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Livros Restantes: um filme para poucos, mas que deveria ser para muitos

por Taciana Oliveira | 



Livros Restantes: um filme para poucos, mas que deveria ser para muitos



Assistir Livros Restantes, dirigido por Márcia Paraíso, é banhar-se numa experiência acolhedora e vulnerável em um dos filmes, desde já, mais marcantes da nova safra de produções do cinema brasileiro. Ambientado na comunidade pesqueira da Barra da Lagoa, em Florianópolis, o roteiro acompanha Ana, personagem interpretado por Denise Fraga, uma professora de literatura prestes a se mudar para Portugal. Mas antes de partir, ela inicia um gesto aparentemente simples: desfazer-se de seus livros. No entanto, cinco exemplares resistem ao desapego.


Marcados por dedicatórias e memórias afetivas, esses livros tornam-se o ponto de partida para um itinerário particular de uma mulher que procura ressignificar sua trajetória após os cinquenta anos. Ana decide devolvê-los às pessoas que os ofereceram, e, a partir desse movimento, o filme se constrói em uma narrativa nostálgica sobre transformação, despedida e coragem. Com uma fotografia primorosa e direção de arte belíssima, Livros Restantes chegou a mim tal qual uma crônica, um poema visual, uma ode não apenas à literatura, mas ao que a arte proporciona ao ser humano: a possibilidade de evolução, de consciência e de recomeço. 


Denise Fraga entrega uma atuação avassaladora, sustentada por um elenco de coadjuvantes afiados e conectados ao ritmo de uma montagem que confere firmeza e humanidade à trama. Não se trata apenas de um filme sobre livros, mas de uma narrativa desenhada com extrema delicadeza sobre relacionamentos familiares e amizades, entre passado e futuro, entre aquilo que recebemos e aquilo que precisamos devolver para seguir em frente. Há momentos de uma força dramática arrebatadora, capaz de nos deixar sem chão, a exemplo da cena do jantar em que Ana confronta o seu abusador. Uma sequência que ressoa em gesto de ruptura, superação e resistência, sobretudo para tantas mulheres que carregam silêncios semelhantes. 




À medida que a personagem percorre esse ritual de devolução, vamos compreendendo o lugar que cada pessoa ocupa em seu delicado quebra-cabeça de traumas, afetos e frustrações. Por trás de sorrisos cordiais, ressuscitam mágoas e confissões tardias, e cada reencontro aproxima o público ao que levou Ana a esse ponto decisivo de sua vida. As fragilidades dos personagens não são exageradas nem caricatas, são reconhecíveis, palpáveis, quase íntimas. Essa familiaridade cria uma conexão imediata com quem assiste. O processo de transformação de Ana nos leva a refletir sobre uma constatação: as pessoas que um dia moldaram nossa vida já não são as mesmas e nós também não somos. Há uma amiga cujos valores se distanciaram tanto que o reencontro se torna impossível. Há o antigo romance de verão que, revisitado pela maturidade, já não guarda encanto, mas constrangimento e decepção. O passado, ali, não é romantizado, é revisto com lucidez. 


Livros Restantes resgata em nós uma sensibilidade esquecida: a percepção de que, ao longo da vida, muitas pessoas contribuíram para nossa formação, mesmo entre erros e acertos. E que, em algum momento, é preciso reconhecer, desapegar, retribuir e partir. Um filme para poucos, mas que deveria ser para muitos.


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Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.