por Luiz Henrique Gurgel |
O dia em que encontrei um cara que tocava com Pixinguinha
Tanta coisa terrível acontecendo — Trump, o cão Orelha, Gaza, Banco Master, Irã, etc, etc — que deu vontade de escrever sobre algo diferente. Vou falar de um músico. Acho que ninguém vive sem música na Terra. Lembro só de João Cabral de Melo Neto. Quem imaginaria isso de um dos maiores poetas da língua portuguesa? Ao que consta, ele só abria exceção para o frevo e o flamenco. Já a música melódica, dizia, dava sono. E olha que a MPB bebeu muito na poesia do pernambucano, basta lembrar o que Chico Buarque fez com Morte e Vida Severina ou Belchior com seu A Palo Seco inspirado no poema de mesmo nome.
Já virou clichê o dito famoso de Nietzsche: “A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. Ao contrário de João Cabral, para o alemão, só a música era capaz de fazer sentir três coisas: elevação, luz profunda e quente e a felicidade da suprema coerência. Só não sei se Nietzsche gostava de música popular, ainda mais alemã.
Essa abertura meio grandiloquente foi só para falar, enfim, de uma das figuras mais incríveis da nossa música: Zé da Velha! Sim, apenas isso, Zé-da-Velha, ou José Alberto Rodrigues Matos, o sergipano carioca que fazia dançar os galhos do arvoredo com seu trombone, um dos maiores do samba e do choro em todos os tempos. Ele partiu deste mundo em 26 de dezembro passado e agora, um mês depois, bateu saudade e fiz questão de lembrar dele. Simplesmente começou a tocar profissionalmente com um sujeito que é meio o resumo da música popular brasileira, além de padroeiro dela: São Pixinguinha (1897 – 1973), venerável que morreu numa sacristia de igreja, quinze dias antes do Carnaval (qualquer dia conto essa história).
Certa ocasião, tive a chance de zanzar por Olaria, Bonsucesso e Ramos, antigos subúrbios do Rio de Janeiro, em companhia dele. Ele já era um senhor, quase octogenário. Não era músico de encher estádios de futebol, mas de abarrotar gafieiras, distribuindo alegria, beleza e swing. Era genial. Acho que sempre foi discreto, menos quando tocava seu instrumento.
Para quem já andou fuçando profissionalmente a história da música brasileira, o encontro daquela vez foi quase como uma ida à Meca, Jerusalém, Roma, Salvador, conhecer alguém que tenha convivido com profetas. Afinal, era ali em Olaria, do outro lado da estrada de ferro, que também viveu Pixinguinha, com quem Zé havia tocado no lendário conjunto “Velha Guarda”, em meados dos anos de 1950. E isto significa que se não bastasse ter vivido e tocado com uma das santidades da música brasileira, ele ainda fez isso com outras duas deidades, pais do samba que a gente conhece hoje: Donga (1890 – 1974) e João da Baiana (1887 – 1974). Sem falar em Jacob do Bandolim (1918 – 1969) e Waldir Azevedo (1923 – 1980).
Naquele dia, logo que ele entrou no carro para irmos almoçar no mercado municipal de Benfica e depois passear pelos bairros daquela região, eu fui me beliscando em pensamento: “Esse cara tocou e conviveu com aquelas figuras! Sabe o que é isso, Luiz Henrique?”.
Outros dois chegados testemunharam isso tudo e foram responsáveis pelo meu encontro com Zé. O produtor Izidio Souza, e outro sujeito que também conheci naquele dia, “monstro” do trompete, grande amigo e parceiro de Zé, Silvério Pontes. Eles formaram por décadas a menor big band do mundo, a dupla “Zé da Velha e Silvério Pontes”.
Silvério era o motorista naquela tarde. Fomos à casa onde morou Pixinguinha, ao bar de esquina que frequentava e onde puseram sua estátua, sentado e sorridente, numa mesa típica de botequim.
Zé da Velha falava pouco, desconfiado e tímido, soltou uma ou outra história dos velhos tempos, das casas de gafieira, do mundo do samba e do choro. Na hora de levá-lo para casa não tive dúvidas, fiz uma selfie com ele. Não bastava o autógrafo nos CDs que ele gravou com Silvério e que levei comigo para esse encontro. Logo depois que me deram o livro com a trajetória da dupla, peguei o celular e fiz a foto, tosca, simples, luz ruim, mas que fica sacramente guardada aqui comigo. Daquelas lembranças do tipo “estive em Olaria com Zé da Velha e respirei quase o mesmo ar que Pixinguinha, João da Baiana e Donga respiraram”.
O bom nesses tempos de hipertexto é que dá para colocar link com uma apresentação do Zé da Velha para se ter a dimensão do sujeito. Escolhi uma apresentação primorosa de Zé e Silvério com outro mago, Paulo Moura. Dê uma olhada e depois diga se não pegou alguém para sair dançando aí no meio da sua sala.


Redes Sociais