por Luiz Henrique Gurgel |

Foto de Harry Cooke
Mal jeito de corpo num fevereiro pós-Carnaval

O mundo anda esquisito. Faz tempo que saio às ruas e não encontro mais tampinhas para chutar. Onde estão os atendentes de boteco que abriam garrafa com garfo no balcão e jogavam a tampinha na calçada? Hoje em dia é feio, eu sei, mas dá saudade de chutá-las como um exímio batedor de faltas que depois vibra, punho em riste, comemorando o gol imaginário.
Coisa de gente solitária e meditabunda. Perdão pelo último adjetivo, mas o amo desde que ouvi pela primeira vez na boca do meu pai. Eu era menino e fiquei pensando na curiosa mistura entre meditar e bundo, para mim, masculino de bunda.
O mundo está tremendamente esquisito, não só pela falta de tampinhas para chutar na rua. O que faz lembrar da voz suave, bela e lusitana de Matilde Campilho dizendo seu poema Fevereiro, mês que passa voando num ano que a gente nem sabe como vai terminar. “Este começo de século será nosso batismo de voo para a persistência no amor”, diz a portuguesa. E isso é tão bonito que faz até pensar em como foi esse 1/4 de século 21 que já vivemos. Batismo de voo? Ou batismo de fogo para quem sobreviveu e ainda insiste e persiste no amor?
O mundo ultimamente só oferece vida louca. E não falo de uma existência cheia de aventuras, não. Falo mesmo da vida sob risco, sujeita a sustos permanentes, a balas cruzando o ar, a vícios que nos espreitam. Daí a necessária atenção ao dobrar a esquina, ao atravessar encruzilhada ou ao passar o dedo na tela do celular. Claro que ainda acredito e gosto do amor, do sorriso e da flor, continuo tomando minhas doses diárias de João Gilberto, de Chico, de Caetano, de Gil, de Paulinho, de Elis, de Gal, de Milton… Na medida do possível, sigo as recomendações de monsieur Binot: fazer muito amor, que amor não faz mal.
O mundo, mundo, vasto mundo, anda mesmo bem esquisito e eu não sou a pessoa mais indicada para dar solução, conselho edificante ou sugestão de autoajuda. Que tal um samba? Evita de nos jogarmos nas águas, espanta tempo feio, alivia estrago. Canções sempre salvam e continuam salvando. Incluo as cantatas, as árias de ópera, os lamentos sertanejos.
É o que nos sobra enquanto os homens exercem seus podres poderes. Tem até um que é uma espécie de reencarnação fanfarrônica de Hitler, cor de Fanta Laranja, purgante ambulante que se refestela com horrores de todo tipo. Sei que não dá para virar as costas, feito avestruz que enterra a cabeça e deixa o traseiro para cima. Mas fugir nunca foi tão necessário, nem que seja dentro do próprio quarto. Menos, por enquanto, para os tolos que se acham integrados a esse estado de coisas.
A esta altura no planeta — e volto à Matilde — metade já largou o Carnaval, enquanto a outra metade não parou de conspirar. É “metade medo, metade fé, metade folia, metade desespero”, “metade limpando as armas, outra metade limpando o pó das flores”, a poeta verseja sem métrica pensando no mundo caótico. Folia sempre salva, já que não adianta muito fugir para as montanhas.
Escuta, isto é sério! Ninguém sabe o que será. “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti”, poetou o meu querido mineiro.
Repara, não. É só um mal jeito de corpo, nem precisa me acompanhar na procura de tampinhas para chutar. Só não pergunte para onde.
Luiz Henrique Gurgel é jornalista, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é autor do livro de contos “amores malfadados” (Ed. Primata, 2020) e “Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias” (Caravana Editorial, 2023).

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