Entre golpes e memórias, Maria Emanuelle Osório Prates encontra na ancestralidade uma forma de resistência


por Taciana Oliveira |



Maria Emanuelle Osório Prates: “Parte do que sou é o que eles foram”

Em Pugilismo, segundo Lauren L., Maria Emanuelle Osório Prates faz do corpo um  espaço de memória, confronto e permanência. Publicado pelo Selo Capitolinas (2026), o livro recorre ao vocabulário do boxe e da calistenia para falar da formação de um corpo preto, feminino e neurodivergente, marcado por quedas e feridas, mas também sustentado pelo cuidado, pelo amor e pela ancestralidade. 

Punhos, nocautes, fraturas e exercícios físicos dividem espaço com plantas, rios, serras, insetos e lembranças da infância. A própria estrutura do livro revela esse cruzamento: capítulos como “round inaugural”, “punhos aquáticos”, “artimanha calistênica” e “pugilismo, segundo Lauren L.”, associam o universo esportivo a uma escrita que recorre à anatomia, à botânica e à memória. Em um dos poemas iniciais, levantar um “afroesqueleto” exige séculos de resistência, enquanto erguer um corpo “psicodiverso” pressupõe desatar as camisas de força que o aprisionaram.

Bióloga e etnoecóloga, Maria Emanuelle encontra na literatura uma maneira de reunir a criação poética aos saberes de sua formação científica. Essa presença, entretanto, não funciona enquanto repertório: plantas, animais e elementos da paisagem participam da maneira pela qual a autora pensa pertencimento, identidade e sobrevivência. Ao mesmo tempo, a ancestralidade surge a exemplo de espécie de sustentação desse corpo — uma ideia que já aparece nos agradecimentos, quando a escritora atribui aos antepassados a possibilidade de seu “afroesqueleto” permanecer em pé através do tempo.

Na entrevista a seguir, Maria Emanuelle Osório Prates conversa com a Mirada Janela Cultural sobre a criação de Pugilismo, segundo Lauren L., as relações entre corpo e resistência, a presença da ciência em sua escrita, as memórias familiares e a ancestralidade. A autora também relembra o início de sua relação com a literatura e fala sobre uma mudança que começa a ganhar espaço em seu trabalho: a passagem da poesia para a prosa e a escrita de seu primeiro romance.

1. Em Pugilismo, segundo Lauren L., o corpo aparece como uma espécie de  ringue em que memória, identidade e resistência se confrontam. Por que o boxe  e a calistenia se tornaram referências para pensar a formação desse corpo preto, feminino e neurodivergente? 

A palavra pugilismo vem do latim pugnus, que significa punho. Penso no boxe  como um esporte de quem porta apenas as mãos para se defender. Se voltarmos na história, temos o exemplo mais emblemático: o punho levantado, signo do poder negro, da resistência e da luta. Percebo o nosso existir feminino, preto e neurodiverso  como esse esporte de se esquivar dos socos, resistir com o abdômen e se defender  com os punhos dos socos que a vida dá. O objetivo é evitar o nocaute, continuar na  luta, vencer por isso. 

2. O livro começa em uma aula de educação física, na quadra da escola Gonçalves Chaves, e depois alcança serras, rios e paisagens urbanas. Que  importância esse deslocamento entre diferentes espaços assume na  construção das memórias presentes na obra? 

A memória é uma paisagem cujos cenários estamos sempre percorrendo. O  sujeito margem é aquele que está deslocado do hegemônico, buscando nas  montanhas a ancestralidade dos minérios, nos rios os conselhos dos avós ribeirinhos.  Estar entre diferentes espaços é reivindicar a ocupação do território. 

3. Quedas, hematomas e estratégias de sobrevivência aparecem associados à  experiência de quem habita as margens. De que maneira você trabalhou essas marcas do corpo para abordar racismo, gênero e neurodivergência sem reduzir a personagem apenas às violências que a atingem? 

A arma do personagem (ou, ao menos, as dentaduras plásticas para impedir a perda dos dentes) é a ancestralidade. É rememorar que a nossa existência é fruto de  anos de luta e resistência dos nossos antepassados. Sem o afago dos ancestrais, não chegaríamos ao ringue. O amor e o povo: são esses a defesa do eu lírico contra  os golpes.  

4. Anatomia, botânica, história, sociologia e literatura estão presentes no livro.  O que lhe interessou em colocar esses diferentes campos do conhecimento em  contato com a poesia e de que maneira eles interferiram na forma da escrita? 

A minha escrita poética costuma nascer em momentos de imersão na literatura científica. A aparição de múltiplas disciplinas foi um movimento involuntário que  acabou me agradando. Creio que essa interdisciplinaridade surge em decorrência da natureza pluridiversa dos saberes etnobotânicos, que se inserem no texto por meio das considerações sobre a planta xixi-de-macaco, por exemplo, dentre outros elementos da natureza e os conhecimentos ecológicos associados. 

5. A ancestralidade aparece ao lado de temas ligados à identidade e à resistência. Que lugar ela ocupa na compreensão que a personagem desenvolve sobre o próprio corpo e sobre sua história? 

Para responder à pergunta, gostaria de rememorar uma frase da Beatriz  Nascimento: "A terra é o meu quilombo, o meu espaço é o meu quilombo. Onde eu  estou, eu estou, quando estou eu sou". Acredito que a nossa subjetividade, a nossa  constituição como indivíduos e o nosso estar no mundo são atravessados pelas  questões históricas e sociais. O banzo, o sequestro transatlântico, a luta, o quilombo.  Existo por causa da resistência; existimos e estamos aqui, todos, graças a ela — graças aos ancestrais. Parte do que sou é o que eles foram. 

6. Como começou sua relação com a poesia e quais experiências foram  decisivas para a formação da escritora que você é hoje? 

Escrevi o meu primeiro poema assim que cheguei do enterro do meu avô paterno, pai de criação. Saudações a adeus foi o primeiro texto poético que escrevi,  aos 14 anos. Antes disso, eu tinha um apreço pelas crônicas, das quais minhas tias  Rosa, Lana e Tila eram as fãs número um, incentivando-me e contando-me histórias  religiosamente, todos os dias antes de dormir. Em algum momento, no final da minha adolescência, minha avó paterna, Amélia, me apresentou a sua amiga de longa data,  a saudosa escritora nortemineira Amelina Chaves. Além de exemplares de suas  obras, ela me deu um conselho essencial: que eu procurasse na internet (na  época, no Facebook) concursos e revistas para enviar os meus textos. Faço isso  desde os 15 anos e comecei a me dedicar com maior empenho aos 20, durante o  isolamento social imposto pela terrível pandemia de COVID-19. Em 2021, fiz uma  oficina com Febraro de Oliveira; em 2023, fui selecionada para o CLIPE, da Casa das  Rosas. Desde então, tem sido assim. Gosto de bater às portas: se elas se abrirem, é  um convite para o café; se se mantiverem fechadas, terei aprendido mais um caminho. 

7. Olhando para sua trajetória literária até chegar a Pugilismo, segundo Lauren  L., que mudanças você percebe na sua escrita e nas questões que hoje deseja  investigar por meio da poesia? 

Pugilismo é o começo da minha enveredada pela prosa. Por mais que seja o  meu segundo livro a ser publicado, foi o meu último a ser escrito. Antes dele, vieram Foram os peixes a inaugurar a linguagem e Flor na mulera ou mineral sozinho não  faz província. Esses e meu primeiro livro, Amarelo mostarda, são da ecoetnopoesia,  no qual parto de meus estudos como bióloga e etnoecóloga para parir poemas. O  processo é mais espontâneo que pensado, um fluxo de consciência poético de natureza experimental. Em Pugilismo, testo personagens, coloco-os no ringue,  coloco-me na arena. O que posso adiantar é que o livro que escrevo agora é um romance, do qual alguns textos estão disponíveis online. Slack Line está na caixa de  agosto da Amora Livros; Seguir, o método venceu o primeiro lugar do concurso de  prosas poéticas, dentre outras publicações na revista Variações. Creio que seja esta  a minha maior mudança: da poesia para a prosa, por mais que nunca saiamos,  realmente, de nossa cidade-poética natal.



Maria Emanuelle Osório Prates nasceu em Montes Claros (MG) em 15 de novembro de 2000. É autora de amarelo mostarda (Editora Nauta, 2024; semifinalista do Prêmio Loba 2025), "Pugilismo", segundo Lauren L." (Selo Capitolinas,2026), A flor na mulêra (Sertão Pasárgada, 2026, no prelo). Integra a equipe de poetas da FaziaPoesia e é membro do Coletivo Escreviventes e do Neomarginais. Possui textos publicados em mais de 60 revistas em português, inglês e espanhol. É etnoecóloga e doutoranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Atua como educadora popular e ativista socioambiental. Desenvolve pesquisas em territórios tradicionais e investiga o papel das redes de troca na adaptação diante da incerteza socioambiental.



*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.