por Laura Redfern Navarro |
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| Foto de Biel Morro na Unsplash |
I
Quando uma sereia envelhece o pão fica
preso em suas cordas vocais e
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀o que era harmônico torna-se
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀/senil/
O canto fica tão desafinado
que sequer Jung consegue identificar
o [idioma] rouco que sai
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀da traquéia
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀da mulher
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ofegante
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀e sofrida
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Uma sereia sem voz é uma sereia sem cauda
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀cortada ao meio feito um sushi
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀a apodrecer
Uma sereia envelhecida
tem o corpo no formato de uma ampulheta
o que é irrelevante já que não se sabe
quanto tempo mais ele viverá
II
tic-tac, tic-tac
tic-tac, tic-tac
Para a sereia que envelheceu
o tempo é mera coincidência;
antigamente, seus olhos
eram melhores do que a voz:
mais tarde, ela começou a gritar
III
o que difere o Canto da Sereia
dos gritos moribundos da mulher
do quarto ao lado do meu?
IV
Uma sereia, quando envelhece
não deixa de ser sereia:
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀as rugas, por exemplo
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀são como algas
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀e um dia você verá
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀a mulher que grita transmutada
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ em verde
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀e saberá
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀do que estou falando
V
O canto da sereia não cessa
quando ela envelhece;
ele envelhece
ao seu lado
ÁGUA SALGADA
para Deborah Leanza
I
as paredes de junho procuram abrir frestas de orelha a orelha. é impossível não ser invadido pelo sol, dourado e irreprodutível. o inverno não nos deu pistas; só palavras. algumas. cartografia da metrópole: céu cinza verbo em excesso ar em forma de fumaça solidão. eu sinto falta mesmo é do mar.
II
viajar de carro a essa altura do campeonato tem sempre o mesmo desafio: enxergar no meio dessa fina camada de neblina. nos meus sonhos, eu a toco com os lábios e você também: infelizmente é impossível sentir seu sabor, mas ela se impregna nas fotografias, e no vidro do carro.
III
se eu pudesse escolher um bicho exótico para ter de estimação eu escolheria ter uma ostra viva: pérolas são um registro de pureza/inocência/delicadeza ainda que quem apanhe de fato as ostras sejam mulheres que precisam ter força nos pulmões que nunca se casam ou usam pérolas. ouvi dizer que elas morrem cedo. na verdade, foi a moça da joalheria quem me contou isso.
IV
na quinta-feira fui à peixaria. pedi lagosta. a moça do balcão me entregou a lagosta. robusta com elásticos nas pinças na minha mão. vivíssima. sorri paguei e agradeci a moça. eu sou alérgica a frutos do mar.
V
do apartamento da vizinha ouço uma música
no corredor, ela me abraça e diz:
não é lindo?
é um Canto de Sereia,
lembro que não tenho vizinhos
mas sou s-eduzida
até que ela me tira do transe:
não é lindo?
depois,
ela cochicha no meu ouvido:
não há música mais silenciosa
que o Canto
da Sereia
*
não é lindo?
VI
finjo que estou nadando quando a água cai em meus cabelos;
sou capaz de sentir todos os seus silêncios⠀⠀⠀
distribuídos em cada⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀um ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀dos fios;
sou capaz
de engolir marinheiros
só fazendo isso;⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀hoje porém estou com pressa
VII
no meu pior pesadelo:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀eu me afogo no final.
Laura Redfern Navarro (2000) nasceu em São Paulo. É aquariana, poeta, assessora de imprensa e pesquisadora. Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, atualmente é Mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC/SP, onde estuda as intersecções entre a linguagem poética e o fenômeno dos espaços liminares. Publicou o livro de poemas e fotografias O Corpo de Laura, que venceu o primeiro lugar no ProAC/2022, e a plaquete um sonho lúcido, pela editora orlando.


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