por Adriane Garcia |
Até onde a Ciência nos permite saber, estima-se que o planeta Terra tenha 4,6 bilhões de anos de idade. Comparada à idade da Terra, a existência da humanidade representa apenas um piscar de olhos. Os primeiros grupos de hominídeos percorreram um processo evolutivo que durou menos de 8 milhões de anos, sendo que há dois milhões de anos, surgiram o homo habilis e o homo erectus, possivelmente de um ancestral comum. Essa evolução aconteceu no continente africano e alguns grupos de hominídeos migraram para a Ásia e a Europa. A espécie humana atual, conhecida como homo sapiens, surgiu na África há cerca de 200 mil anos e também se espalhou para outros continentes. A espécie neandertal, encontrada na Eurásia, tem idade estimada de 500 mil anos
Em um momento de mudanças climáticas bruscas, durante uma era de glaciação, clãs de neandertais e de sapiens se encontram pela primeira vez, ambos os grupos lutam pela sobrevivência. Fome, frio, medo, desconforto, violência é o que à primeira vista os personagens de Os imortais, romance de Paulliny Tort, enfrentam. Sem dar nomes próprios que denotem mais do que suas características imediatas, a autora os denominou Homem, Mulher, Velho, Velha, Menina, Estrangeiro, Pequeno. Todas essas escolhas demonstram a sintonia e a coerência do projeto literário de Os imortais, quando tema e forma se mesclam de forma brilhante. Para além da luta pela sobrevivência, Paulliny Tort mapeia os primórdios da linguagem. Cada capítulo é intitulado com um fragmento, ou melhor, um rudimento de linguagem. Conquistada a aventura do fogo, neandertais e sapiens estão construindo seus vocabulários, não apenas para nomear o mundo objetivo, mas principalmente para nomear as emoções nos primórdios do sentir, da compreensão das vozes internas. Paulliny Tort chega a encontrar o que, linguisticamente, chamaríamos de poesia: o inapreensível, a conexão com o Mistério. A construção de um vocabulário para ultrapassar o material e dar conta das abstrações.
É a linguagem que nos faz humanos, mas antes dela, já tínhamos todos os sentimentos primitivos que a linguagem conceituaria. O aprendizado humano só é possível por meio da linguagem. Assim, neandertais e sapiens repassavam o conhecimento que até então produziram, conhecimento que podia ser a diferença entre a vida e a morte em um ambiente de extrema hostilidade. Pela linguagem ensinavam a brincar, a acender o fogo, a produzir armas, a cozinhar, a cuidar uns dos outros, a destruir o outro. Ódio, preconceito, xenofobia, sadismo, machismo, escravidão, ingratidão, discriminação, ganância, trauma aparecem na raiz da (in)convivência humana. Também aparecem a culpa, o arrependimento, o ressentimento, a angústia, a compaixão, a empatia, a bondade, a dignidade, o amor, a ternura, o sonho, o anseio de liberdade, o horror à guerra, o fascínio pela beleza.
Soma-se à qualidade da obra o poder de síntese da autora. Em um livro de 232 páginas, Paulliny Tort consegue condensar tanto da condição humana, sem qualquer momento que pareça apressado. Não tendo a opção do diálogo - pela própria situação do grupo narrado - a pessoa narradora se empenha na descrição, no discurso indireto e na riqueza de imagens apoiada nas ações, na profusão cênica que se cria na leitura. Assim, acompanhamos os ritos, refletimos sobre conhecimento, poder e superstição; vemos as diferenças entre sociedades matriarcais e patriarcais, as variações de performances do feminino; a importância do universo onírico no processo de simbolização das pessoas; o peso de ser diferente, desde sempre e a dificuldade de se conviver com culturas diversas, ao mesmo tempo em que se pode aprender tanto com elas.
Sem condescendência, que é como se faz boa literatura, Paulliny Tort cria personagens ambivalentes, como são os seres humanos: “O branco dos olhos ainda se deixa ver por entre as pálpebras, assim como os dentes desalinhados na boca frouxa, tudo arruinado, desmilinguido, o avesso do esplendor que o cavalo exibia antes. Enquanto isso, a fumaça adocicada do assado se espalha num véu e ela, ainda que pesarosa pelo fim dessa criatura extraordinária, saliva.” A Menina, a Mulher, especialmente o Homem são personagens que vivem dilemas entre a necessidade de sobrevivência e a ética, entre essa necessidade e a estética, mostrando que todas são, afinal, necessidades. Nós, que lemos Os imortais, também sofremos entre a beleza selvagem dos cavalos e a sobrevivência do clã pelo qual já nos afeiçoamos. Qual o sentido da apoteótica e apocalíptica jornada humana sobre a Terra? Em um dado momento, o personagem Homem chega a pensar que foi amaldiçoado. A condição humana é miserável, pois parece fadada a destruir e ter consciência de sua maldição.
Nos sapiens contemporâneos há genes neandertais. No senso comum, chamar uma pessoa de “neandertal” significa xingá-la como ignorante, rude, bruta. Paulliny Tort faz ver que há mais compaixão e beleza nos neandertais do que poderíamos supor. Se o Homem lamenta que dois grupos rivais não possam dividir uma mesma caverna, as leitoras e os leitores de Os imortais se identificam nesse sentimento. A guerra continua tão estúpida quanto o fora entre os povos primitivos, e mais estúpida agora que conhecemos a diplomacia; porém, se os tempos mudam, o homem - nos mostra Paulliny Tort - ainda é o mesmo. Com final surpreendente, Os imortais é um livro cuja história nos magnetiza, nos atrai para aquele clã de neandertais, nos faz seguir seus passos junto com a pessoa que tudo narra, onisciente e bem equipada para ser a voz de quem ainda ensaia uma voz. É a nossa história que sentimos em suas páginas, uma história de ancestrais longínquos, mas contínuos em nós, enquanto durarmos, imortais.
“O Homem guarnece com a Mulher e mais três. Desde a batalha, quase não sai do posto, mal come, mal dorme, como se assim pudesse compensar algo que não sabe bem definir, mas que o envergonha e empalidece por dentro. E já passou muito tempo. O Homem se pergunta por quanto mais as pessoas-pássaro continuarão a não caçar e a não buscar água, encavernadas sem que a necessidade as demova. Com a chuvinha a escorrer pelo rosto, uma caçadora mostra os dentes, bate no peito e aponta - deveríamos tomar essa caverna! Mas o Homem e a Mulher nem cogitam, o clã não pode perder mais, não devem arriscar. Com as roupas umedecidas, o Homem sente os olhos arderem. Cruza e aperta os braços em volta das costelas, vendo a claridade da fogueira que tremeluz lá dentro, contra as paredes escuras, sem entender também de onde os estrangeiros têm tirado tanta lenha. Quem dera pudessem se aproximar, partilhar daquele espaço, quem dera pudessem conviver, mas é impensável, impossível, sobretudo agora que já morreram e já mataram. Esses estrangeiros, os parentes os odeiam.”
Paulliny Tort
Romance
Ed. Fósforo
2026
Sobre a autora
Paulliny Tort nasceu em Brasília (DF). É jornalista e mestre em Comunicação e Sociedade pela UnB. Erva brava (Fósforo), seu primeiro livro de contos, foi vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e finalista do prêmio Jabuti 2022. Estreou na literatura em 2016, com o romance Allegro ma non troppo (Oito e Meio), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis), A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023) e Atlas de Anatomia (Caos e letras,2026).



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