Fotografias de Carlos Monteiro
Rio, cidade solar
O Rio
amanhece devagar. Primeiro, uma claridade tímida atrás das montanhas. Depois,
um fio dourado atravessando as nuvens. Até que o sol aparece. Inteiro. Quente.
Quase atrevido. É quando o fotógrafo carioca começa a trabalhar. Não há
despertador mais eficiente do que a luz. Ela chama.
Sai pelas
frestas da janela. Escorrega pelos prédios. Toca o mar. Acorda os coqueiros.
Beija o Corcovado. E, por alguns minutos, transforma uma cidade conhecida em
outra completamente nova. O fotógrafo sabe. Por isso madruga. Sabe que a
primeira luz não ilumina apenas. Revela.
O Pão de
Açúcar ganha contornos de desenho. A Baía de Guanabara vira um espelho. A névoa
sobre as montanhas parece fumaça de um velho filme. E o carioca, ainda
sonolento, atravessa a calçada carregando o pão, o jornal, o cachorro, a
pressa. Sem perceber que está dentro de uma fotografia. Depois vem o dia. A luz
muda. Fica mais dura. Mais branca. Mais impiedosa. Mostra tudo. As fachadas. As
cicatrizes. Os muros. As árvores. A beleza e as pequenas imperfeições de uma
cidade que nunca foi feita para ser perfeita. Mas o fotógrafo espera. Porque
sabe que o Rio guarda seu melhor segredo para o fim da tarde. Então o sol
começa a descer. A cidade se acalma.
O dourado
toma conta das montanhas. Os edifícios recebem uma última pincelada. O mar
deixa de ser azul e começa a experimentar outras cores. Laranja. Âmbar. Rosa.
Vermelho. No Arpoador, as pessoas param. Por alguns minutos, ninguém tem
pressa. Até o aplauso chegar. É o Rio agradecendo ao sol. E o fotógrafo,
silencioso, procura o instante. Aquele segundo em que a luz encontra o rosto de
alguém. O barco passa diante do horizonte. Uma gaivota atravessa o quadro. O
Cristo fica recortado contra um céu incendiado. Clique. A fotografia nasce. Mas
não é apenas uma fotografia. É memória. Vinicius de Moraes, o Vininha, talvez
tenha entendido melhor do que ninguém essa relação entre o carioca e o sol. O
morador desta cidade parece mesmo nascer com uma vocação para ser “colorido
pelo sol”.
E talvez
seja justamente isso que faça do Rio uma cidade diferente. Aqui, a luz não é
apenas fenômeno. É musa. É personagem. É companhia. Está nos cabelos dourados
de quem corre pela orla ao amanhecer. Na pele salgada depois do mergulho. No
rosto envelhecido do pescador. Na menina que brinca na areia. No casal que
observa o horizonte sem dizer palavra. O fotógrafo carioca conhece essa
intimidade. Ele sabe que pode fotografar a mesma paisagem mil vezes e nunca
será a mesma fotografia. Porque o Rio muda conforme a luz. E a luz muda
conforme o tempo. Talvez por isso o carioca olhe tanto para o céu. Não é
distração. É hábito. É procura. É esperança. No Rio, amanhecer e entardecer são
dois grandes estúdios a céu aberto. Sem paredes. Sem teto. Sem hora marcada.
E quando
a última faixa de luz desaparece atrás das montanhas, o fotógrafo guarda a
câmera. Por hoje, basta. Amanhã haverá outro amanhecer. Outra luz. Outra
fotografia. E, provavelmente, mais um carioca caminhando pela cidade, distraído
e feliz, sem perceber que, mais uma vez, está sendo delicadamente colorido
pelo sol.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.
.png=w352-h352-p-k-no-nu)
Redes Sociais