por Nely da Costa Barbosa |
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| Foto de Javardh na Unsplash |
O Anjo
Precisei me certificar incontáveis vezes, mas já não tinha mais dúvidas, era um anjo. Tinha cabelos e gestos de anjo e um olhar de anjo, que só via o que era bom e belo. Não tinha asas, nas costas, mas na imaginação, e nos levava junto nos seus voos.
Parecia um menino, a vida toda foi assim, imberbe, porque anjos não envelhecem; tinha pele dourada, porque gostam de se expor ao sol, e gostam das árvores, dos rios e do mar, porque são parte da natureza, são a própria natureza, transmuta-se em vento e de redemoinho vai varrendo a terra, limpando e limpa também nossos corações, já sentiram o sopro? É como um sussurro, que vai tirando as mágoas, assoprando as tristezas pra longe. Dá uma vontade de dançar e de correr sem rumo. Não tem nenhuma explicação, se a gente não acredita nos anjos, não faz nenhum sentido, mas a gente corre e dança, do mesmo jeito, mesmo sem entender nada.
Eu já toquei em um anjo, ele tinha barba e cabelos longos, corpo esguio, que lhe permitia entrar por debaixo das portas, pelas frestas das janelas e tocar nosso rosto enquanto a gente dormia. Por isso às vezes a gente já acorda feliz e nem sabe o porquê. É o anjo, que espera, espera e depois que a gente adormece vem cantar esperança no pé do ouvido.
Espero que eles acampem entre nós e nos façam entender o sentido dessa vida, que é, penso eu, assoprar tudo que é bom de se viver. Pois um dia, um anjo me beijou nos olhos, como se fosse poesia.
Nely da Costa Barbosa, nasceu em agosto de 1969 em Recife–PE, graduada em História pela Universidade Católica de Pernambuco, estudou música na Universidade Federal de Pernambuco e no Conservatório Pernambucano de música. Atualmente desenvolve pesquisa na área de cinema, mais especificamente sobre o trabalho do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante. É apaixonada pelos livros e toda forma de arte. Começou a se aventurar na escrita ainda muito jovem, mas só agora decidiu compartilhar suas experiências com o público, acreditando estar vivendo um momento mais prolífico e mais tranquilo para se dedicar a essa arte.


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