Do brega à vanguarda, Luiz Amargo reúne trilhas no EP Canções Para Cinema


Novo trabalho do músico paulistano reúne cinco faixas criadas para curtas e longas-metragens.

A relação entre música e cinema conduz o novo trabalho de Luiz Amargo. Com lançamento nas plataformas digitais em 19 de agosto, o EP Canções Para Cinema reúne cinco composições criadas pelo músico paulistano para trilhas sonoras de diferentes produções audiovisuais. O projeto percorre gêneros e referências distintas, determinados também pelos universos narrativos dos filmes para os quais as faixas foram concebidas.

Compositor, letrista e produtor das músicas, Amargo lançou em 2024 seu primeiro álbum de estúdio, Amor de Mula, e vem desenvolvendo paralelamente uma atuação na composição de trilhas para cinema e audiovisual. Em Canções Para Cinema, essa vertente de seu trabalho ganha um registro próprio. As cinco faixas mantêm vínculos com a produção autoral do músico, mas assumem características particulares de acordo com cada filme. “Sonhei Contigo”, composta para O Retrato, de Taline Caetano, recupera referências do brega brasileiro da década de 1970. Já “Janette”, composta para o filme homônimo de Rebecca Cerqueira, busca referências no rock francês dos anos 1960. Amargo divide com Bel Aurora a composição da faixa e a autoria da letra, escrita em francês. Outra direção aparece em “Filme Noir”, feita para o filme de Rodrigo Pires, que investe na música instrumental de vanguarda através da combinação entre atonalismo e elementos da música eletroacústica.

Em “Quem Ficou Fui Eu”, composição criada para o filme homônimo dirigido por Maria Garé e Luísa Pacce, a interpretação fica a cargo da atriz Georgette Fadel, que também integra o elenco da produção.

Essa variedade faz com que o EP funcione enquanto registro das possibilidades encontradas pelo compositor ao trabalhar a partir de demandas dramatúrgicas distintas. O projeto encontra sua  unicidade na relação das faixas com as imagens e histórias que motivaram sua criação. O diálogo com o audiovisual já estava presente na trajetória de Luiz Amargo antes do lançamento do EP. Além da atividade musical, ele trabalha como montador e roteirista. Referências cinematográficas são comuns em sua produção autoral.

Para Amargo, a colaboração com cineastas e o contato com a dramaturgia dos filmes constituem estímulos importantes para seu processo de composição. No novo EP, as canções deixam o contexto original das telas para serem apresentadas em conjunto e ganharem também uma escuta independente das imagens. Todas as faixas foram arranjadas, produzidas, mixadas e masterizadas pelo próprio músico. A exceção na autoria é “Janette”, composta em parceria com Bel Aurora.

Luiz Amargo. Frame videoclipe “Sonhei Contigo” 

Entre as músicas do EP, “Sonhei Contigo” ganhou um videoclipe dirigido por Taline Caetano, diretora de O Retrato, filme para o qual a faixa foi originalmente criada. A edição é assinada por Luiz Amargo. O vídeo retoma a atmosfera do brega dos anos 1970 e recria a estética dos antigos karaokês. Amargo aparece ao lado de Ricardo Resto, seu parceiro no projeto LA&RR e no EP Engano Chegando, cantando em lip sync diante de uma tela verde. Legendas sincronizadas e uma textura analógica reforçam a referência ao formato.

A estética que remete ao passado, no entanto, encontra recursos atuais com a inserção, sobre a tela verde, de vídeos gerados por inteligência artificial. O recurso cria um contraste com a atmosfera analógica do clipe e agrega ao trabalho uma tecnologia que hoje mobiliza debates tanto no cinema quanto na música. Para Amargo e Taline Caetano, a utilização da IA ganha interesse justamente quando se afasta da tentativa de reproduzir o real. No videoclipe, a inteligência artificial é utilizada para criar imagens e cenários surreais, aproximando a estética do camp e do kitsch e estabelecendo um contraste entre o imaginário vintage e as possibilidades visuais das novas tecnologias.