Popular

O Fogo | Nely da Costa Barbosa

por Nely da Costa Barbosa |


Foto de Adam Greer na Unsplash

O Fogo 

Observei o fogo passar a sua língua impiedosa sobre o pasto, tudo desapareceu num piscar de olhos, grande parte daquele povoado ainda dormia, indiferentes a tudo. O grande calor parecia vir do céu, como um sol inclemente. 

Toquei naquele chão e meus dedos arderam como brasa, lambi as suas pontas, e tinham o gosto daquele sol. 

 Verti água sobre aquele solo árido, vi a fumaça subir, seguida do chiado da água evaporando, a terra estava fritando, literalmente. Pisei exatamente no local onde a água entornou e ali, o ardor era suportável, fui então criando um rastro com a pouca água que me restava, criando um caminho possível. Pé ante pé, alcancei o outro lado do campo, olhei para trás e avistei o que poderia chamar, de um grande deserto. Procurei um pouco de vida em meu entorno, mas tudo era cinza e seco. Fechei os olhos e chorei, cada lágrima vertida evaporava ao primeiro contato com o solo, não tinha gosto de sal, mas de poeira. A lama escorria por minha face, como um rio barrento, carregando tudo que atravessava o seu caminho. Tentei gritar, mas ninguém me ouviria, continuavam dormindo, ausentes daquela dor. Pensei no dia anterior, e me senti confusa, impotente!. Tudo aconteceu tão rápido… 

 Foi quando uma mão úmida tocou meus ombros e as beijei, imediatamente, tentando acalmar minha sede. “A vida é isso querida, recomeça…” Pensei que desistir não era um caminho, mas continuar com o que se tinha, até a vida voltar a dar frutos doces, como mel escorrendo pelo canto da boca da criança pequenina que, mesmo sem habilidade alguma, lambuza-se, aproveitando o melhor que pode. 

 Olhei para o céu e vi as estrelas, a lua, as nuvens, tudo estava lá, tentei imaginar que estava em outro lugar, bem longe dali, foi quando, uma a uma, as pessoas começaram a chegar, finalmente se deram conta da grande dor, e em silêncio, começaram, unidas, uma grande caminhada. 

  


Nely da Costa Barbosa, nasceu em agosto de 1969 em Recife–PE, graduada em História pela Universidade Católica de Pernambuco, estudou música na Universidade Federal de Pernambuco e no Conservatório Pernambucano de música. Atualmente desenvolve pesquisa na área de cinema, mais especificamente sobre o trabalho do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante. É apaixonada pelos livros e toda forma de arte. Começou a se aventurar na escrita ainda muito jovem, mas só agora decidiu compartilhar suas experiências com o público, acreditando estar vivendo um momento mais prolífico e mais tranquilo para se dedicar a essa arte.