Popular

Domostrói | Valdocir Trevisan

 

Foto de Jr Korpa na Unsplash

Domostrói



Outra “indústria cultural”...

Nas discussões entre pais, filhos, aristocratas e o niilista de Turguêniev, um acusa o outro de ser admirador do Domostrói. Onde somente o chicote manteria a paz conjugal, entre outras ameaças.

Mas, “Domostrói”, o que é isso? Tratava-se de um código de hábitos e costumes do século XVI que conferia total autoridade ao chefe da família. Não obedeceu?

Vai aprender na marra, com uma surra de relho…

Bom, para quem não sabe, relho é aquele chicote que o “valente” gaúcho usa nos cavalos.

Roubo o conceito citado por Turguêniev para inserir outros processos, as indústrias e as violências culturais. E, como sempre busco trazer tais temas para a atualidade, parece que o tal Domostrói está destruindo as  vidas das mulheres em nossa sociedade vigente.

Os feminicídios explodem em nossos cotidianos em reais aberrações humanas (sic) que acham que seus “domostróis” (existe plural?) e podem chegar a extremos surreais…

Porém, o mesmo Turguêniev coloca na voz de um niilista, em Pais e Filhos, palavras que recusam qualquer submissão ao pensamento alheio: não aceita as opiniões de Proudhon “nem de quem quer que seja, porque tenho minhas próprias opiniões”... Convicto, o rapaz…

Esse tem certeza de que não será atingido por nenhum domostrói.

Nenhuma violência cultural, nenhuma imposição, mesmo as ocultas, vai tirar o sono do personagem niilista de Turguêniev.

Essa é sua essência: escapar das arapucas deles… sempre eles…

As artimanhas afloram. Bom, algumas agem escondidas, porém os processos amansam os desavisados.

Ah, querido domostrói, seus parentes modernos se revelam nas teorias das comunicações, espetando o indivíduo em suas carnes inocentes.

A autoridade patriarcal assume novos processos, mas o relho parece ser o mesmo. O chefe da família é aquele chefe das… mídias malditas…

Agenda a própria família, abusa das instituições e rasga qualquer doutrina que contrarie suas convicções. Sua religião é a única válida: ele é, afinal, homem de família, patriota e homem de Deus. 

Sim, a família…dele…

A pátria…dele…

O Deus… dele…

Hábitos e costumes…deles…

Domostrói…dele…

E, para aquele que achar que estou mentindo, eu tiro meu chapéu.

Eu, que apenas almejo ser contente, trazendo para toda gente vontade de se abraçar, sigo o canto geral de Geraldo Vandré.

Liberto, distante de dogmas pré-concebidos.

Difícil?

Com certeza, mas prefiro as incertezas de Zygmunt Bauman.

As próprias teorias da Comunicação esclarecem como funciona a “coisa”.

Teoria do Agenda-Setting (agendamento), teoria da Espiral do Silêncio e a “Dupla Violência” de Pierre Bourdieu, entre outras, desmascaram o antigo Domostrói.

O caminho é longo até chegar às fake news e aos robôs que trabalham a seu serviço. Eles, sempre eles, são insaciáveis. Ao desatento resta perceber que sua ingenuidade cobra um preço: interfere em seu cotidiano e, pior, faz com que patrocine, sem saber, práticas e valores de seus próprios opressores. 



Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)