Livro reúne Kay Sage e Luciana Moraes em diálogo poético

 

por *Taciana Oliveira |


Tradução e criação se encontram em
dia-longo, novo livro de Luciana Moraes inspirado na poesia de Kay Sage

A fronteira entre traduzir e criar é o ponto de partida de dia-longo, novo livro da poeta, tradutora e pesquisadora Luciana Moraes, publicado pela Editora Minimalismos. Em edição bilíngue, a obra apresenta traduções inéditas dos poemas da artista surrealista norte-americana Kay Sage (1898-1963), mas vai além da transposição de uma língua para outra: cada tradução recebe intervenções autorais da escritora brasileira, transformando o livro em um diálogo entre duas poéticas separadas pelo tempo, pela língua e pela experiência.

Reconhecida internacionalmente por sua pintura, Kay Sage permanece pouco conhecida enquanto poeta, especialmente no Brasil. Ao reunir parte significativa dessa produção em português, Luciana Moraes reverbera o acesso a uma obra destacada por imagens enigmáticas, silêncio, memória e sonho, ao mesmo tempo em que reflete sobre autoria, leitura e tradução literária.

Ao contrário de entender a tradução como uma busca exclusiva pela fidelidade ao original, dia-longo a apresenta enquanto gesto de escuta e reinvenção. Os poemas preservam a escrita de Kay Sage, mas recebem novos versos que ampliam imagens, ritmos e sentidos. O resultado é um livro que permite diferentes itinerários de leitura: o texto original em inglês, a tradução em português ou a composição híbrida formada pelo encontro entre ambas as autoras.

Essa proposta é destacada pelo poeta e editor André Sanchez, autor do posfácio da edição. Para ele, Luciana Moraes não apenas traduz Kay Sage, mas cria "fendas" em sua poesia, revelando possibilidades que permaneciam adormecidas. Em poemas como Sequência de verão e A pedra ressonante, a autora acrescenta elementos ligados à memória, ao cotidiano e à subjetividade, preservando o surrealismo da obra original ao mesmo tempo que imprime uma voz própria ao conjunto. Sanchez observa que o livro apresenta uma forma singular de lidar com a influência literária, transformando a leitura em criação e fazendo da tradução um projeto artístico de consistência.

Graduada em Letras pela UNIRIO, Luciana Moraes reúne em dia-longo sua experiência como poeta, tradutora, revisora literária e pesquisadora. Autora dos livros Tentei chegar aqui com estas mãos (2022), Flor de sangue (2024) e Desvelo(s) (2025), ela desenvolveu o projeto a partir de uma longa pesquisa em tradução literária, interessada em compreender de que forma um poema pode continuar a existir quando atravessa outra língua e encontra outra autora.

dia-longo convida a repensar as relações entre leitura, linguagem e criação. Ao colocar lado a lado original, tradução e intervenção poética, o livro demonstra que a tradução pode ser também um estilo de escrita, preservando a singularidade da obra traduzida enquanto abre espaço para novas experiências literárias.

Fonte: Divulgação 

Na entrevista concedida à
Mirada Janela Cultural, Luciana Moraes fala sobre o encontro com a criação artística de Kay Sage durante a pandemia, o apagamento das mulheres na história do surrealismo, os desafios de preservar a voz da autora norte-americana enquanto desenvolvia sua própria escrita e a concepção de tradução em um exercício de escuta, criação e diálogo entre diferentes tempos, línguas e possibilidades.

1. dia-longo nasce do encontro entre tradução e criação poética. Em que momento você percebeu que traduzir Kay Sage não seria apenas transportar seus poemas para o português, mas também escrever com ela?

Meu projeto de tradução nasceu do encontro com a obra poética de Kay Sage ainda durante a pandemia, em pleno momento de isolamento sem precedentes. Ao longo dos anos, à medida que eu finalizava as traduções, percebia que não buscava apenas uma equivalência entre idiomas, mas uma escuta verdadeira. Algumas imagens pareciam pedir outra respiração em português e, aos poucos, compreendi que a tradução havia se tornado também um espaço de convivência com sua voz e de transformação da minha própria escrita. Foi assim que entendi, em 2026, que já não se tratava apenas de traduzir poemas, mas de construir um projeto de livro a partir do encontro entre a obra de Kay Sage e a minha experiência como poeta.

2. Seu livro apresenta ao público brasileiro uma faceta pouco conhecida de Kay Sage, geralmente lembrada por sua pintura surrealista. O que mais a surpreendeu ao descobrir sua obra poética e por que você acredita que ela permaneceu tanto tempo à margem das traduções no Brasil?

O que mais me surpreendeu foi descobrir que a mesma artista conhecida por suas pinturas produziu uma poesia de enorme precisão e intensidade. Seus poemas trabalham com uma notável concisão vocabular, mas cada palavra parece deslocar o leitor para um espaço de estranhamento muito próprio. Embora sua escrita dialogue, em alguns momentos, com seu universo visual, ela possui autonomia, ritmo e voz singulares.

Acredito que essa produção permaneceu durante tanto tempo à margem porque o apagamento das mulheres na história do surrealismo foi profundo. A historiografia tradicional privilegiou nomes masculinos e consolidou uma narrativa em que muitas artistas apareciam mais como musas do que como criadoras autônomas — uma visão amplamente difundida a partir da influência de André Breton e da própria construção histórica do movimento. Leonora Carrington, Remedios Varo e Dorothy Tanning também foram deixadas às margens do cânone artístico durante décadas. 

Felizmente,  poucos anos atrás,  percebi que as comemorações do centenário do surrealismo contribuíram para uma revisão crítica dessa história, ampliando o interesse por essas artistas e permitindo que suas obras fossem revisitadas sob outra perspectiva.

No caso de Kay Sage, essa invisibilidade torna-se ainda mais intrigante. Além de construir uma obra profundamente singular, ela teve um papel decisivo na sustentação do próprio surrealismo, apoiando financeiramente artistas e iniciativas do movimento, graças à sua herança familiar. Ainda assim, permaneceu por muito tempo pouco reconhecida, sobretudo como poeta. Soma-se a isso o fato de sua produção poética ter circulado muito menos do que sua pintura. Era uma escrita discreta, de pouca difusão pública, marcada por uma economia verbal, por um humor sutil e por imagens que parecem condensar uma inquietação permanente. Muitos desses traços também atravessam sua autobiografia China Eggs.

Foi justamente essa complexidade que despertou meu desejo de traduzi-la. Mais do que apresentar ao público brasileiro uma artista pouco conhecida, interessava-me contribuir para que sua poesia encontrasse novos leitores. Traduzir Kay Sage significou lidar com ambiguidades, silêncios e imagens que resistem a soluções fáceis, exigindo uma escuta constante da linguagem.

Ao mesmo tempo, permanece em mim uma pergunta que atravessa todo o projeto: como uma das figuras mais importantes do surrealismo, tanto por sua produção artística quanto por seu apoio ao movimento, permaneceu durante tanto tempo praticamente invisível como poeta? Talvez essa invisibilidade tenha impedido que muitos leitores percebessem a riqueza de uma escrita que dialoga, em diferentes momentos, com experiências formais de autores como E. E. Cummings, Gertrude Stein, T. S. Eliot e Ezra Pound — estes dois últimos, inclusive, amigos de Kay Sage conhecidos durante suas viagens e exposições.

3. Os poemas recebem intervenções autorais que alteram ritmos, imagens e sentidos. Como você estabeleceu o limite entre preservar a voz de Kay Sage e permitir que a sua própria voz ocupasse esse espaço de diálogo?

Esse limite nunca foi uma linha fixa. O projeto poético que assumi foi justamente o de um transbordamento visual, em que uma imagem pudesse reverberar na outra sem que as vozes deixassem de ser reconhecíveis. Durante a tradução, meu compromisso foi preservar a singularidade da escrita de Kay Sage: sua economia verbal, suas ambiguidades, seus deslocamentos sintáticos e a lógica própria de suas imagens. Já nas intervenções, meu gesto deixava de ser o da tradutora para tornar-se o da poeta que responde a uma leitura prolongada.

Gosto de pensar esse processo como uma espécie de alteridade intencional. Havia uma autora anterior a mim, cuja escrita possuía um modo muito particular de produzir sentido, e meu papel nunca foi ocupar esse espaço, mas escutá-lo. As composições híbridas nascem justamente desse intervalo entre aproximação e distância. Elas não procuram completar os poemas de Kay Sage nem os reescrever; revelam que uma leitura profunda também pode gerar criação. Essa interlocução só existe porque cada voz preserva sua autonomia, e é justamente essa distância que permite que uma escrita transforme a outra sem apagá-la.

4. O surrealismo atravessa boa parte do livro, mas suas intervenções acrescentam elementos ligados à memória, ao cotidiano e à experiência pessoal. De que maneira sua escrita modifica ou atualiza esse imaginário surrealista?

Não penso que minhas intervenções atualizem o surrealismo. Ao escrever a partir da leitura de Kay Sage, minha própria experiência inevitavelmente atravessa esse imaginário. A memória, o cotidiano, o corpo e as relações afetivas tornam-se lugares onde também o insólito pode surgir.

Em meus poemas, o estranhamento costuma nascer menos do sonho ou da ruptura radical com a realidade e mais dos pequenos deslocamentos da experiência cotidiana. É nesse ponto que minha escrita encontra a de Kay Sage: ambas reconhecem que a realidade nunca é inteiramente estável e que a linguagem pode revelar suas fissuras. Esse encontro entre nossas escritas acontece justamente porque certas imagens continuam produzindo perguntas, mesmo quando atravessam outra língua, outro tempo e outra vida.

Ao mesmo tempo, minhas intervenções deslocam o foco para uma dimensão mais íntima da experiência. Se em Kay Sage a arquitetura, os tecidos, os espaços vazios e as paisagens suspensas constroem um universo de inquietação, em minha escrita esse estranhamento frequentemente emerge das relações humanas, da memória e da percepção do corpo. Não se trata de aproximar duas poéticas por semelhança, mas de permitir que uma ilumine aspectos da outra. É nesse movimento que o livro propõe um encontro entre imaginários distintos, mostrando como a poesia continua produzindo novas formas de percepção quando atravessa diferentes tempos e sensibilidades.

5. A edição permite diferentes percursos de leitura: o poema em inglês, a tradução, a composição híbrida e as diversas combinações entre esses textos. Você imaginou um leitor disposto a experimentar essas possibilidades ou acredita que cada pessoa encontrará seu próprio caminho dentro do livro?

Desde o início, imaginei um livro que não impusesse um único percurso de leitura. Alguns leitores talvez comecem pelos poemas em inglês; outros se detenham nas traduções; outros ainda descubram primeiro as composições híbridas e só depois retornem aos textos de origem. Essas possibilidades não competem entre si: elas fazem parte da própria arquitetura do livro.

Sempre me interessou a ideia de que a leitura também é um gesto criativo. Cada percurso estabelece relações diferentes entre os textos, produz aproximações inesperadas e evidencia aspectos que talvez permanecessem ocultos em uma leitura linear. Por isso, dia-longo convida o leitor a participar da experiência que deu origem ao livro.

Mais do que acompanhar uma sequência previamente determinada, o leitor é convidado a construir sua própria experiência de atravessamento entre línguas, vozes e imagens. Acredito que cada leitura reorganiza o livro de maneira singular. Essa abertura não é apenas uma escolha formal; ela expressa uma concepção de literatura em que o sentido permanece sempre em movimento, renovando-se a cada encontro entre texto e leitor.

6. Além de poeta, você atua como tradutora e pesquisadora. O trabalho desenvolvido em dia-longo alterou sua compreensão sobre autoria? Depois dessa experiência, ainda faz sentido pensar tradução e criação como atividades separadas?

O livro reforçou minha percepção de que toda tradução literária envolve escolhas criativas, mas também me fez reconhecer que tradução e criação possuem responsabilidades diferentes. A tradução responde continuamente ao texto de outro autor; a criação responde, sobretudo, às exigências da própria escrita.

Em dia-longo, procurei preservar essa diferença justamente ao explicitar as intervenções autorais. O projeto nasce da aproximação entre essas duas práticas, sem eliminar a identidade de cada uma. Talvez elas sejam menos opostas do que costumamos imaginar, mas também não sejam equivalentes.

Escrever não significa criar a partir do vazio estritamente, mas reconhecer que toda escrita nasce do encontro com outras leituras, outras vozes e outras tradições. Nesse sentido, a tradução se revela como uma forma sutil de escuta, enquanto a criação se torna uma forma de resposta. Uma não substitui a outra; ambas ampliaram minha compreensão sobre o que significa escrever.

7. Em um momento em que a tradução costuma ser associada à fidelidade ao texto original, dia-longo propõe uma experiência mais aberta e inventiva. O que você espera que esse livro provoque tanto em leitores quanto em tradutores e escritores interessados nas relações entre literatura, linguagem e criação?

Espero que o livro amplie as possibilidades de pensar a tradução como uma forma de leitura profundamente comprometida com o texto, mas também consciente de sua dimensão criativa. Não se trata de abandonar o rigor nem de relativizar a importância do original, e sim de reconhecer que cada tradução produz novos sentidos ao atravessar outra língua, outra cultura e outra sensibilidade.

Gostaria igualmente que dia-longo despertasse uma reflexão sobre o próprio ato de ler. Antes de qualquer criação, houve um longo exercício de convivência e escuta da escrita de Kay Sage. As intervenções autorais não nasceram do desejo de reescrever sua poesia, mas de prolongar essa experiência de leitura por outros caminhos. Talvez o livro possa mostrar que traduzir, ler e escrever não são gestos isolados, mas práticas que se alimentam continuamente.

Se dia-longo despertar a curiosidade pela poesia de Kay Sage, incentivar novas traduções e estimular escritores, tradutores, pesquisadores e leitores a refletirem sobre as relações entre leitura, linguagem e autoria, sentirei que ele terá cumprido um papel importante. Mais do que apresentar ao público brasileiro uma parte ainda pouco conhecida da trajetória de Katherine Linn Sage, gostaria que este livro mostrasse como as mulheres, as artes e a literatura continuam criando encontros capazes de atravessar línguas, tempos, tradições e sensibilidades. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de permanência da poesia.



Poemas do livro




Ilusões

Havia uma velha mulher

Como você sabe

que não tinha o que vestir

nada de echarpes

exceto buracos.

Tantas reviravoltas

Então ela costurou os buracos 

como uma predestinada

e se vestiu toda com cautela;

era tão delicada

mas passavam por ela na rua

movimentada, desbotada

como se, lá, não estivesse ela.





ILLUSIONS

There was an old woman

who hadn’t a thing to wear

except holes.

So she sewed the holes together

and she dressed herself with care;

but people passed her in the street

as though she were not there.




Resiliência

Meu coração é feito de triplex,

Seria flor de lágrima de cristo tocada

para sua orientação no assunto;

harpas e farpas e anos grifados

pode golpeá-lo, pode quebrá-lo

sem nome, sem número, só vento:

simplesmente não será destruído.





RESILIENCY

My heart is made of triplex,

for your guidance in this matter;

you can crack it, you can break it

but it simply will not shatter.

                                                                                                



Domus

Minha casa não tem alicerces;

sobra tinta, copo e chaves

está erguida no entulho e no rochedo.

Entreolhada pelas crianças.

Está de pé lá pela graça de Deus

sem saber que horas são

com cada problema pequeno.

Varrido ao anoitecer.

Tão boa como qualquer casa,

no percentual do ocaso

ainda que firme nem tanto;

sem esquecer do espanto

mas, no dia em que se arruinar,

juntamos tudo

já está traçado o plano.



DOMUS

My house has no foundations;

it is built on rock and rubble.

It stands there by the grace of God

with very little trouble.

It’s just as good as any house,

although it’s not so steady;

but, for the day it tumbles down,

my plans are made already.


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*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.