estrelas no embalo da rede ouvindo o canto do mar.

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