por Carlos Monteiro |
| Fotografias de Carlos Monteiro |
Ceará, terra sol
Há
lugares que a gente visita e há lugares que visitam a gente. O Ceará é desses.
Chega
primeiro pelo ouvido. Pelo sotaque. Aquele falar cheio de malemolência, de
vogais abertas, de palavras que parecem dançar antes de chegar ao fim da frase.
O cearense não fala apenas. Ele interpreta. Há humor na voz. Há música no jeito
de dizer. Há uma espécie de sol escondido até quando o céu ameaça chuva. Depois
vem o cheiro. E aí já não há mais defesa.
Baião de
dois. Carne de sol. Peixe fresco. Camarão. Tapioca. Cuscuz. Rapadura. Castanha.
Panelas fumegantes. Temperos que parecem guardar o segredo de muitas gerações.
A culinária cearense não alimenta apenas o corpo. Alimenta a memória. Mas é
quando os olhos encontram o mar que o viajante entende que chegou a outro
lugar. Águas verde-esmeralda.
Verdes
que parecem impossíveis. Azuis que o sol transforma em prata. Dunas que
caminham com o vento. Coqueiros inclinados como se quisessem ouvir o que o mar
tem a dizer. Guaramiranga, Canoa Quebrada, Flecheiras, Icaraizinho, Cumbuco,
Lagoinha. Nomes que parecem ter sido inventados por algum poeta apaixonado pela
natureza. E o Ceará continua surpreendendo.
Porque
ali o sol não é apenas fenômeno meteorológico. É personagem. É fotógrafo. É
pintor. Acende a areia pela manhã. Doura a pele à tarde. E, no fim do dia,
transforma o horizonte em uma tela que nenhum artista conseguiria reproduzir.
Talvez
por isso eu tenha uma convicção quase religiosa: todo ser deste planeta deveria
conhecer o Ceará pelo menos uma vez na vida.
Assim
como o muçulmano sonha em visitar Meca, há lugares que deveriam fazer parte da
peregrinação humana. Lugares que nos lembram da dimensão do mundo e, ao mesmo
tempo, da nossa pequenez diante dele.
O Ceará é
a Meca tropical. Não por dogma. Por encantamento. É uma peregrinação feita de
areia nos pés, sal na pele, vento no rosto e alegria na alma. Quem chega pode
até pensar que vai apenas conhecer praias. Engana-se. Vai encontrar gente. E
talvez essa seja a maior paisagem cearense.
O sorriso
fácil. A conversa que começa sem cerimônia. A hospitalidade que não precisa de
manual. O humor que aparece mesmo quando a vida aperta. A capacidade de
transformar dificuldade em história e história em gargalhada. O Ceará é terra
de sol, de um sol para cada um.
Mas
também é terra de luz. Luz nas águas. Nas dunas. Na comida. Na voz. No olhar de
quem recebe. E quando chega a hora de partir, acontece uma coisa curiosa. A
gente leva fotografias. Leva lembranças. Leva sabores. Leva algumas palavras do
sotaque tentando permanecer na memória. Mas deixa alguma coisa por lá. Talvez
seja justamente isso que faz um lugar ser inesquecível. Você pensa que foi ao
Ceará. Depois percebe que, de algum modo, foi o Ceará que veio morar dentro de
você.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.
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