por Luiz Henrique Gurgel |
O Agente Secreto fala para um Brasil que não conhece o Brasil
No entusiasmo com o filme de Kleber Mendonça Filho, o que era para ser uma crônica sobre uma ida ao cinema, virou textão, quase ensaio. Assisti na semana de estreia, no começo de novembro passado, e logo quis escrever sobre o que vi. Comecei a rascunhar assim que saí da sala, gravando impressões no celular. O texto acabou guardado, só mostrei para amigos. Agora, com a conquista do Globo de Ouro nos States — melhor ator em filme de drama para Wagner Moura e melhor filme em língua não-inglesa — entusiasmei de novo, tirei da gaveta e eis o que achei dele.
Antes, caro leitor e cara leitora, que ainda não tenham assistido, preciso dizer que irão encontrar algum spoiler aqui. E quem já viu, chamo para a conversa.
O filme instiga, é audacioso, original na linguagem, riquíssimo e múltiplo em referências ao cavoucar nossa (des)memória recente. Um carnaval de 1977 no Recife é o pano de fundo. É curioso esse antigo hábito que temos de escamotear nossa história. Não faz 40 anos que a ditadura acabou e já tivemos o recentíssimo 8 de janeiro.
Repleto de brasilidades que arrebataram os gringos, a começar pelo elenco, devora e reaproveita linguagens, um jeito nosso de fabular. Kleber deglute e incorpora gêneros cinematográficos, há o filme policial, o político, o de ação, o de suspense, o de mistério, a pornochanchada brasileira, o trash movie, o Bang-Bang, o Cinema Novo. Está tudo lá, mesclado e costurado na montagem. Sem falar no repentino “chicote” temporal no meio da história, que nos leva de uma época para outra e depois nos traz de volta para entender o que está se passando na tela.
Fala de “Pernambuco para o mundo”, como anuncia o rádio do carro logo nas primeiras cenas com Marcelo, que na verdade é o professor universitário Armando (Wagner Moura) e que, ficamos sabendo depois, fugia de uma perseguição. Ele voltava à Recife com outra identidade, sem a mulher que está morta, para buscar o filho que vive com os avós e sair do país. Pouco depois, na estrada, ele se encontra e se assusta com um Papangu, personagem carnavalesco mascarado, típico do agreste, que esconde a verdadeira identidade. Semelhante ao Papangu, é preciso saber lidar com o jogo do segredo, algo que este agente secreto meio às avessas, assim transformado para salvar a própria pele e que busca segredos sobre si, vai perceber a duras penas ao longo do filme.

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho
As memórias do diretor — de Recife, do Cine São Luís, da Perna Cabeluda, do Carnaval — também estão incorporadas. Ainda tem uma sequência de perseguição antológica ao som da Banda de Pífanos de Caruaru, com uma composição maravilhosa de nome mais que apropriado: “A briga do cachorro com a onça”. Em minha modesta opinião, entrará para os anais da história do cinema pátrio. Os pífanos e as cenas deixam a gente no maior suspense enquanto o matador branco e sudestino (Guilherme Leone) persegue o outro matador, nordestino e com cara bem brazuca (Kaiony Venâncio) que foge deixando um rastro de sangue pelo caminho (vou falar disso também). Hollywood ainda vai usar pífanos nordestinos nalguma trilha.
Está lá também, aquela gente que se vê deslumbradamente europeia — tal qual a personagem do empresário paulista, Girotti (Luciano Chirolli), magnata típico da nossa ditadura civil-militar, que se orgulha de seu sangue italiano e despreza pesquisas sofisticadas desenvolvidas numa universidade pernambucana. É ele quem contrata matadores para dar cabo do agente secreto. E antes que algum paulista se aborreça, Kleber até poderia incluir na história alguém que se orgulhasse de ser “d´Orange”, como ouvi se identificarem certa vez, alguns jovens pernambucanos do andar de cima. Perguntei o que era ser “d´Orange” e me explicaram que descendiam de holandeses, de Nassau… Não muito diferente da viralatice do orgulhoso empresário ítalo-paulista.
Tudo é um grande carnaval de sangue. Nos dias de folia no qual a história do filme transcorre, ocorreram 91 mortes. Foi pouco, esse número vai crescer mais, prevê com macabra ironia o delegado do esquadrão da morte interpretado por Robério Diógenes.
O sangue, aliás, é o que permeia a história do começo ao fim. Vai do corpo esburacado de balas estendido no chão, disputado por cães, logo na abertura, passa por tiroteios e chega até o Banco de Sangue onde o menino Fernando (filho do agente secreto e também interpretado por Wagner Moura), trabalha como médico. Ficamos sabendo, no fim, que ele perdeu o pai assassinado a tiros, tratado por “terrorista” pelos jornais da época. O seu local de trabalho — no qual o sangue, desta vez, é tirado para dar vida — ocupa o antigo prédio do cinema em que assistiu ao sanguinolento Tubarão (1975) de Steven Spielberg, filme que o fascinava e, ao mesmo tempo, o apavorava na infância.
O simpático e jovem doutor não percebe o rio de sangue — derramado — por onde navegou sua vida. Sua história está submersa, esfumaçada pelo trauma. Foi a personagem da moça historiadora (Laura Lufési) quem lhe trouxe, anos depois, toda a saga do pai — que nós, que assistimos ao filme, sabíamos mais que o filho. Sudestina e graças aos laços de família (ou de sangue) que tem em Pernambuco, vem redimir a nós e a ele, Fernando, ao desenterrar o passado que, na história do filme, ia ser acobertado novamente. Muita memória esquecida, por vezes propositadamente esquecida, se banhou em sangue, como o mesmo Kleber Mendonça lembrou numa cena marcante de seu primeiro longa de ficção, O som ao redor (2013).
O Agente Secreto vai continuar a dar o que falar por aqui e no mundo. Por falar em trauma, o filme está cheio de camadas bem conectadas, não óbvias, provoca e fala para um Brasil que não quer olhar direito para si.
Eu ainda diria mais, mas a crônica tem que acabar.


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