por Adriano Espíndola Santos
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| Foto de Jr Korpa na Unsplash |
Charles tinha a mania de me perseguir. No começo, eram situações esporádicas, não nos conhecíamos. Com o avançar do semestre, começamos a nos falar — muito pouco. Eu queria ficar em paz. Naquela época, na sétima série, na flor da adolescência, era comum medirmos forças. Eu não entrava nesse jogo, preferia ser o amigo legalzão. Chegava-me aos grandões da sala, e aí pensava que teria algum tipo de proteção. Mas Carlos Alberto, o perigoso, havia me alertado para o fato de que Charles era meio doido, que não ficasse só perto dele. Houve momentos em que, mesmo acompanhado, Charles se chegava atropelando, dando tapas. Aquilo estava passando dos limites, e eu sabia que mais cedo ou mais tarde teria de dar um jeito. Não poderia depender de Carlos Alberto — por quê não se sabe —, ele tinha medo de ser repreendido mais uma vez pela coordenação; ou seja, mais uma advertência e poderia ser posto para fora do colégio. No dia “d”, eu havia chegado tranquilo, só queria resolver a minha prova bimestral de Ciências. Quando eu estava de cócoras, amarrando o sapato, na porta da sala, Charles veio por trás e me deu um grande empurrão. Gerou-se o burburinho: “E aí, Rodrigo, não vai fazer nada? Vai deixar por isso mesmo?”. Ah, o sangue subiu! Peguei, no bolso da frente da mochila, um anel de caveira que havia guardado para situações arriscadas e pus no dedo do meio da mão direita, em sigilo. Levantei-me acanhado, esperando mais uma investida. Charles correu em minha direção e me deu uma ombrada. Caí mais uma vez. A turma toda fazia chacota. Carlos Alberto não estava. Seria a minha vez de agir. Empurrei Charles, que caiu dentro da sala. Quando ele se levantou com impulso, pronto para me dar um murro, acertei-o com um contragolpe. Ele não caiu, incrivelmente, mas ficou aturdido. Aproveitei para lhe aplicar uma sequência de murros combinados, mão direita, mão esquerda, e o levei assim até o fim da sala, onde ele encostou na parede e caiu deslizando no azulejo — um destruído personagem de novela mexicana. Flávia veio em seu socorro. Colocou-se na minha frente, gritando. Ela era a líder de sala, chata pra caramba, e pegou a “vítima” pelo braço e o levou para a coordenação. Fui chamado imediatamente para esclarecimentos, uma legítima acareação. Havia provas de que fui agressivo além do normal — o rosto do encrenqueiro era a prova cabal. A coordenadora Mirtes disse que sabia do comportamento de Charles, mas que eu teria infringido a regra máxima: não bater — mais um mandamento bíblico, já que a escola era católica. Fui suspenso por dois dias, e meus pais tiveram de ir à escola. Não souberam do anel que carregava no dedo: logo que saí da escola, joguei-o no lixo. Não deixaria provas. Meu pai, a bem da verdade, gostou da reação, apesar de não ter dito. Pouco ou nada brigou comigo. Alertou, somente, que não fizesse mais isso. Penso que ele achava que eu era apático ou um verme indefeso. Mostrei-lhe que sei me defender — e muito bem. Ao retornar à escola, longe de imaginar, fui recebido pelos garotos de outras turmas como Maguila, com gritos estridentes, como numa torcida organizada. Eu era, ali, um deus do boxe. Só numa coisa isso me ajudou: não havia mais, para o meu lado, qualquer implicância para medir forças. Fui coroado como o maioral.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir — sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com


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