por Taciana Oliveira |
Ricardo Bernhard investiga o colapso da convivência em novo romance existencial
No romance Encomendaram um plano, o escritor e diplomata carioca Ricardo Bernhard desloca sua ficção para um território de tensão psicológica e estranhamento, explorando os limites da convivência humana quando as regras do mundo parecem suspensas. Publicado pela editora 7Letras, o livro acompanha um experimento narrativo claustrofóbico em que oito personagens são confinados em um palácio e convocados por uma entidade enigmática, conhecida apenas como Presidência, a cumprir uma missão tão simples quanto perturbadora: elaborar um plano de reconciliação entre dois vizinhos que se odeiam.
O ponto de partida desencadeia uma imersão nas dinâmicas do poder, da violência e da solidariedade. À medida que os dias avançam e os conflitos individuais vêm à tona, o espaço fechado se converte em um laboratório das reações humanas, onde alianças se formam, rivalidades se acirram e delírios ganham corpo. “Num espaço fechado, com direcionamentos mínimos, o que prevalece é a essência das relações”, observa o autor, interessado menos na solução da tarefa do que nos efeitos psicológicos provocados pelo confinamento.
A orelha do livro, assinada pelo escritor e editor João Lucas Dusi, destaca o rigor formal da obra e seu diálogo com a tradição existencialista: “Nada é gratuito. Existe um equilíbrio meticuloso na hora de construir a aura da narrativa, muito afeita à melancolia, aos não ditos e à violência — que cresce vertiginosamente conforme dramas pessoais são revelados”. A referência à peça Entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre, não é casual: assim como no clássico do teatro, o outro surge como espelho e ameaça, e a convivência se torna campo de embate contínuo. Encomendaram um plano transita entre o absurdo e o existencial sem perder de vista o comentário social. O palácio, com suas regras invisíveis e sua lógica opaca, funciona como uma metáfora distorcida da vida comum, espaço onde a fragilidade das convenções se revela e a identidade de cada personagem é tensionada pelo olhar alheio.
Quarto romance de Ricardo Bernhard, a obra marca uma guinada estética em relação aos livros anteriores, mais próximos do realismo. Autor de Litoral Noir (2021), Os Vilelas (2022) e Um caminho particular do futuro (2024), o escritor assume aqui a influência do absurdo como estratégia narrativa. “Ao exagerar, o absurdo ilumina.
Ao distorcer, revela”, afirma. Ecos de Kafka, Beckett e Campos de Carvalho atravessam o romance, ao lado de referências contemporâneas que dialogam com o insólito e a especulação. É a partir dessa virada formal e temática que se desenvolve a conversa a seguir, realizada pela Mirada:
1.Encomendaram um plano se passa quase inteiramente em um espaço fechado, onde oito personagens são obrigados a conviver. O que te interessava investigar sobre as relações humanas a partir dessa situação de confinamento?
O confinamento me interessava como certo mecanismo de revelação. Quando se elimina a possibilidade de fuga (seja física, social ou simbólica), as relações deixam de ser reguladas por convenções externas e passam a operar quase em estado bruto. No palácio, não há plateia, não há reputação a preservar fora daquele microcosmo. Isso leva disputas de poder, alianças, ressentimentos e desejos de cooperação a aparecerem de maneira mais nítida e, muitas vezes, desconfortável.
Além disso, penso que o confinamento produz uma espécie de hiperconsciência do outro. Os personagens se veem o tempo todo, nos momentos mais banais e nos mais íntimos, e isso corrói a imagem idealizada que cada um carrega dos demais — e de si. O livro, nesse sentido, dramatiza o que sucede quando a convivência deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição incontornável.
2. A missão que move a narrativa — reconciliar dois vizinhos em conflito — é simples, mas gera reações extremas. Por que partir de uma tarefa aparentemente banal para desencadear um colapso coletivo?
Creio que as tarefas aparentemente banais podem se tornar as mais árduas, ou mesmo cruéis, quando levadas a sério. A encomenda não é heroica, não envolve um grande mal a ser derrotado, não oferece nenhuma glória simbólica. Trata-se, “apenas”, de fazer duas pessoas conviverem em harmonia. E esse se revela precisamente o problema.
O que me interessava era explorar como, diante de uma missão vaga e moralmente carregada, os personagens projetam nela as suas próprias frustrações, ambições e neuroses. A tarefa parece simples demais para justificar o aparato que os cerca (o palácio, a falta de contato com o mundo exterior), e essa desproporção gera desconfiança, paranoia e, em certo momento, colapso. A banalidade da missão acaba se refletindo na própria dinâmica do grupo, em que conflitos desproporcionais emergem justamente de impasses mínimos e desacordos triviais.
3. O livro dialoga com o existencialismo e com a ideia de que o “outro” pode ser fonte de conflito permanente. Como essas referências influenciaram a construção dos personagens e da dinâmica entre eles?
Acredito que, no romance, o existencialismo aparece menos como um conjunto de teses e mais como uma atmosfera moral. A convivência forçada coloca cada personagem diante do olhar do outro de forma inescapável. Não há como se esconder atrás de papéis sociais, nem como escapar da responsabilidade pelos próprios gestos, omissões e reações.
Nesse sentido, a noção de que “o inferno são os outros” me interessava menos como slogan do que como um problema: até que ponto o outro é realmente o inferno, e até que ponto apenas expõe fissuras já existentes? Os personagens não são arquétipos filosóficos; eles têm profissões, vaidades, inseguranças muito concretas. E penso que é justamente esse lastro realista que torna o conflito existencial mais agudo: ninguém parece preparado para sustentar uma convivência intensa sem os anteparos do cotidiano.
4. Seus romances anteriores se aproximam mais do realismo, enquanto este investe no absurdo e no insólito. O que motivou essa mudança de registro em Encomendaram um plano?
Entendo que a mudança de registro decorreu da própria matéria do livro. Ao conceber um romance sobre convivência, trabalho em grupo e expectativas difusas de autoridade, percebi que o realismo tradicional acabaria domesticando situações que, na experiência subjetiva, são tudo menos realistas. O absurdo me permitiu exagerar alguns traços do mundo para torná-lo mais fiel àquilo que sentimos, e não apenas ao que reconhecemos como verossímil.
Creio que o insólito, no romance, não é uma fuga do real, mas uma forma de intensificação. Ao suprimir certos pontos de apoio (explicações claras, causalidades evidentes, hierarquias estáveis), o romance expõe mecanismos que, no cotidiano, costumam ficar encobertos. Nesse sentido, foi uma guinada consciente, orgânica: o livro, de certa maneira, exigiu esse registro.
5. Mesmo tratando de isolamento, violência e fragilidade, o livro mantém humor e ironia. Como foi encontrar esse equilíbrio entre tensão psicológica e leveza narrativa?
Acredito que o humor aparece como uma estratégia de sobrevivência, tanto dos personagens quanto da própria narrativa. Em situações de tensão prolongada, o riso se transforma, em diferentes momentos, em alívio, em sintoma de esgotamento, ou numa forma oblíqua de lidar com o insuportável. A ironia no livro se alimenta desse jogo entre lucidez e desconcerto.
Além disso, creio que a leveza (ou algo que se pareça com leveza) funciona como um convite ao leitor, sem diluir o conflito. Pois o humor, quando surge, não resolve nada: apenas ilumina, por contraste, o grau de desajuste em que aquelas pessoas se encontram.
FICHA TÉCNICA
Livro: Encomendaram um plano
Autor: Ricardo Bernhard
Rede social do autor: clica aqui
Número de páginas: 256
ISBN: 978-65-5905-927-0
Gênero: Romance
Editora: 7Letras
Ano: 2025
Adquira no site da editora: clica aqui
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.

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