por Taciana Oliveira |
Livro da Editora Terreno Estranho mistura memória pessoal, cultura pop e jornalismo para contar a história de uma geração.
Em Deslumbre — Histórias de obsessão musical (Terreno Estranho, 2025), Gaía Passarelli transforma a própria trajetória em um mapa afetivo da cultura pop das últimas quatro décadas. Entre clubes míticos como o Espaço Retrô e o Hell’s Club, a redação da MTV Brasil e o lendário Peel Acres, na Inglaterra, a autora reconstrói uma experiência geracional onde a música não era apenas trilha sonora, mas linguagem, identidade e pertencimento.
Com prefácio de Camilo Rocha e ilustrações de Tiago Lacerda, o livro costura memória pessoal, jornalismo cultural e crônica para narrar o percurso de uma geração que cresceu entre fitas K7, CDs, pistas de dança, programas de TV e, depois, algoritmos. Em cada capítulo, e nas seções Backstage, que reúnem listas de discos, filmes e livros, emerge um retrato sensível da Geração X paulistana, atravessada pelas transformações tecnológicas, urbanas e afetivas da virada do século.
O livro é um inventário de referências que vão de Joy Division, Bauhaus e The Cure a Björk, Aphex Twin, Prodigy e Crystal Castles. Deslumbre investiga o que acontece quando a paixão pela música deixa de ser consumo cultural e se converte em um modo de existir no mundo. É sobre essa fronteira entre obsessão, identidade e memória que Gaía Passarelli fala na entrevista a seguir:
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| Fotografia: Hernandes |
Depois que saí do jornalismo cultural, passei um tempo tratando minha trajetória musical como algo privado, um repertório afetivo que me explicava, mas que não necessariamente teria valor público. Mas recentemente, acompanhando colegas geracionais organizando seus próprios históricos, comecei a notar que existem referências e experiências compartilhadas por muita gente da minha geração. Em Deslumbre, esse entendimento ganha forma porque o livro nasce da fricção entre experiência pessoal e contexto histórico. Ao revisitar clubes, programas de TV, fitas, CDs, listas, entrevistas e arquivos, ficou claro que minhas obsessões não são só minhas. Na minha juventude, e dos meus pares, a música não estava tocando no fundo, mas organizando identidades mesmo, era a básica onde construímos deslocamentos, desejos, pertencimentos — e carreiras também. Quando percebi que minha formação musical acompanhava — e às vezes antecipava — transformações maiores na indústria cultural, na mídia e na forma de se relacionar com o mundo, entendi que minha trajetória era também um ponto de observação legítimo sobre uma geração inteira tentando se entender através do som.
2. Os espaços que você retrata (Espaço Retrô, o Hell’s Club, o Peel Acres e a MTV) funcionam quase como personagens do livro. O que esses lugares dizem sobre a relação da Geração X com a música e com a cidade?
É natural que espaços digam sobre as gerações que construíram suas identidades antes da mediação total das plataformas digitais, então não é como se eu tivesse pensado dessa forma. Eles aparecem porque eram, de fato, os espaços habitados, e como tal moldavam comportamentos, estéticas, horários, modos de circulação pela cidade e até formas de amizade. Ir a uma pista de dança, um bar, assim como visitar um estúdio, é participar de um lugar, um movimento.
A Geração X foi a última a viver uma relação profundamente urbana com a música, com pouca mediação de agentes externos. Em Deslumbre, as cidades são ritos de passagem — São Paulo é o marcador primordial, mas Londres oferece um contraponto essencial. Acho que os lugares também revelam uma relação menos higienizada com a cultura: havia improviso, precariedade, risco e descoberta. Em Deslumbre, tento mostrar como esses espaços criaram comunidades temporárias, intensas, que ensinavam a ouvir, a olhar e a se posicionar no mundo — algo que hoje parece mais difuso nas dinâmicas digitais.
3. Sua obsessão pela música não é apenas afetiva, mas também política, estética e existencial. Em que ponto essa paixão deixou de ser consumo cultural para se tornar um modo de estar no mundo?
A virada acontece quando a música deixa de ser apenas algo que acompanha a vida e passa a estruturá-la. Comigo, acho que isso aconteceu no final dos anos 1990, quando com o Camilo Rocha e o Gil Barbara criei o rraurl.com — uma experiência alinhada com o que estávamos observando, um dos primeiros sites de música do Brasil. Ter um site foi uma coisa totalmente motivada pelo deslumbre com um cenário, com uma música, e o desejo genuíno de levar isso para mais pessoas. E foi uma coisa espontânea, que acabou definindo muito da minha vida: por gostar muito de techno criei o rraurl com dois amigos, isso me levou mais tarde a escrever sobre música profissionalmente, que me levou à MTV, que me levou a viajar e escrever sobre viagens, que me levou a publicar um primeiro livro, etc.
4. As seções Backstage, com listas de discos, filmes e livros, ampliam a narrativa para além da autobiografia. Como foi escolher essas referências e que tipo de leitura você espera que elas provoquem no leitor?
Esses “anexos” são meio que os bastidores do livro. Ouvi muita música enquanto estava escrevendo, e a vontade de organizar essas listas foi consequência natural. Também gosto da ideia do livro de não ficção ter mais do que textos corridos — todos meus livros até agora são ilustrados, trazem “extras” para ler e repartir, acho que isso ajuda a formatar um produto inteiro. Além disso, listar as referências me ajudou a colocar no papel coisas muito específicas que não entraram nos textos — por exemplo, ter assistido Dogs in Space teve um impacto tremendo quando eu tinha 13 anos, assim como ouvir o Music for the Jilted Generation do Prodigy. Mas em vez de nostalgia passiva, proponho uma nostalgia ativa, curiosa, que convida à investigação e à continuidade. A ideia é que as listas sejam uma leitura expandida, que ajuda manter o livro na cabeça depois da leitura.
5. Ao revisitar quatro décadas de transformações tecnológicas e culturais, Deslumbre parece também refletir sobre o que se perdeu e o que se ganhou com a digitalização da música. Hoje, de que forma você vê o futuro dessa relação entre pessoas, som e memória?
A digitalização ampliou radicalmente o acesso e a preservação da música, mas também alterou nossa relação com o tempo, a espera, a escuta e o próprio ato de ouvir, dançar, estar presente. Tento evitar uma visão puramente nostálgica, porque não se trata de dizer que “antes era melhor”, mas de entender que as mudanças reorganizaram as coisas, e nem sempre para melhor. Perdemos certos rituais — o esforço físico, a escassez, o acaso — e ganhamos outros, como a possibilidade de revisitar arquivos inteiros, de criar novas comunidades e de reativar histórias esquecidas. O futuro dessa relação, chuto, passa menos pelas tecnologias e mais pela forma como vamos escolher usá-las. A música não vai deixar de ser uma experiência, individual ou coletiva, poderosa. Mas gosto da ideia de que música é arte e, por isso, é um dos nossos principais modos de nos reconhecermos no tempo.
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Título: Deslumbre — Histórias de obsessão musical
Autora: Gaía Passarelli
164 páginas
Editor: Marcelo Viegas
Projeto gráfico: Renata Coelho
Ilustração: Tiago Lacerda
ISBN: 978-85-94260-11-6
Serviço:Terreno Estranho e Ponta de Lança convidam:
Lançamento de “Deslumbre: Histórias de Obsessão Musical”, de Gaía Passarelli
Com Camilo Rocha, Rodrigo Carneiro e Camila Yahn (mediação).
15/01 · 20h às 21h30
Livraria Ponta de Lança — R. Aureliano Coutinho, 26, Vl Buarque
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.

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