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Poemas de Marcelo Benini

 por Marcelo Benini |


Foto de SERHAT TUĞ

A visão iletrada 


Leio meu país

Com a visão iletrada

E o sorriso envergonhado

Faltando dentes


O país onde só as solidões

Grandes podem existir 


A dos meninos 

Das estatísticas

E a das fronteiras

Distantes  

Em territórios vazios

De país


Leio meu país 

Com o coração dos que

Nada sabem

Trancados neste lugar

Imaginário 


De montanhas para baixo

E cidades desabitadas 


Na posta-restante dos extravios humanos

Nasci neste país

Imenso e imerso

Em mim.



Antes...


Antes do antes somos bloco de pedra

Se nascemos, àquele que detém o cinzel nos destinamos

Aos pequenos golpes diários: contratos, telefonemas, juros

Antes pedra, antiguidade e templo, agora forma e obra

A ausência de virtude do escultor nos enfeia

De narizes, bocas e olheiras fundas 

Presos em reter um dia a pedra que fomos 

Em salas fechadas ao público

Aguardamos a retrospectiva dos artistas menores.



Assentamento


Com o tempo meus pensamentos criaram raízes

Porém ainda meus olhos eram livres

Até que meus olhos criaram raízes


Minha boca dizia coisas

Até que as palavras criaram raízes


Meus braços balançavam no vento

Minhas mãos remexiam uns cabelos bonitos e negros

Minhas mãos criaram raízes


Minhas pernas partiam 

Nem bem amanhecia e minhas pernas partiam 

Até criarem raízes.


A bruxa dos pequenos papéis


A bruxa dos pequenos papéis

Dará destino às anotações 

De números de telefones que

Já não se sabe a quem pertencem

Receberá os guardanapos untados

Por bocas e poemas  

As folhinhas de parede no primeiro dia do ano

Seguinte 

E todas as folhas amassadas

Porque cada folha amassada

É um pequeno papel mal vivido 

Que retém em si a reminiscência 

Da mão que a aperta

A bruxa dos pequenos papéis

Zela para que todos os pequenos papéis

Sejam guardados 

Para um dia queimá-los ou 

Redimi-los de um esquecimento 

Injusto.  


Prorrompimento da poesia


Todo calendário venta em maio

Todo vento existe até que as coisas caiam 

Uma jarra é um vento no chão  

Todo dicionário é museu de palavras  

O homem que lê dicionários visita

Os vestidos da palavra 

Mas palavra tem vestido

Pergunta alguém

Sim, palavra tem vaidade

De loja 

Só o poeta conhece a nudez da palavra

A palavra nua em brasas de dicionário

Um vento derruba a jarra 

Em maio. 


Casa do tempo


Um dia reparei que os passarinhos 

Bicavam minha casa e levavam embora pequenos 

Pedacinhos dela

Minha velhice e minha doença contemplam

Agora a ruína 

Nunca odiei os passarinhos

Odeio a ruína

Que não presta nem pra passarinho.



Fazenda de cacos (o tempo)


Andemos perdidos por esses campos de flores

Onde a pele roça as pétalas no caminho estreito

O semeador de cacos fez um bom trabalho aqui

Nós, os desfigurados, corremos livres pelas plantações

Pisamos as pontas lavradas pela chuva

A mulher velha se abaixa para colher um souvenir 

Em cada casa há um jarro com uma flor da fazenda

Belo mesmo é quando as gotas represam nas arestas

Onde o sol faz seu trabalho de secagem

E a plantação extensa ofusca os olhos

Miríades de pontas verdes, vermelhas, amarelas e azuis

Mar de coisas que já foram obra e adorno

Mas que na próspera fazenda agora semeadas

Aguardam a colheita diária dos cacos.



Flores de Kafka


As cores sequestradas 

Mistificadas em jardins 

Ciano, magenta, amarelo e preto

Adesivos, banners, catálogos, prospectos

Brindes, camisetas, painéis

Uniformes anunciam a impossibilidade

De não estar mais dentro daquelas cores

De viver além do azul ou do vermelho

De fugir da identidade

De jogar o corpo fora da escala.



A bailarina literata


A bailarina literata não se move

Os músicos tocam apreensivos 

Algumas tosses

E olhares inertes

Duas horas transcorreram 

Até os agradecimentos 

Poucos aplausos 

Poucas visitas ao camarim

Ninguém percebeu

A beleza daquele Romeu e Julieta

Dentro dela.



Terra sem males


Todas as palavras rudes 

Formam as montanhas que foi um dia

Minas Gerais


Toda máquina renasce 

No contingente ser das máquinas


Todo o embaraço humano 

Ignorado pelos gatos  

Todo vazio entre átomos 

Tudo que se rompeu 

Fios, barragens, amores

Tratados


Restos de construções gramaticais

Anais das instituições

A promessa de vir e não vir 


Vidas em corpos arrestados

Presos a esse imenso vazio

Que desmatamos

As cidades são pastos cinzas

Sem onças


Apanha-se a vida no chão 

Até que haja o consenso de que todo pasto

É cinza 


Fica mesmo é um mato

Um imenso

De precários rebocos.



Amantes


Nossa infâmia começa cedo

A luz devassa,

A cama bisbilhotada


Os corpos esquartejados

De ontem 


Precisamos nos remontar

Já é dia. 



A revolucionária


De suas bochechas sadias

Rangem exércitos de dentes combalidos

E sorrisos em saraivadas 

A revolucionária rósea e drogada


Quando ela caminha aos bordos 

Treme o mundo

Em rimas soantes e toantes

Como um céu de nuvens carregadas 


Empunha um copo revolucionário

Um Sartre mate entre as coxas

Entre Bovary e Beauvoir 

Proclama a próxima rodada


A revolucionária embriagada 

Adormece sobre a mesa 

Com suas ideias ensarilhadas


Camarada, camarada. 



Funcionária pública


Ninguém entendeu quando a moça da seção

Começou o concerto para piano número 3, de Prokofiev 

No meio da tarde só ela ouvia clarinetes e violinos

Batia os dedos violentamente no teclado

Tremulando a melodia nos lábios

E jogando os cabelos no ar

As cortinas esvoaçavam na janela

Não houve pausa para o café

No dia seguinte os processos publicados no D.O.U.

Estavam todos em russo

E a moça digitava feliz uma carta de amor.



Retrato com abelha no cabelo


Escrevo o lado oposto de quem me lê

Nunca pensei ser compreendido

Senão por passarinhos e sagüis 

As frutas me ajudaram mais que os

Dicionários de verbos e regimes  

E as gramáticas

As palavras com as quais me importo

Ciscam 

O vento que escrevo está nas folhas

Dos buritis

Só faço versos que têm sopro

No coração.  



Lida 


No grotão de ser sozinho

Perdi a linguagem

Arredei para o lado dos bois

Mata ensimesmada 

Abrigo de lâmpada esmorecendo

Guarda de ruídos e palavras dispersas

Sobram as sombras, murmurejam os muros

Gado bravo em cerca velha

Dia tirado dos mateiros

Tear, garimpo, ordenha

O tedioso ofício dos dias

Carcaças de poemas

A um copo de cachaça me empurras

À essa imagem existência 

Torrão que é semente e pasto

E uma pontada nos rins.



Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases, Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na antologia Wir sind bereit publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília/DF.