O curioso caso do Rolex encontrado em um vulcão — Parte II

 por Carlos Monteiro__






(...continuação)


Levou a peça a um velho amigo relojoeiro com sede na praça da Cinelândia, quando assim o rapa permitia. Lá não estava; deixou com seu auxiliar para que fossem “tomadas as devidas providências” e agendando retorno para o horário onde, comumente, ‘matava aquela quem insistia em o matar, sempre ao encontro dos ponteiros’. Batia ponto na galeteria do beco onde uma ‘penosa’ suculenta saciava e aniquilava seus instintos assassinos estomacais. 

Farto e sonolento, pelo baquete ora traçado, retornou ao ‘senhor do tempo’ que lhe apresentou o orçamento para ajeitar a peça: R$ 760,00. Incluía limpeza, polimento e troca de um elo da pulseira... “Ó messa, por quem me tomas?”. “Que otário sou eu?, “Porra malandro, tá me tirando?”.

Passou a mão na peça, com certa violência, vociferou meia dúzia de palavrões em um combo que incluía as qualidades da progenitora do ‘mascate’, até seu gênero, passando por algumas sugestões de como deveria seguir ao longo da vida, em sua maioria de cunho sexual. Saiu dali com Jânio Quadros em foto de Erno Schneider: trocando os pés. Não era efeito dos dois chopes bem tirados pelo Antônio – com pressão e pouco colarinho –, degustados durante a boda pré-vespertina. Como podia pagar numa mera bateria e limpeza, 14 galos? Absurdo! Roubalheira!

Perambulou pelo ‘quadrilátero cultural’, buscou a borboleta do Rubem, avistou o leão da Biblioteca Nacional e a águia do Theatro Municipal tentando aplacar a raiva. Mas calmo pensou: afinal; por que cobrança tão alta? Será que é uma ‘réplica primeira linha’?

Teve um lampejo e resolveu procurar o representante da marca no Rio. Para seu espanto, receberam a peça para uma avaliação e orçamento sem pestanejarem. Dois dias depois, o valor para a recuperação: R$ 2.650,00. Sim, pasmem! O relógio era original, não cravejado de brilhantes nem em ouro branco, mas original. Estava avaliado no mercado por módicos R$ 9.000,00.

Envergonhado e feliz ao mesmo tempo, fez o passo inverso do ‘homem da vassoura’ retornado ao empreendedor do porvir, ora de pulso, ora de bolso, desembolsou 10 galos, porque pechinchar faz parte do negócio e ostenta até hoje o ‘bobo’ em seu braço.


Fotografias por Carlos Monteiro 










Carlos Monteiro
é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve “Fotocrônicas”, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade Maravilhosa