por Manoel Tavares Rodrigues-Leal |
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| Manoel T. R.-Leal - © Luís de Barreiros Tavares |
Quatro poemas inéditos do caderno Ensaio de Ausência
O que é a vida? O que é o prazer sem a dourada Afrodite?
τίς δὲ βίος, τί δὲ τερπνὸν ἄτερ χρυσῆς Ἀφροδίτης
Mimnermo, in “Elogio do prazer” – Tradução de Frederico Lourenço
I
I
a minha solidão insone, madrugante,
amanhece, incólume, adolescente.
II
hoje, não desenho os mosaicos
de rigor vertical de gestos,
nem a doce dança de estátua equestre,
terrestre.
III
apenas, ouço esculpida escrita,
voz nascitura, conceptura e diurna,
no corpo de marfim ausente.
Lx. 26-6-66 – 19-10-75. Dedicatória: “(Para a Isabel)”
II
(no milagre das flores milenárias)
teus brancos beijos
foram o fulgor da nossa madrugada exangue,
o cerne aceso, o brilho dos nossos corpos.
e a sede, diurna sede,
de vinho e sonho em sangue, o nosso vivo vínculo.
Lx. 18-4-66 – 18-10-75
III
a noite é uma silhueta ausente,
um perfil alheio,
com a loucura centrada na carne, no olhar isento do poeta.
Lx. 17-3-66 – 18-10-75. Dedicatória: “(Para a Isabel)”
IV
ausente o pensamento, como pensar
a pausa prenhe do doce canto que encanta
e ofusca o fulgor de prata do poeta e de sua trama que o poeta ama.
Lx. 15-5-75
| Manuscrito do poema II. |
*Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.


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