O último maxixe imagina encontro de Chiquinha Gonzaga com o nascimento do samba moderno

 


Romance de estreia de Igor Miguel Pereira acompanha a compositora no Rio de Janeiro dos anos 1930 e reúne música, cinema e personagens da cultura brasileira. Livro será lançado nesta quarta-feira (2), na Livraria Alento, no Rio de Janeiro

Chiquinha Gonzaga passeou por diferentes momentos da música brasileira. Em seu repertório estão lundus, maxixes, choros, polcas, valsas, tangos e marchinhas. A compositora ainda estava viva e atuante quando o samba moderno começou a ganhar espaço no Rio de Janeiro, mas o gênero que se tornaria um dos principais símbolos da identidade nacional não aparece em sua extensa produção musical. É justamente nesse intervalo da história que o escritor e roteirista Igor Miguel Pereira situa seu romance de estreia, O último maxixe, publicado pela Editora Patuá.

A ficção histórica imagina um encontro possível, embora não documentado, entre Chiquinha Gonzaga e a nova maneira de tocar samba que surgiu no bairro do Estácio. Ambientada no Rio de Janeiro dos anos 1930, principalmente na região da Lapa, a narrativa também acompanha outro momento de transformação cultural: os primeiros passos do cinema falado no Brasil. Aos 84 anos, a Chiquinha Gonzaga recriada no romance recebe uma proposta inesperada. Patrick Finnegan, um atrapalhado produtor norte-americano, e Olavo Neves, diretor de cinema atormentado, convidam a compositora para criar a trilha sonora do primeiro filme musical produzido no país, projeto da recém-criada Guanabara Filmes.

Chiquinha aceita o desafio e começa a preparar o repertório. Durante as audições, porém, conhece a atriz e dançarina Tereza dos Santos e três músicos do Estácio. É por meio deles que entra em contato com uma batida diferente daquela dos maxixes que conhecia e dominava. Tamborim, surdo e cuíca anunciam um samba mais quebrado e livre, cujo ritmo escapa à experiência da pianista. Decifrar aquela nova sonoridade acaba se transformando em sua última obsessão.

A ideia nasceu justamente de uma lacuna histórica que despertou a curiosidade de Pereira. Chiquinha estava viva quando a Mangueira venceu seu primeiro Carnaval e quando as músicas de Ismael Silva e Noel Rosa já tocavam no rádio. Para o autor, o encontro da compositora com aquele novo universo musical provavelmente aconteceu, embora não se saiba em quais circunstâncias.

“Esse encontro de alguma forma existiu, só não sabemos o que ocorreu. Então, só me restou imaginá-lo. A ideia para o livro nasceu a partir dessa inquietação”, explica.

Conhecedor da biografia de Chiquinha Gonzaga e apaixonado por samba, Igor Miguel Pereira já havia se aproximado da trajetória da compositora no audiovisual. Ele codirigiu o documentário Chiquinha Gonzaga: Música Substantivo Feminino, exibido em 2023 no Festival In-Edit e posteriormente nos canais Curta! e Amazon Prime.

Na preparação do romance, o escritor pesquisou as transformações rítmicas e o contexto social relacionado às origens do samba. O chamado samba do Estácio ofereceu um dos elementos centrais para a ficção. “É muito bonito pensar a batida do samba como um enigma a ser decifrado. Me pareceu o mote perfeito”, afirma Pereira.

O cinema permitiu reunir os diferentes fios da história. Os primeiros musicais falados brasileiros receberam influência do teatro de revista, ambiente no qual Chiquinha Gonzaga desenvolveu parte importante de sua carreira. A partir dessa conexão, Pereira cria uma trama bem-humorada que aproxima acontecimentos históricos de situações e personagens inventados. O Rio daquele período também ganha espaço na narrativa. Cinelândia, Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, Rua do Ouvidor e Rua Mem de Sá aparecem entre os cenários de uma cidade que experimentava mudanças na música, no entretenimento e na vida urbana. Nesse ambiente, personagens ficcionais convivem com nomes que marcaram a cultura brasileira. Paulo da Portela e Mário de Andrade integram a trama, que ainda reserva aparições de Carmen Miranda, Cartola, Noel Rosa, Ismael Silva, Mário Rodrigues e Nelson Rodrigues. Malandragem e improviso completam o universo de brasilidades explorado pelo romance.

Igor Miguel Pereira | Divulgação

Da pesquisa audiovisual à ficção

Nascido em Angra dos Reis, em 1989, Igor Miguel Pereira vive no Rio de Janeiro e trabalha como escritor, roteirista e redator. Participou de projetos televisivos como Poesia e Prosa com Maria Bethânia, O Tempo e a Música: Noel Rosa e Tom Jobim e Filosofia e Música, este último vencedor do prêmio de Melhor Programa de Variedades no Rio Creative Conference 2019. No documentário, participou de Dolores Duran: O Coração da Noite, exibido no Festival In-Edit, nos canais Curta! e Amazon Prime e no Ojú – Roda Sesc de Cinemas Negros, além de codirigir o filme dedicado a Chiquinha Gonzaga.

Em O último maxixe, o autor retorna à compositora por outro caminho. Se o documentário estava comprometido com os acontecimentos registrados, a literatura lhe permitiu imaginar aquilo que a documentação histórica não preservou. O livro foi contemplado pelo edital Produção de Obra Literária: Literatura do Rio ao RJ, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro.

O lançamento acontece nesta quarta-feira, 2 de setembro, às 19h, na Livraria Alento, no Flamengo. A programação terá bate-papo entre Igor Miguel Pereira e o músico, podcaster e pesquisador musical da UFRJ Dennis Novaes.


Serviço | Lançamento de
O último maxixe

Data: 2 de setembro de 2026
Horário: 19h
Local: Livraria Alento, Flamengo, Rio de Janeiro
Bate-papo: Igor Miguel Pereira e Dennis Novaes