por Mariana Quevedo |

Foto de Benigno Hoyuela na Unsplash
Estevão
Hoje faz três anos que meu filho foi atropelado. Atropelado e morto, na verdade.
As palavras que vêm à minha boca são tortas e meu pensamento está bagunçado. Não escuto o que me dizem, muito menos o que me perguntam.
Estevão foi atropelado numa tarde qualquer, de um dia como qualquer outro. Ele estava brincando com os amigos na rua, corria de um lado para o outro com um sorriso largo no rosto. Vestia sua blusa favorita do Homem-Aranha.
Meu Estevão, que recebeu esse nome em homenagem a um grande amigo de infância, morreu. E desde então eu venho me afundando no passado, me culpando por nunca ter sido um pai presente, por não ter comprado a bola que ele queria na última vez que fomos ao mercado, por não ter ensinado ele a ler, por não tê-lo levado ao cinema pelo menos uma vez.
Eu não aprendi a passear pelos livros, nunca vi sentido na arte — e nem sei se um dia vou ver isso. Mas meu filho queria ser pintor e escritor. Ele dizia todo dia que ia escrever um livro sobre a nossa família, contar os dramas da nossa casa pro Brasil inteiro, que nem em novela.
Eu achava meu filho tão sonhador. Mesmo sendo menino novo, parecia que o mundo não era o suficiente: ele queria o impossível. E eu, mesmo sendo descrente dessas coisas de destino e de Cristo, pensava que Estevão um dia ia ter livro publicado, foto em jornal e um carro.
Um carro. Um carro como o que tirou a vida dele.
Meu filho amava carros. Queria um carro vermelho e dizia que ia me levar para ver minha família no interior. Dizia que ia me dar a paz no peito de presente, que ia me levar ao cemitério onde meu pai está enterrado.
Como é que pode eu ter perdido a vida do meu filho? Como é que pode eu não ter visto ele crescer direito? Como é que pode eu não ter impedido ele de ser arrastado por um carro vermelho — igual ao que ele queria? Como é que pode eu só ter chegado em casa quando o corpo dele já estava coberto por uma manta branca? Como é que eu não tive a capacidade de proteger meu próprio filho de morrer em frente à nossa própria casa?
— Boa tarde, posso ajudar?
Tinha esquecido que eu estava na fila do Fórum. Tinha esquecido que vim atrás de resolver assunto velho. Tinha esquecido que eu queria a justiça que meu filho nunca teve. Tinha esquecido que passei horas na frente do supermercado pensando em comprar uma cachaça — o remédio dos que têm a alma bagunçada.
Não sei o que respondo a essa moça. Como é que eu vou me justificar por não ter vindo testemunhar contra o sujeito que matou meu próprio filho?
Mariana Quevedo é, antes de tudo, uma leitora voraz desde os 6 anos, começou a se aventurar pela escrita a(r)teando versos e frases no bloco de notas aos 11 anos e desde então nunca parou. É professora de Língua Portuguesa, graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará, e é completamente apaixonada por palavras-verbos.

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