Um menino sem passado, um conto de Adriano Espíndola Santos

 por Adriano Espíndola Santos__


                                                         
Foto de Jr Korpa na Unsplash
                                                          
Quando Raissa saiu, eu era apenas uma criança de colo, subnutrida, desalmada, por certo. Ela não sabe o mal que me fez. Também suspeito que não fosse do seu interesse se importar comigo. Mãe Lúcia pede para eu não a chamar assim, simplesmente: Raissa. Para não confundir as ideias, dei esse nome razoável e bonito, ainda na infância, numa expectativa ou numa fantasia de reencontro. Eu já tinha, talvez, dez anos quando decidi procurá-la pela cidade. Morávamos no interior, no distrito de Poços Novos. As informações que eu tinha eram muito vagas, imprecisas, que cabiam direitinho na magia de uma cabecinha sonhadora. Falei com o Neca, o dono da única mercearia. Depois, com o seu Luís, o dono do botequim. Por fim, com o Nhô, um homem carrancudo e cismado, marceneiro; um tipo apropriado para fazer caixões de defunto. Este último, com uma voz cavernosa, disse: “Menino, deixe de besteira, sua mãe é Lúcia. Essazinha não é de nada. Nunca foi de nada. Ela se danou para as bandas do Sul. Uma desmiolada. Agarrava-se com um e com outro. Vai ver que o seu nome devia ser Tiquinho; tiquinho de um e de outro”. E caiu na gargalhada, zombeteiro, maldito. Soube que, ano passado, morreu de um troço que lhe comia por dentro; melhor do que por encomenda. Com esse balde de água fria, percebi que era só de mainha, a mãe que me criou e me deu de tudo. Reneguei um suposto passado. “Eu sou um menino sem passado”, pensava assim. Não derramei mais uma miserável lágrima sequer. Não estava disposto a dizer ou fazer notar que a minha dor era provocada por uma mãe (biológica) desnaturada. O tempo passou e mãe Lúcia resolveu se mudar para a cidade grande. “Você precisa estudar num colégio de responsabilidade. Eu tenho uns trocados e não tenho medo de trabalho”, mãe falou. Lembro-me que os primeiros meses foram terríveis. Morávamos nos fundos da casa grande do senhor Bonifácio. Ele nos alugava o casebre, por um “precinho módico”, na condição de trabalharmos para ele, para a sua perversa existência. Não conto as vezes que mãe saiu de lá, da casa grande, umas dez da noite, porque precisava arrumar tudo tintim por tintim; “isso tem de ficar um brinco, molambenta!”, dizia o velho. Uma noite escutei um grito e saí em socorro de mãe. O homem estava bêbado e lascivo em cima dela. Meti uma panela na cabeça dele, com gosto; pensei que podia ter matado. Não, vaso ruim não quebra fácil. Dormiu um longo dia e, aí, tivemos paz. Depois de dois anos, saímos sorrateiros, com os nossos cacarecos, à procura de uma nova residência. Vagamos um dia e uma noite. Dormimos na rua. Mãe Lúcia chorava sem parar, com medo de nos fazerem mal. Logo, felizmente, encontramos um albergue e mãe conseguiu se ajeitar; arranjou um trabalho num bar, de cozinheira. No albergue, fizemos amizade com Dionísia, uma senhorinha de poucas palavras e muito carinho. Não sei o porquê, contei-lhe sobre a minha vida, que era filho adotivo e que, durante um tempo, procurei por minha mãe; mas que hoje não estava nem aí. “Menino, se não ligasse, nem estava falando. Não é mesmo? Há coisas que o coração não explica”. Ela relatou que sentia muita falta das filhas, duas; que não sabiam do seu paradeiro, e vice-versa. A verdade é que nos juntamos na dor. Enquanto mãe Lúcia trabalhava, eu ficava um bom tempo com a vozinha, como a chamava, e debulhávamos as nossas angústias. Até que descobri que uma de suas filhas se chamava Raissa, que significa chefe, líder. Eu disse a ela que colocara o nome postiço de minha mãe biológica de Raissa. Como ela ficou feliz. Meses depois, mãe Lúcia conseguiu uma casinha de vergonha, “respeitável”, como costumava falar. Levamos dona Dionísia, que ficou sendo definitivamente a minha avó. Tendo uma mãe e uma avó, dei-me por satisfeito e segui a minha sina de garoto sonhador, muito bem amparado por elas. Hoje tenho a certeza de que Deus faz os encontros, o que tem de acontecer. Sou o Railson que deveria ser.




Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com