Lita Maria revela violências e imposições sobre as mulheres em A Casa de Todos os Santos

 por Taciana Oliveira|



Terceiro romance do
Ciclo de Vozes do Sertão, livro acompanha a trajetória de Cota e aborda como moralidade, religiosidade e relações familiares podem perpetuar estruturas de violência

O sertão, com suas memórias, tradições e desigualdades, volta a ocupar a literatura de Lita Maria em A Casa de Todos os Santos, terceiro romance do Ciclo de Vozes do Sertão. Desta vez, a escritora acompanha Maria Angelita de Todos os Santos, Cota, filha da lavadeira Isteobalda, para observar especialmente as experiências das mulheres em uma sociedade na qual casamento, maternidade, religião e honra estabelecem expectativas e limites para suas vidas.

Resultado de uma pesquisa acadêmica desenvolvida na Universidade Federal do Tocantins (UFT), voltada aos processos de criação e à artesania da escrita ficcional, o romance investiga violências que se manifestam de maneira cotidiana e, muitas vezes, são naturalizadas sob a aparência de tradição, moralidade, religiosidade ou proteção familiar.

Cota cresce ao lado da irmã Benigna e da prima Efigênia e circula entre realidades sociais distintas. De um lado está a casa simples de Isteobalda; de outro, o universo da família abastada de Romeão e Gemma. O contraste permite à narrativa abordar diferenças de classe e, ao mesmo tempo, mostrar como determinadas convenções atravessam a vida de mulheres em diferentes posições sociais.

Essas imposições aparecem de maneiras distintas nas personagens. Gemma convive com a pressão familiar para gerar um herdeiro homem. Isteobalda, mãe solo, encontra uma forma particular de assegurar identidade aos filhos ao criar para eles o sobrenome “de Todos os Santos”. Entre submissões, expectativas e pequenos gestos de resistência, Lita Maria examina os papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres e o julgamento dirigido àquelas que não correspondem ao modelo esperado de esposa e mãe.

A Casa de Todos os Santos dá continuidade a um projeto literário dedicado à memória, à cultura popular e às transformações sociais do sertão. O primeiro volume, O Canto da Carpideira, foi premiado pela Editora da UFT, indicado em vestibulares e ganhou adaptação teatral. Já Sobre Dora e Dores está em processo de adaptação para o cinema pela Cenaberta Produções, com Marcélia Cartaxo no elenco. A dimensão memorialística segue importante no novo romance, mas a autora direciona o olhar sobretudo para aquilo que se oculta nas relações cotidianas: violências transmitidas entre gerações e assimiladas pelos costumes a ponto de serem percebidas como naturais.

Membro da União Brasileira de Escritores (UBE-GO), Lita Maria conversa com a Mirada Janela Cultural sobre a criação de A Casa de Todos os Santos, a presença das mulheres em sua literatura, as relações entre memória e ficção e o sertão que atravessa os livros do Ciclo de Vozes do Sertão.

Confira a entrevista com Lita Maria:

1. Em "A Casa de Todos os Santos", a violência nem sempre aparece de forma explícita, mas está presente nos costumes, nas relações familiares, na religiosidade e nas expectativas impostas às mulheres. Como você trabalhou literariamente essas microviolências sem retirá-las da naturalidade com que são vividas pelas personagens?

Essas violências aparecem incorporadas ao cotidiano, dentro das casas. Estão nos gestos, nas falas e nos silêncios. Estão nas regras que, aparentemente, são necessárias para a organização da vida familiar e comunitária. Isto posto, meu olhar se desloca para as formas de opressão que se tornam tão naturalizadas e passam a ser entendidas como destino, dever, tradição ou cuidado. Interessa-me justamente mostrar essas facetas. A literatura permite revelar essa violência sem transformar as personagens em exemplos ou teses: elas vivem dentro daquele mundo. No romance não há julgamentos sobre as personagens e, tampouco, explicações ao leitor que determinada situação era violência mascarada de tradição.


2. Cota cresce observando mulheres submetidas a expectativas relacionadas ao casamento, à maternidade e à honra. Em que medida a trajetória da personagem permite discutir a permanência desses valores patriarcais para além do tempo e do espaço retratados no romance?

Será que as pressões que atravessam a vida da infância e da moça Cota ficaram no passado? É certo que ela pertence a um tempo e a um espaço específicos, mas as pressões daquele contexto não ficaram inteiramente no passado. Agora, na sociedade contemporânea, ainda podemos vislumbrar rastros dessa exigência, ou seja, a necessidade de corresponder a determinados modelos de mulher, de esposa, de mãe e de guardiã da honra da família. Faces que aparecem sob outras e diversas formas. Penso que a trajetória de Cota ultrapassa a narrativa, as páginas do romance. Ao lado das outras personagens, vemos que as diferentes estratégias que as mulheres constroem para sobreviver, resistir ou reinventar sua própria existência estão nos corpos e nas escolhas das personagens. Como? No modo como elas observam, questionam, se submetem ou não se submetem aos valores impostos pelo patriarcado.


3. Isteobalda cria o sobrenome “de Todos os Santos” para dar identidade aos filhos, em um gesto que pode ser lido como resistência diante das convenções sociais. Qual é a importância dessa personagem e da escolha do sobrenome para a construção simbólica do romance?

Ao inventar o sobrenome “de Todos os Santos”, Isteobalda se apropria de um espaço que extrapola a geografia, demarcando a “casa do povo de Todos os Santos”. Nomear os filhos, partindo da primogênita Benigna de Todos os Santos, confere-lhes uma identidade que, com a “sensação de pertencimento”, pode assegurar à filha um destino melhor do que o seu: “lavadeira se exaurindo na alça do ferro em brasa”. Há, também, nessa escolha, uma forma silenciosa de resistir aos ditames daquele sertão. O sobrenome cresce e ganha protagonismo na medida em que passa a concentrar aspectos e destinos importantes dentro do romance. O sobrenome abarca ainda família, religiosidade, invenção e sobrevivência. Isteobalda torna-se, então, personagem fundamental porque com a ousadia de inventar um sobrenome para a família, ela também demarca um lugar geográfico e social naquele sertão: “Lá é a casa das meninas de Todos os Santos”!


4. A "Casa de Todos os Santos" é o terceiro romance do Ciclo de Vozes do Sertão, projeto que reúne memória, cultura popular e transformações sociais. O que diferencia este livro dos anteriores e que novas perspectivas ele acrescenta ao sertão que você vem apresentando ao longo do ciclo?

A Casa de Todos os Santos concentra-se na formação de uma família e nos modos de transmissão de valores ligados à honra e às tradições. Mas não se resume a esses aspectos. Amplia olhares já trazidos anteriormente nos outros romances, ora deslocando-os para a espinha dorsal da narrativa, ora desviando-os de convencionalismos arraigados. Então, cada romance do Ciclo de Vozes do Sertão traz um universo visto por ângulos diferentes. Interessa-me o sertão como espaço de transformação, sem cenários e protagonismos rígidos. Tampouco transito por construções pré-estabelecidas. A tentativa parte da ampliação de um sertão trazido pela memória das mulheres. Assim, o ciclo vai compondo um sertão plural, a partir de O canto da carpideira, Sobre Dora e dores, A casa de Todos os Santos e, na esteira, Mulher de currutela, quarto romance em gestação.


5. O romance nasceu também de uma pesquisa acadêmica sobre processos de criação e a artesania da escrita ficcional. De que maneira essa investigação interferiu na forma, na linguagem e na construção das personagens de A Casa de Todos os Santos?

A pesquisa acadêmica me levou a observar com mais consciência aquilo que, durante a criação, muitas vezes acontece de maneira intuitiva. A reflexão sobre a sistematização das vozes, do foco, dos ritmos, da oralidade e da memória, e ainda, da estrutura narrativa e, principalmente, da construção das personagens, foi o grande catalisador dessa junção entre a escrita ficcional e a pesquisa acadêmica. Claro que isso não significou submeter o romance a aportes teóricos rígidos, mas significou e sustentou a artesania envolvida em sua construção. Digamos que a investigação ajudou a depurar a linguagem, respeitando a força e vitalidade das vozes das personagens e a liberdade da ficção. Logo, a pesquisa veio iluminar o processo criativo e não engessá-lo.


FICHA TÉCNICA 

Título: A Casa de Todos os Santos 
Autora: Lita Maria 
ISBN: 978-65-5253-451-4 
Páginas: 173 
Preço: R$ 24,99  
Onde encontrar: Amazon  




Lita Maria é escritora, mestra e doutoranda em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (PPGLetras/UFT), com concentração em Estudos Literários e ênfase em Escrita Criativa. É formada em Psicologia e licenciada em Letras. É autora de três romances que compõem o mesmo universo literário: O canto da carpideira, Sobre Dora e dores e A casa de Todos os Santos. Em processo de criação, Lita Maria trabalha atualmente no quarto romance do Ciclo, Mulher de currutela, ainda sem editora e data de lançamento. 






*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.