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A Aposta | Dias Campos

por Dias Campos | 


 

Foto de Junior REIS na Unsplash

A APOSTA.


Já fazia um bom tempo que Roberto não ia dormir tão satisfeito. E três foram os motivos que contribuíram para essa sensação. Na manhã de sexta-feira, sua namorada adorou o convite para passarem o próximo feriado em um chalé na montanha; na hora do almoço, assinou um contrato de representação jurídica com uma multinacional para atuar em todo o território nacional; e à noite, ligou para os seus melhores amigos, um delegado de polícia e um promotor de justiça, a fim de relembrá-los da aposta que firmaram há um ano, e cujo prazo terminaria no dia seguinte. — “Ainda está para nascer quem me pregue uma peça”, jactanciava-se o advogado junto a seus contemporâneos de faculdade.

Sendo assim, mesmo que o sábado amanhecesse chuvoso, ele só o enxergaria ensolarado.

Mas o sol raiou absoluto. E como não houvesse nuvens, o azul do céu tornou-se ainda mais límpido, o que só fez aumentar o seu bem-estar.

Depois de fazer a toalete, e de tomar um lauto café, Roberto resolveu caminhar pelo bairro.

Mas esse estado de espírito começaria a abalar-se assim que ele alcançou o terceiro quarteirão...

Deparou-se com um cadeirante idoso que, de rosto súplice e sem ânimo, aguardava que deitassem esmolas na baciazinha de plástico apoiada sobre as pernas.

Roberto condoeu-se. E aproximou-se dele, e colocou uma nota de vinte Reais.

A pessoa com deficiência ficou muito surpresa e agradeceu com um sorriso de extrema alegria. 

Mais adiante, topou com uma mulher de meia-idade que, sustentada por velhas muletas, pedia dinheiro aos motoristas que paravam no cruzamento.

Sem muito pensar, ele retirou outra nota — desta vez de dez Reais — e a ofereceu à pobre senhora, que agradeceu com um sorriso envergonhado e a guardou com ligeireza. 

Depois de dois quarteirões, Roberto avistou um cego maltrapilho que também vivia da caridade alheia.

Preferindo moedas às notas, o bom cidadão pôs as esmolas dentro da caneca de metal que ele sacudia. E como fizessem barulho, o cego agradeceu com um leve sorriso e um “Deus te dê em dobro”.  

Com efeito, o bom ânimo do início do passeio diminuíra vertiginosamente. 

Mas Roberto não desistiu da caminhada, pois seguiria em direção à casa onde moravam sua namorada e os futuros sogros. De lá, os casais sairiam para almoçar em um restaurante.

O dia passava ligeiro, como acontece às horas felizes. Por isso, o enamorado até se esqueceu dos coitados que o entristeceram.

Mas como tudo o que é bom tem um fim, era preciso voltar para casa.

Pois bastou pisar na calçada para que a lembrança daquelas criaturas ressurgisse. E perguntou-se se ainda estariam no mesmo lugar, esmolando. 

Roberto andava a passos lentos, pensativo.

Ao se aproximar do quarteirão onde vira o cego pela manhã, e um dos achismos confirmou-se. Lá estava ele, parado, apoiado na bengala, contrito de frio, e esperando quem lhe desse moedas.

De repente, porém, notou que uma Kombi parava próxima ao pedinte.

O cego, então, virou o rosto para a direita… depois para a esquerda… E guardou os óculos escuros, e entrou na Kombi.

O fulano nunca fora cego. Era um vigarista!

Roberto ficou chocado. E teve vontade de correr até a Kombi e de falar umas verdades ao pilantra. 

Mas mudou de ideia, pois não conseguia ver se dentro do veículo haveria alguém mais forte, ou armado.

Sua revolta, no entanto, só aumentaria. É que a Kombi ainda receberia mais dois passageiros… 

A mulher de meia-idade e o idoso chegaram em seguida. Este, empurrando a cadeira de rodas; e aquela, segurando as muletas, uma em cada mão.

Roberto estava boquiaberto!

E a Kombi acelerou, e sumiu noite adentro.

O enganado ficou alguns minutos estático, tentando ordenar os pensamentos, que revoluteavam sem parar.

Depois de algum tempo, o frio e o medo de assaltos reconduziram-no à realidade. E ele seguiu apressado rumo ao lar.

Não que fosse alienado e ignorasse a existência dos mendigos de profissão. Ele mesmo já vira mais de um falando ao celular.

Mas as cenas que presenciou revelavam uma esperteza extrema, imprimindo um status empresarial à mendicância, com diversificação de tarefas, transporte de funcionários, rígida carga horária e repartição dos lucros.

Por tudo isso, decidiu desmascarar aquela gangue. 

Como era provável que os golpistas continuariam labutando no dia seguinte, Roberto iria filmá-los mendigando e no momento em que a Kombi os recolhesse. Depois, entregaria pessoalmente a filmagem para os seus velhos camaradas, o delegado e o promotor, que, por certo, adorariam colocá-los atrás das grades.

Mas como a filmagem só aconteceria no dia seguinte, à noite, achou melhor denunciar o golpe desde já. Assim, muitos outros não seriam prejudicados. 

E postou o que descobriu nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp de que fazia parte.

Em que pese ter dado início à justiça, o que o alegrava, Roberto foi dormir bastante irrequieto. Pudera! A raiva teimava, permeando as suas entranhas. 

Mas como os retornos sobre as safadezas que denunciou começaram a pipocar no celular, esses feedbacks acabaram por reconfortá-lo, e isso o ajudou a dormir.

No domingo, Roberto decidiu ouvir missa. Era como se buscasse uma confirmação celeste sobre a sua intenção de desmascarar aqueles embusteiros.

Chegou bem na hora em que o padre iniciava a pregação — “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem.”

O recado, contudo, não conseguiu enraizar-se no coração do devoto. 

E ele abandonou a celebração antes da bênção final.

Como o almoço seria macarronada no sobrado da nonna, e como não ficaria bem entrar na igreja carregando uma garrafa de vinho, Roberto teve que buscar em sua casa o tinto que separara.

Mas assim que apanhou a garrafa, a campainha soou estridente.

Ao abrir a porta, quase teve um enfarte, pois reconheceu aqueles mesmos três farsantes que o enganaram no dia anterior.

E foi o cadeirante quem primeiro falou, pedindo esmolas em nome de todos os santos e sendo seguido, em gestos e sorrisos, pela senhora de muletas e pelo cego.

Roberto sentiu o sangue ferver. Depois de ter sido feito de trouxa, os salafrários ainda tiveram a pachorra de irem até a sua casa para pedir mais dinheiro! Era muita desfaçatez!

Pois com o dedo em riste, ele descarregou um rosário de impropérios; e tão cabeludos, que até o cego levantou as sobrancelhas e afastou os óculos.

Prosseguiu dizendo que já avisara uma infinidade de pessoas sobre a fraude que praticavam, bem como o lugar onde estavam atuando, e que se não sumissem para sempre, por certo a polícia e o Ministério Público saberiam encontrá-los e os jogariam na cadeia.

Terminado o desafogo, e um silêncio se impôs… 

Súbito, os espertalhões caíram na risada.

De olhos arregalados, ele não acreditava no que presenciava. Os safados, ou eram completamente loucos, ou, os sujeitos mais abusados do planeta! 

Fosse como fosse, a afronta ultrapassara todos os limites possíveis, e ele já admitia enxotá-los dali sem se preocupar com futuros processos. 

Antes, porém, que partisse para essa opção, Roberto percebia gargalhadas que se superpunham àquelas risadas…

De repente, os seus ex-colegas de classe, o delegado e o promotor de justiça, surgiram radiantes por detrás dos malandros. Ambos queriam falar, mas não conseguiam parar de gargalhar. 

Desta vez, os olhos do pobre rapaz esbugalharam-se!

Como ficasse sem reação, as autoridades adiantaram-se e o encararam sorridentes e triunfantes.

E a lembrança da aposta despontou…

Ele ainda tentou esquivar-se, argumentando que só soubera da enganação no dia seguinte ao fato, o que o eximiria de qualquer responsabilidade.

Mas, por dois votos a um, a sua tese foi prontamente rechaçada.

Pois diante de tamanha criatividade, o derrotado não teve alternativa senão a de pagar o que apostaram aos vencedores — um serviço completo de rodízio, em uma famosa churrascaria —, repasto este de que também fizeram parte os três atores que seus amigos tinham contratado.




Dias Campos é autor do romance “As vidas do chanceler de ferro”, Lisboa: Chiado Editora; Colunista do Jornal ROL; do (atual) site Cultura & Cidadania; do Portal Show Vip; e do (atual) portal Pense! Numa notícia; autor de diversos textos literários; autor e coautor de livros e artigos jurídicos.