Narrativa ecológica devolve protagonismo à Caatinga e relê Canudos no aniversário de 160 anos de Euclides da Cunha
A Guerra de Canudos, um dos episódios mais emblemáticos da história brasileira, ganha uma nova perspectiva literária em Era uma vez uma guerra na Caatinga (Editora Outra Margem), da escritora e educadora Fabiana Corrêa. Longe de ser uma adaptação direta de Os sertões, o livro constrói uma narrativa autônoma ambientada no universo criado por Euclides da Cunha, reposicionando o sertão e a Caatinga como agentes centrais da história.
O lançamento acontece no próximo dia 20 de janeiro, às 18h, na Casa Euclides da Cunha, em Cantagalo (RJ) — cidade natal de Euclides da Cunha, que completaria 160 anos em 2026. A escolha do local reforça o diálogo da obra com o legado do autor de Os sertões e com a permanência de Canudos como tema histórico, literário e político.
Em Era uma vez uma guerra na Caatinga, quem narra os acontecimentos é um personagem improvável: o calango Sertanejo, representante da fauna da Caatinga baiana. É através do olhar desse pequeno réptil que o leitor acompanha a trajetória de Antônio Conselheiro, tratado como “Peregrino”, a fundação do arraial de Belo Monte e o cotidiano de uma comunidade que buscava uma vida mais justa no coração do sertão.
A escolha do narrador não é casual. Segundo Fabiana Corrêa, o livro nasce de sua experiência como professora de Ciências e Biologia, área em que levou durante anos o tema de Canudos para a sala de aula. “Para substituir minha persona de professora contadora de histórias, escolhi um representante da fauna da Caatinga baiana, o calango Sertanejo, aquele que tudo ouviu, viu e tudo irá contar”, afirma a autora.
Um dos pontos mais potentes da narrativa é a forma que a Caatinga deixa de ser cenário e assume papel ativo nos conflitos. Em passagens decisivas, o bioma surge como aliado dos sertanejos, criando obstáculos naturais para o avanço das tropas oficiais e abrindo caminhos secretos para quem conhecia a terra. A natureza aparece, assim, como força viva, estratégica e política, um organismo em resistência.
Cada capítulo do livro é aberto e encerrado com trechos selecionados de Os sertões, criando uma ponte direta entre a escrita de Fabiana Corrêa e a linguagem densa de Euclides da Cunha. A autora faz questão de frisar que não se trata de uma reescrita do clássico. “Essa não é uma adaptação do texto original, mas uma história contada que conduzirá o leitor à leitura da obra do escritor em seu próprio tempo”, explica. O objetivo, segundo ela, é despertar o desejo pelo texto euclidiano, especialmente entre novos leitores.
Ilustrado por Arthur Abreu, o livro também propõe uma leitura ecológica de Canudos, alinhada à visão de Euclides da Cunha sobre a relação entre sociedade e meio ambiente. “Ele foi rigorosamente o primeiro intelectual brasileiro a externar preocupações ambientais de forma sistemática, fazendo da ecologia um tema político”, observa Fabiana.
Além de obra literária, Era uma vez uma guerra na Caatinga é o registro de uma metodologia pedagógica desenvolvida ao longo de anos de atuação em sala de aula. “É contar uma história que precisa ser lembrada sempre, contar para não esquecer”, resume a autora, ao destacar o caráter educativo e memorial do livro.
Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com especialização em Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Fundação Getulio Vargas, Fabiana Corrêa nasceu em Bom Jardim (RJ) e vive em Cordeiro, no interior do estado. Após mais de duas décadas dedicadas ao ensino e à coordenação de projetos ambientais, educacionais e culturais, passou a se dedicar integralmente à literatura a partir de 2015, com obras voltadas a crianças, jovens e adultos.
Ao reler Canudos pelo olhar da fauna e da ecologia, Era uma vez uma guerra na Caatinga amplia o alcance da obra euclidiana e reafirma a atualidade de seus temas (resistência, desigualdade, território e meio ambiente) em um Brasil que ainda convive com muitos dos dilemas narrados há mais de um século.
Adquira o livro “Era uma vez uma guerra na Caatinga” pelo site da editora Outra Margem:clica aquiFICHA TÉCNICA
Livro: “Era uma vez uma guerra na Caatinga”
Autora: Fabiana Corrêa
Número de páginas: 70
ISBN: 978-65-86997-42-2
Gênero: Ficção
Editora: Outra Margem
Ano: 2025
*A obra tem evento de lançamento marcado para dia 20 de janeiro, na cidade de Cantagalo (RJ), no dia e cidade onde nasceu Euclides da Cunha, que completaria 160 anos se estivesse vivo. O evento acontece às 18h, na Casa Euclides da Cunha.
*Fabiana Corrêa é graduada em Ciências Biológicas pela UERJ, com especialização em Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela FGV. Natural de Bom Jardim e residente em Cordeiro, no interior do Rio de Janeiro, atuou por mais de duas décadas como professora de Biologia e Ciências na rede particular de ensino, além de coordenar projetos nas áreas ambiental, educacional e cultural. A partir de 2015, passou a dedicar-se integralmente à literatura e às artes, publicando obras para crianças, jovens e adultos.


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