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Fui cortado pela palavra | Davidson da Silva Souza

 por Davidson da Silva Souza |


Foto de KAMZY NUEL: https://www.pexels.com/pt-br/foto/32121093/

Quando criança, no início dos anos 2000, na comunidade do Parque Veras, eu não tinha acesso a leituras infantis, especialmente à literatura destinada às crianças. Em casa, porém, tínhamos uma televisão de tubo, de 14 polegadas, que sintonizava alguns canais abertos, entre eles a TV Cultura e seus diversos programas infantis, como Castelo Rá-Tim-Bum, Catalendas e Turma do Pererê

Esses programas, somados às histórias contadas oralmente entre as crianças da rua, certamente fomentaram minha imaginação infantil. Para mim, os monstros eram figuras grandes, medonhas e cheias de fúria, prontas para atormentar qualquer pessoa e provocar medo na hora de dormir. 

Ao longo da infância, fui perdendo o medo dos monstros que habitavam meu imaginário de meninice e, em algum momento que não me recordo, eles desabitaram minha mente. Contudo, quanto mais eu crescia, outros monstros surgiam. Mudavam de forma, mas, em essência, eram os mesmos. Ora se apresentavam de maneira sutil, quase imperceptível; ora surgiam de modo abrupto, cheios de arrogância e violência. Em todas as ocasiões, deixavam em mim sensações de dor, amargura e insegurança. 

Com o amadurecimento, aprendi com velhos griots que esses monstros tinham nome, no singular, porque, apesar de se apresentarem de diversas formas, tratava-se de um só. Mesmo assumindo diferentes jeitos e ocupando vários ambientes, era sempre o mesmo. E não havia coincidência no fato de ele atormentar apenas pessoas com a pele da cor da noite, como a minha. 

Como pessoa negra, aprendi desde cedo a adotar comportamentos que buscassem me ajudar a (sobre)viver fora de casa. Por exemplo: sair sempre com a identidade, caso a polícia me “abordasse” na rua; vestir-me “bem”, para que o segurança de um estabelecimento não me seguisse pelos corredores; ou ainda estudar, na tentativa de superar meus mais velhos e minhas mais velhas e ascender socialmente, na esperança de que essa ascensão me protegesse do branco-monstro polimorfo que habita a sociedade. 

Podemos chamar esse monstro de racismo. Ele é um ser polimorfo: adapta-se a diversos cenários, manifesta-se de inúmeras formas, mas mantém sua essência — a desumanização de corpos negros. Para compreender o racismo, combatê-lo e tentar superá-lo, já fiz dezenas de cursos, ministrei outros, pesquisei, li centenas de autores e autoras negras, escrevi textos literários e artigos acerca do tema. Ainda assim, nada do que fiz ou vivenciei me preparou para aquela manhã de outubro. 

Estávamos no segundo semestre de aulas na educação básica, exaustos — eu e as crianças. Todas as aulas começam com uma contação de histórias, para que aquelas que não têm acesso à literatura infantil em casa — como aconteceu comigo na infância — possam encontrá-la na escola. Após a leitura de uma história envolvente sobre uma criança que redescobria o mundo depois de aprender a ler, uma de minhas educandas me feriu profundamente com uma frase. Ela olhou para mim, sorriu e disse: 

— Tio, seu cabelo parece Bombril. 

Por um longo segundo, fiquei imóvel, sem reação. O racismo havia se manifestado de uma forma totalmente nova: uma criança que amo havia dito algo tão cruel. É como quando estamos preparando um alimento e, distraídos pela rotina, a faca escapa e corta o dedo. No início, parece algo sem importância, superficial; mas logo o sangue começa a minar, e percebemos a profundidade do ferimento. 

Fiquei assustado, a vontade que tive era de sair daquela sala para tentar processar o que havia acontecido. Meus olhos marejaram, bebi um gole seco de água, respirei fundo e fui conversar com ela, que se desculpou, mas o corte não parava de sangrar. Talvez um dia ele se feche, e a cicatriz que ficará me lembrará o quão cruel é o racismo por me fazer ver um monstro naquela criança. 

Fui ao banheiro, tirei os óculos de grau, lavei o rosto e me encarei no espelho. Estava inteiro, mas o olhar baixo indicava que o corte existia e que eu estava partido. Com receio, encarei-me novamente e, apesar da desumanização que o racismo impõe, vi-me sangrando e, portanto, humano.



Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.