Entre estações e pertencimentos: Sandra Acosta lança livro de crônicas sobre a vida em Londres

por Taciana Oliveira |


Foto: Lu Morais

Entre estações e pertencimentos: Sandra Acosta lança livro de crônicas sobre a vida em Londres


Em Estações — Crônicas de uma vida em Londres (2025), a escritora e mestra em Escrita Criativa Sandra Acosta transforma sua experiência de imigrante na capital britânica em literatura. Publicado pela Editora Patuá, o livro se organiza em quatro partes, verão, outono, inverno e primavera, refletindo tanto o ciclo marcado das estações do ano quanto as estações de metrô que pontuaram sua rotina na cidade.


Ao retratar uma Londres turística, Sandra optou captar os detalhes que escapam aos cartões-postais: a vida nos trajetos diários, os encontros breves, a solidão peculiar de quem vive entre culturas. A obra  entrelaça cenas do cotidiano a grandes acontecimentos históricos como a morte da Rainha Elizabeth II e a coroação de Charles III, revelando como os instantes banais convivem com eventos que mudam o rumo de um país.


Entre reflexões sobre pertencimento e despedida, Sandra cria uma narrativa de deslocamento que dialoga com sua própria trajetória familiar, marcada por migrações e viagens. Autora também de Pra que varanda se a vista é feia? (2021) e Poemagem: poesia e colagem pra viagem (2023), ela considera Estações um marco de amadurecimento artístico e pessoal, em que a economista-bancária se reconcilia com a artista.


Nesta entrevista, a escritora fala sobre o desenvolvimento de transformar vivências em crônicas, o papel da escrita como elaboração de despedidas e as influências literárias que reverberam em sua obra.



1.⁠ ⁠O que a motivou a transformar sua experiência como imigrante em Londres em um livro de crônicas?


A crônica é um gênero literário que me acompanha há um tempo. Por meio dos textos curtos, tento captar algumas sutilezas do cotidiano e colocá-las em destaque. Sendo uma imigrante em Londres, era mais fácil notar o que diferia à cultura brasileira, sem deixar de lado aquilo que nos aproximava também. A ideia em Estações é mostrar, por meio do meu olhar naquele momento, naqueles lugares, que Londres pode ser extraordinária e banal, intensa e pacata, esfuziante e serena.


Fui anotando cada uma das situações que poderiam render uma crônica e, com isso, criei um cronograma de escrita. Comecei a escrever ainda em Londres, mas já sabendo que deixaria a cidade logo em seguida. Terminei o manuscrito em São Paulo. 

Levei oito meses para terminar a primeira versão.


2.⁠ ⁠Seu livro é dividido em quatro partes, seguindo as estações do ano. Como essa estrutura dialoga com sua vivência na cidade?


Como fio condutor do livro, escolhi a imagem transitória das estações, tanto em relação ao tempo, já que as estações do ano são tão marcadas e vividas em sua plenitude na cidade, quanto ao espaço das linhas de metrô e de trem, usufruídas ao máximo pela população local. 


O livro então é dividido em quatro seções — verão, outono, inverno e primavera — e cada crônica apresenta a estação de metrô ou trem onde se passa a ação, revelando o caráter único de cada momento vivido, sendo impossível de ser replicado por mim ou outra pessoa em qualquer outro contexto.


3.⁠ ⁠Em Estações, você transita entre grandes acontecimentos históricos, como a coroação do Rei Charles III, e cenas cotidianas do metrô ou da vida comum. Como foi equilibrar essas duas dimensões?


Morei em Londres entre 2022 e 2024. Foram anos efervescentes do ponto de vista histórico, sobretudo no Reino Unido: além da euforia do fim da pandemia, houve a comemoração do Jubileu de Platina da Rainha Elizabeth, a morte dela alguns meses depois e a coroação do Rei Charles III. Ao mesmo tempo, Londres prosseguia sendo uma cidade onde as pessoas usam metrô, fazem compras no supermercado, participam de corais no bairro, são entrevistadas para um emprego, ou seja, replica a banalidade vista em outras cidades ao redor do mundo.


Registrar minhas impressões a respeito desses momentos únicos me pareceu uma forma de não esquecer o que vivi, além de apresentar aos leitores uma versão alternativa da Londres do Big Ben e do Palácio de Buckingham.



4.⁠ ⁠De que forma a escrita ajudou nesse processo de despedida e ressignificação do “lar”?


Vivi quase três anos em Londres, uma cidade ímpar pela multiplicidade de culturas, possibilidades, origens, facetas. Colocar no papel as histórias que experienciei foi uma forma de lidar com o “luto” e a mudança de volta ao Brasil. 


O tema “Viagens”/ “Imigração” / “Mudança" / Adaptação cultural perpassa tudo o que sou e tudo o que escrevi até hoje. Sou bisneta de italianos e portugueses imigrantes que vieram tentar a vida no Brasil, neta de um caminhoneiro que percorria o país de norte a sul, filha da união de uma brasileira com um colombiano que moram hoje em um motorhome na Europa. O conceito de casa, portanto, adquire uma outra dimensão, amplia-se para aquele lugar em que me sinto bem, perto de alguns livros e das pessoas que amo. 




5.⁠ ⁠Quais escritoras e obras influenciaram mais diretamente na produção deste livro, e de que modo essas vozes reverberam na sua?


Sou influenciada pela escrita de inúmeras escritoras contemporâneas brasileiras, como Giovana Madalosso, Nara Vidal, Lorena Portela, Natalia Timerman. Além disso, no exterior, sou fã da escrita de Elena Ferrante, Rosa Montero e Claire Keegan. Com relação aos clássicos, Jane Austen, as irmãs Bronte e Virginia Woolf sempre me acompanharão em tudo o que escrever.


Com relação às crônicas, considero que meu estilo se aproxima ao da Martha Medeiros, pelo seu tom leve, simples e delicado. Ela também escreve sobre viagens em sua série de livros “Um lugar na janela”.


6.⁠ ⁠O que torna essa obra tão especial em comparação às anteriores?


Estações marca um período bastante único da minha vida enquanto imigrante em Londres. Ele representa a concretização de um sonho, o meu amadurecimento como escritora, uma reconciliação entre as minhas diversas versões, inclusive a da economista-bancária com a artista. Com ele, encerro a experiência londrina com um livro, um viva à literatura.


Escrever um livro, para mim, é um feito grandioso, uma pequena transgressão à lógica capitalista de que tempo é dinheiro, uma interrupção na mesmice dos dias para contar uma história, uma forma de me conectar ao outro por meio da minha voz. Estações confirma o meu ofício de escrever e o meu desejo de disseminar a leitura a novos públicos.


Adquira a obra no site da editora Patuá: clica aqui




Sandra Acosta é escritora, mentora de escrita criativa e colagista. Nasceu em Santos–SP, cresceu em Campinas–SP e atualmente reside em São Paulo, capital. Mestre em Escrita Criativa pela Universidade de Coimbra, tem formação em Economia pela UNICAMP e mestrado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR. Publicou os livros “Pra que varanda se a vista é feia?” (Letramento, 2021) e "Poemagem" (Arpillera, 2023), além de ter recebido menção honrosa no Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes (2019). Atualmente, escreve um romance, ministra oficinas de escrita e mantém a newsletter "Um livro é uma colagem".


Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.