Para chatear os imbecis

por Taciana Oliveira__  

Limite, Dir. Mário Peixoto


Lembro com exatidão da primeira vez que entrei em uma sala de cinema. A fila dava voltas nos arredores da Rua da Aurora em 1974. O cine São Luiz repleto de crianças nas escadas e corredores ostentava o cheiro amanteigado da pipoca que invadia seus espaços. Um público imenso gargalhava com as peripécias de Renato Aragão no filme O Trapalhão na Ilha do Tesouro. Eu e meu irmão estávamos eufóricos com aquele momento, e nem poderíamos imaginar que um ano depois desse episódio, nossas vidas sofreriam uma reviravolta. Nada seria como antes, “amanhã e depois de amanhã”. Mas essa história a gente conta em outro momento. 

Ainda sob os efeitos da abertura do governo Figueiredo, em 1981, o Jornal Nacional anunciava a morte de Glauber Rocha. Eu, uma menina apaixonada pelos livros da Coleção Vaga-lume, não poderia dimensionar o que aquela figura representava para o cinema. No ano de 1987, adolescente e preocupada com o vestibular, li na extinta revista Manchete uma matéria sobre a morte do diretor Leon Hirszman, aos 49 anos, em decorrência da Aids, que teria contraído de uma transfusão de sangue. A obra de Leon naquele instante passou a me acompanhar na vida acadêmica e no meu desejo inconsciente de fazer cinema, seja pelo comprometimento social ou pelo desejo de se conectar à poética visual da sétima arte.



Deus e o Diabo na Terra do Sol, Dir. Glauber Rocha
Quando fui aprovada no vestibular de Comunicação Social: Radialismo, minha “nova casa” durante quatro anos e meio foram as salas e jardins do Centro de Artes e Comunicação, o famoso, famigerado e acolhedor CAC, prédio frequentado por alunos de todos os cursos da Universidade Federal de Pernambuco. Na UFPE fiz minhas melhores amizades, aquelas que contribuem na sua formação emocional. Anos de conversas e escutas sobre música, cinema e política. Anos de sessões no Teatro do Parque. Lembro nitidamente dos dias que assisti O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Terra em Transe, de Glauber Rocha, e Limite, de Mário Peixoto, no aparelho de videocassete hi-fi, na casa de amigos dos cursos de Letras e Jornalismo. Eram ambientes regados a utopias e abraços. Uma época em que fazer cinema era algo improvável, um sonho impossível para estudantes de Comunicação. Hoje percebo que todas essas amizades, de alguma forma, estão presentes na minha história profissional.


Eles não usam o black-tie , Dir. Leon Hirszma

Fernando Collor, primeiro presidente eleito numa eleição direta, após a ditadura militar, extinguiu a Embrafilme em 16 de março de 1990. Para muitos um ato revanchista contra a classe artística que não o tinha apoiado na campanha eleitoral. Nos anos de ausência de políticas públicas que garantissem a continuidade produtiva do setor, resistir era quase um ato de insanidade. Mesmo assim uma geração sedenta e criativa continuava a sonhar, captando imagens em VHS, produzindo peças audiovisuais em equipamentos de TV, dirigindo videoclipes, documentários e comemorando anos depois a retomada do cinema nacional com o lançamento, em 1995, do filme de Carla Camurati, Carlota Joaquina. Recordo um Teatro do Parque lotado, com filas invadindo os quarteirões da Praça Maciel Pinheiro.


Cidade de Deus, Dir. Fernando Meirelles

A produção cinematográfica pernambucana na mesma década dava os primeiros passos e respirava com o Baile Perfumado (1996), filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. O cinema nacional finalmente saia da inércia e partia com tudo para reconquistar o mercado: O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto e Central do Brasil (1998), de Walter Salles eram indicados ao Oscar.
Mas é a partir dos avanços tecnológicos, da prática de políticas culturais, da criação da Ancine no governo FHC em 2002, que o setor inicia sua recuperação.
 
Carlota Joaquina, Dir. Carla Camurati

Nos governos de Lula e Dilma Rousseff, são implementadas ações que promoveram a multiplicação de festivais, oficinas, produções audiovisuais para TVs a cabo e serviços de streaming. A criação de politicas inclusivas estaduais e federais deram voz e tela a grupos sociais carentes de representatividade. Nos últimos anos o setor audiovisual (a produção de conteúdo, a distribuição e a exibição em salas de cinema e festivais; TV aberta e paga, vídeo sob demanda e a venda e locação em mídia física) injetaram R$ 23 bilhões na economia do país.
Alguns dos títulos que ajudaram a redefinir o público e o mercado: Cidade de Deus (indicado a quatro categorias no Oscar, 2004), de Fernando Meirelles e Tropa de Elite, de José Padilha (ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim, 2008)
Sim, o brasileiro retoma as salas de exibição e passa a cultuar o cinema nacional como referência estética e etnográfica.

Direção: Petra Costa


Eu não aceito que em 2020, um presidente que ataca a imprensa, promova a censura, cancele editais e estimule a perseguição a professores e cientistas, afirme: Há quanto tempo a gente não faz um bom filme no país?
Não vou perguntar se ele já assistiu a algum documentário do premiado Eduardo Coutinho, se já foi a uma sala de cinema e se deparou com a infinidade de títulos nacionais distribuídos por empresas brasileiras. Nesse governo não cabe diálogo, o sentimento cristão dessa gente é banhado na violência, no sentimento de exclusão de tudo que é diferente.
Não à toa alguns dos filmes que se destacaram no ano passado, Bacurau, de Júlio Dornelles e Kleber Mendonça, A Vida Invisível, de Karim Aïnouz (premiados no Festival de Cannes 2019) e Democracia em Vertigem, de Petra Costa (na pré-lista de indicados ao prêmio de melhor documentário no Oscar 2020) representam uma geração de realizadores que não se rendem ao vazio de um discurso senil e reacionário de quem atualmente conduz o país.
É preciso entender que há uma ameaça real ao cinema brasileiro quando um governante propõe a diminuição de cotas nacionais nas salas de exibição. Nesse governo de dados camuflados e da justiça seletiva, até um pastor é cotado para assumir a gestão de uma agência de cinema.

A vida invisível, Dir. Karim Ainouz   

Nesses anos todos passei por situações inconstantes, tive um filme cancelado, uma depressão motivada por problemas particulares, perdi amigos, ganhei outros, pensei em largar tudo e me dedicar ao exercício do silêncio. Mas por paixão e uma obrigação quase religiosa, assisti uma imensidão de títulos nacionais e internacionais. O artista tem o poder de nos transformar em pessoas reais, movidas por sentimento e compaixão. O cinema é minha morada, minha ponte de conexão com o mundo. Reavaliei tropeços, produzi histórias, trabalhei com arte-visual, escrevi roteiros, poemas e canções.

De vez em quando tomo emprestado o texto publicado em maio de 1987, uma resposta do fantástico Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma (1969), ao jornal francês Libération, Pourquoi filmez-vous?

Por que você faz Cinema?

Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de sequências dó-de-peito
Para viver à beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo
Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi Simão no Deserto
Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais.  

Como bem disse a atriz Marieta Severo: A gente sempre retoma e sempre retomará.  Resistir é a nossa bandeira. Vá na paz!

Bacurau, Dir. Kleber Mendonça e Juliano Dornelles


*Este texto nasce como desabafo, resposta para os celerados, dementes e oportunistas que não entendem nada de economia criativa e menos ainda sobre os mecanismos das leis de incentivo a cultura. Fanáticos, adoradores de um mito-miliciano, estudem, amadureçam ou cuidem do seus recalques no hospício.

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*por Adriana Calcanhoto em seu álbum A Fábrica do Poema, 1994.
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Taciana Oliveira é mãe de JP, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem.



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