Jirau, um conto de Fernando Ferrone

por Fernando Ferrone__

Tinha sido uma sexta-feira bem cansativa no trabalho de Antônio. Várias caixas com documentos haviam chegado e, mais do que comumente, estavam em estado de absoluta desordem. Era preciso separar todos os memorandos e contratos por data de expedição/assinatura e organizá-los em ordem decrescente de antiguidade. Isso era o mínimo a ser feito, porém Antônio aguardava mais instruções do remetente.

A empresa de armazenamento em que ele trabalhava era uma das últimas que ainda restavam dentro da capital. As outras cinco tinham sido deslocadas para novas instalações em cidades periféricas: dispunham de modernos sistema de acondicionamento, com temperatura e umidade controladas, bem como um sistema todo automatizado de controle de incêndios. O site da maior delas anunciava que era capaz de guardar documentos vitais pelo dobro do prazo requerido legalmente e ainda oferecia amplo seguro gratuito pelo prazo de cinquenta anos.

Antônio tinha um amigo numa dessas companhias e estava bem ciente das instalações de que os funcionários dispunham: vestiários amplos, louças novas nos banheiros, copa com eletrodomésticos de última geração. Esse amigo disse que o supervisor tinha prometido uma mesa de pingue-pongue caso as metas semestrais fossem atingidas. Tudo isso era material de inveja para Antônio, que dividia espaço com esporos de fungos, resquícios históricos de lufadas de ar dos anos 1920, bulbos de lâmpada encardidos, um telefone de disco e uma carteira escolar à guisa de escrivaninha. Sua cadeira de trabalho era de compensado e nos últimos tempos as farpas começaram a desfiar suas calças.

Tudo isso perturbava Antônio, certamente. Porém, mesmo que ele não tivesse consciência plena disso, havia um elemento algo mais inefável que o desconcertava. Com os cortes dos últimos dez anos, havia restado somente ele no arquivo do último subsolo, o qual, aliás, era o único que permanecia ativo. O do primeiro fora desativado há cinco anos. E o do segundo, há três. O térreo, a única parte do “complexo” acima do solo, era ocupado apenas pela segurança patrimonial, uns três terceirizados que trabalhavam em regime de escala, e que Antônio nunca via, pois o elevador antediluviano de porta sanfonada que ele utilizava o despejava diretamente na saída sul do estacionamento.

Lá ele mantinha solitário seu Peugeot 2002 vermelho, que, nesse dia continha sua mala com roupas para dois dias. A ideia era sair mais cedo naquela sexta abafada de tempo de chuva, porém a chegada dos novos materiais e a expectativa de instruções (que afinal não vieram), o retiveram até o horário normal. Ele pegaria congestionamento na saída da capital, teria que acrescentar duas horas à já cansativa viagem de quatro horas até sua cidade natal. O aniversário do velho Antônio cairia no sábado e Antônio, o filho, não teve como não prometer que iria.

O velho Antônio enviuvara no ano passado. A mãe de Antônio falecera de causas naturais, na cama, aparentemente sem sofrer. Antônio conseguira uma licença e comparecera ao sepultamento. O velho Antônio, que permaneceu calado ao lado do caixão, não derramou uma lágrima e devolvia as condolências com fria dignidade. Antônio, que permaneceu firme mesmo quando viu a mãe engalanada de flores, desabou ao abraçar o velho Antônio.

Aconteceu tudo muito rápido após isso. A casa em que Antônio nasceu fora vendida e o velho Antônio reclusou-se no sítio que a família mantinha havia gerações. Era uma pequena propriedade na zona rural da cidade, com uma casa centenária algumas vezes reformada, uma horta, um pomar, um lago artificial e alguns animais de criação. Nenhum deles com nome próprio. Havia somente uma mulher idosa do mesmo tanto que Antônio que fazia as vezes de sua empregada e enfermeira. Quando havia necessidade de alguma manutenção, Antônio fazia ele mesmo ou arranjava alguém na cidadezinha.

Antônio e a empregada conversavam o mínimo possível: rapidamente haviam estabelecido uma rotina que não necessitava de maiores burilações cotidianas.

Ambos estavam dormindo quando o Peugeot 2002 estacionou no pedrisco ao lado do portão de entrada da casa. O velho labrador mestiço, azevichado, ensaiou duas latidas roucas e resignou-se. Antônio saudou-o e apanhou sua mala. Entrou com cuidado na casa, farejou a madeira antiga do forro, vislumbrou as brasas moribundas do fogão de lenha e tocou no velho interruptor lançando uma luz amarela pálida sobre o cômodo.

Um sentimento de desolação tomou conta de si. O cansaço do dia, da viagem e da necessidade da convivência pelas próximas quarenta-e-oito horas com o velho Antônio o deprimiram e ele se largou numa das cadeiras de palha.

Não ouviu Antônio se aproximar.

Ó, finalmente você chegou. Como foi de viagem?”

Antônio murmurou que tinha sido OK. O velho apontou as panelas sobre o fogão e disse que ele poderia se servir caso tivesse fome. Antônio negou com a cabeça e perguntou se havia algo de beber.

Escolha algo na cristaleira da sala. Eu te acompanharia, mas preciso acordar cedo amanhã. Tenho que pegar uns sarrafos na cidade e consertar o jirau.”

Jirau era como o velho chamava o deque de madeira podre que avançava sobre o lago.

Antônio seguiu até o móvel, abriu a portinhola e apanhou uma velha garrafa de conhaque e um copo. Serviu-se uma dose e procurou na penumbra uma poltrona. Ficou satisfeito quando também alcançou um pufe e pôde alongar as articulações maltratadas pelo trajeto.

A poltrona tinha vindo da antiga casa de cidade. Contrastava com o sofá, que sempre fora do sítio e do qual ele tinha somente lembranças esparsas das incursões de domingo. A poltrona era o trono do velho Antônio, onde ele lia, ouvia rádio e cochilava. Antônio brincara a seus pés, até que não mais, quando se trancava em seu quarto e passava as tardes jogando videogame.

Antônio sempre viu o pai como uma espécie de muralha. Algo que protegia o lar. Impassível. Mas ao mesmo tempo alto, inacessível, frio. E mudo.

Antônio não tinha irmãos. A mãe era bancária e passava o dia fora. Em casa, ficava somente o velho cuja marcenaria ficava na frente. Quando Antônio voltava de escola a tarde, almoçava e ficava vendo televisão até dormir. E nunca conversava com o velho. A poeira de serragem lhe atacava os olhos. O ruído da serra o incomodava. E ele achava o local sujo e desagradável. Era melhor jogar videogame.

Quando era fim de semana, o pai de Antônio preparava seus caniços, samburá e iscas e partia para a beira do rio. Passava o dia pescando. Antônio o acompanhara algumas vezes, meio a contragosto, por insistência da mãe. Pelo menos aos sábados o videogame era proibido. Senta-se ao lado do pai, comia seus sanduíches e bebia seu refrigerante. O pai lhe preparava a vara. Ensinou-lhe que ele não precisaria ficar segurando-a o tempo todo, que, apoiada num pedaço de ripa e enfiada um pouco na grana, ela ficaria estável. Mas os peixes não se fisgavam sozinhos, então ele teria que ficar atento e atraiçoá-los com um pequeno tranco assim que visse a linha vibrar. Antônio cansava de esperar e cochilava. Ou se distraía e perdia a isca. Um dia tropeçou numa raiz e torceu o tornozelo. Chegou chorando em casa e contou para a mãe que não queria mais ir. A proibição foi suspensa e os Antônios passaram a desfrutar os sábados sozinhos em seus cantos.

O conhaque já ia pela metade quando Antônio, entorpecido pelas lembranças, decidiu que era hora de ir pra cama. Jogou-se sobre os lençóis e afundou a cara nos travesseiros. Foi acordar somente no dia seguinte, bem cedo, acordado por ruídos vindos da cozinha. A boca seca e a testa latejando. Perguntou à empregada se havia algo para tomar, ao que ela negou com a cabeça e lhe ofereceu um copo de água morna com açúcar, que, segundo ela, ajudaria. Antônio bebeu e voltou a dormir. Quando acordou novamente, já passava das duas e meia e a dor de cabeça tinha sido substituída por fome.

A empregada não estava mais na cozinha. Fez seu prato, deixou a louça suja na pia, seguiu até a varanda e acariciou o cão negro. Ouviu ao longe marteladas espaçadas e resolveu verificar.

O lago ficava após um pequeno bosque de pinheiros. Não havia trilha e o solo estava coberto de agulhas e pinhas secas. O pai de Antônio estava agachado sobre o pequeno jirau e pregava sarrafos aos caibros da estrutura. Não viu quando Antônio se aproximou.

O velho já tinha extraído os sarrafos danificados. Havia um vão da largura de uns dez sarrafos e apenas um havia sido pregado. O velho, pensou Antônio, deve ter passado a manhã retirando os antigos, parou para almoçar, cochilou e agora retomou o trabalho.

A única diferença entre os novos sarrafos e os antigos era que esses eram mais escuros. O jirau parecia uma estrutura sólida, com vigas grossas enfiadas no lodo no leito do lago. Não era grande e deveria comportar no máximo três pescadores sentados lado a lado mais seus apetrechos, porém era uma construção caprichosa que dispunha até de uma pequena guarnição ao seu redor, de modo a evitar que algum objeto que eventualmente fosse derrubado, rolasse para o lago.

O velho trabalhava lentamente. O sol do inverno não parecia castigá-lo.

Antônio lembrou-se da vez em que torceu o tornozelo. Naquele dia, ele quase caíra no rio ao se desequilibrar do barranco. O pai, num reflexo quântico, o apanhou pelo colarinho e o recolocou novamente em segurança. Procurou acalmar o filho, que não chegou a emitir grito algum, mas que ficou tremendo abraçado a si mesmo.

Foi somente depois de se acalmar que decidiu sair de lá e caminhar um pouco pelas redondezas. Nessa exploração não viu uma raiz erguida do solo, enviou o pé e o peso do corpo em queda foi mais que suficiente para romper seus ligamentos.

O pai largou tudo e foi socorrê-lo. Antônio chorou tanto de raiva que se esqueceu da dor. Não havia pronto-socorro na cidade e o médico estava viajando naquele sábado. Somente na segunda-feira conseguiu fazer um raio-X e ser imobilizado.

Antônio enfureceu-se com a irresponsabilidade do pai e não o perdoou até o fim do ano.

O velho só se erguia para apanhar um novo sarrafo. Quando precisava se deslocar para passar para o prego seguinte, engatinhava até o local. Antônio achou que ele murmurava ou cantarolava algo por entre os pregos que retinha nos lábios, mas não teve certeza disso. Cansou-se de observá-lo em pé e achou um lugar para sentar.

Uma vez, quando já tinha 13 anos, o pai de Antônio o pegou para ensiná-lo direção. Foram na velha Belina até uma estrada de terras. Antônio ensinou ao filho:

Pisa no desembraio. Assim. Agora, engata a primeira. Isso. Pisa de leve no acelerador. Quando sentir que tá acelerando, solta o desembraio devagar. Olha pra frente e vai. Isso. Fez direitinho. Parabéns.”

Antônio não demorou a entender o funcionamento da máquina e rapidamente sentiu-se confiante. Passou para a segunda e pediu autorização para a terceira. O pai relutou um pouco, mas como era uma reta, autorizou. Antônio acelerou até cinquenta. A estrada de terra estava lisa e convidativa. Antônio estava feliz com o filho.

Subitamente, Antônio avistou o vulto de um tatu cruzando a estrada logo à frente do carro e se assustou. Pisou no freio, esterçou a direção e rumou até o barranco de beira de estrada. Bateu em baixa velocidade, mas foi o suficiente para estragar a barra de direção. Ninguém se feriu e Antônio voltou dirigindo para casa, consolou o filho, fez algumas observações jocosas, mas Antônio se recusou a dirigir novamente o carro.

O sol já havia se escondido por trás da copa dos pinheiros e o frio do solstício começou a se insinuar pelos poros da pele de Antônio. O pai forçou o último prego, ergueu-se, testou a solidez da obra com o calcanhar do pé direito e seguiu para a casa pendulando o martelo na mão direita.

Mas não viu Antônio quando se virou.

Antônio acompanhou com os olhos o pai até que ele desaparecesse entre as árvores e levantou-se. Sentiu a perna formigar e mau-humorou-se. Os últimos raios de sol ainda iluminavam a paisagem quando ele colocou os dois pés sobre o jirau e experimentou uma pequena vertigem. A estrutura, contudo, era sólida e Antônio sentiu-se segurou. Caminhou alguns passos, testou a guarnição com uns chutinhos, ousou dar alguns saltos.

Nisso o velho é bom”, murmurou.

Ficou ali alguns minutos observando a superfície plana do lago, as margens gramadas bem cuidadas, a pele amarfanhada do tronco dos pinheiros do lado oposto e a linha que as copas pontudas escuras desenhavam no fundo alaranjado do céu.

Respirou fundo uma última vez e seguiu para a casa.

A última vez que falou com o velho foi antes de sair de casa. Nessa época, Lucas, primo de segundo grau de Antônio, passaria duas semanas com eles. Era um rapaz loquaz, ativo, de costas largas e queimado de sol. Gostava de contar histórias de acampamento e insistia para que Antônio os levasse numa trilha de dois dias. Antônio lhe negou a vontade, mas disse que poderia compensar caso ele gostasse de cavalgar. Poderiam passar o dia no mato e regressariam antes de escurecer. Lucas prontamente aceitou e fez até contaminar Antônio filho com sua empolgação, ou quase.

Os três partiram do sítio bem cedo no sábado seguinte e se embrenharam no bosque de eucaliptos que começava próximo a uma trilha nos limites do lago. Já estavam fazendo o caminho de volta, mais ou menos no meio da tarde, quando o cavalo de Lucas assustou-se com uma serpente e partiu em disparada. O jovem não conseguiu controlá-lo e o animal não foi capaz de saltar um tronco caído atravessado à trilha. Lucas alçou voo e na queda quebrou seu braço. O cavalo, um mangalarga no auge de seu vigor, fraturou o metatarso da pata dianteira direita e relinchou tristemente durante todo o tempo em que Antônio levou para improvisar uma tipoia para o braço de Lucas, só silenciando quando recebeu o terceiro golpe de misericórdia de homem, que, não encontrando uma pedra grande o suficiente, usou um mourão de cerca como bastão.

Disse Antônio: “Filho, me aguarda aqui que eu vou levar o Lucas até o sítio. Volto bem rápido pra te pegar”. E saíram os dois nos dois cavalos restantes.

Antônio sentou-se no tronco e aguardou. Os ruídos do bosque não o assustavam mais, porém o zumbido das moscas que começavam a sobrevoar a carcaça desfigurada do potro começou a irritá-lo. Uma após uma pousaram no animal até que em pouco tempo havia um enxame cobrindo a carne aberta. Quando não havia mais espaço para sentarem, algumas partiram para explorar o rosto de Antônio, que decidiu que era capaz de seguir caminhando por conta própria até reencontrar o pai em seu retorno.

Seguiu pela trilha, mas em pouco tempo já não reconhecia mais o caminho. Tentou retornar, mas a cada bifurcação, sentia-se mais perdido. A noite chegou rápido no bosque e, após alguns horas, desconsolado, cansado, faminto e sedento, Antônio deixou-se cair ao solo. Ele só acordaria muitas mais horas depois, quando seu rosto foi iluminado pela lanterna de um dos batedores que acompanharam seu pai nas buscas. Reencontrou-se com o velho apenas ao amanhecer, na casa do sítio. O silêncio a que Antônio condenou o pai foi quebrado somente no funeral da mãe, mais de dez anos depois.

Antônio nauseou-se com a lembrança. Estancou o passo e apoiou-se. Viu a vista escurecer, mas conseguiu deitar-se antes de desmaiar. Após alguns instantes, sentiu-se melhor e prosseguiu seu caminho.

Ao chegar à casa, Antônio o recebeu de banho tomado, perguntou por onde ele tinha andado o dia todo e se ele não queria tomar uma ducha. Disse que a empregada havia ido para a cidade participar do culto e só voltaria no dia seguinte. Ele havia colocado uma lasanha no forno e estava começando a preparar uma bebida. Faria uma pra ele se quisesse, mas havia cerveja na geladeira também.

Antônio agradeceu, mas disse que estava se sentindo indisposto. Tomaria um banho e veria. Ao sair do banho, notou que a porta do quarto havia se entreaberto. Enrolado na toalha, seguiu para fechá-la e ainda conseguiu ver o velho sentado à mesa posta.

No dia seguinte, após acordar sobressaltado quando ainda estava escuro, notou que o velho deixaria seu prato e talheres no mesmo lugar. A travessa de lasanha estava coberta por uma folha de alumínio e estava posta sobre o fogão.

Arrumou sua mala e, ao passar pela porta da cozinha rumo à varanda, notou que o pai lhe havia deixado um recado.

Tem bolo na geladeira. Boa viagem, filho”.

Antônio seguiu até a geladeira e entrabriu a porta o suficiente para que o ar gelado escapasse, mas não ousou olhar dentro e constar o bolo de aniversário quase intacto.

Colocou a mala no carro, penou para fazer o veículo pegar e retornou para casa.

Passou o resto do domingo na cama, febril.


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Fernando Ferrone nasceu em Jardinópolis, SP, em 1981. Em 2003, concluiu a faculdade de Ciências Sociais (Unicamp) e, em 2005, apresentou dissertação de mestrado em História Contemporânea (Université de Bourgogne, França). Desde 2006 reside em São Paulo, capital. É tradutor e autor do romance à deriva (2017, edição independente). Publicou contos pelo site Ruído Manifesto, Atualmente, conclui seu segundo romance, provisoriamente intitulado A Longa Noite de B.