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Spectrophilia, de Shajara Néehilan Bensusan

por Taciana Oliveira |




Em Spectrophilia (Cultura e Barbárie Editora 2025), *Shajara Néehilan Bensusan apresenta uma obra que desafia classificações fáceis. Situado entre a literatura, o ensaio filosófico e a escrita experimental, o livro investiga as relações entre memória, morte, desejo e espectralidade, propondo uma leitura na qual o passado não é algo encerrado, mas uma presença que insiste em atravessar o presente. Elaborado a partir de fragmentos, vozes e cenas que se sobrepõem, Spectrophilia recusa a linearidade narrativa. O autor articula histórias de personagens marcados por perdas, envelhecimento, violência e exclusão, criando uma espécie de arquivo vivo onde lembrança e assombração se confundem. A morte, longe de ser tratada como ruptura definitiva, aparece como parte constitutiva da experiência humana, uma força que reorganiza afetos, corpos e modos de existir.

Um dos eixos centrais do livro é o luto, entendido não como processo de superação, mas como permanência. Os mortos continuam presentes, moldando gestos, desejos e memórias. Essa perspectiva atravessa o texto com delicadeza e rigor, deslocando a ideia tradicional de memória como reconstrução fiel do passado. Em Spectrophilia, recordar é um ato instável, corporal e político. A obra também se destaca por aproximar intimidade e crítica social. Ao abordar a violência contra corpos dissidentes, como no caso de Toninha, travesti assassinada, o livro amplia o alcance do luto individual para uma dimensão coletiva. Sem recorrer a discursos panfletários, Shajara evidencia como certos corpos são historicamente destinados ao esquecimento, à exclusão ou à morte precoce.

O espaço do asilo, recorrente na narrativa, funciona como metáfora. Ali, a velhice nasce território de exílio e também de resistência. Os idosos são apresentados como arquivos vivos, portadores de histórias que o mundo produtivo insiste em apagar. A escrita se transforma, assim, em gesto de escuta e preservação. Há ainda uma dimensão erótica fundamental no livro. O desejo se destaca como força que atravessa a vida e a morte, o corpo e a memória. Mesmo diante da perda, o erotismo persiste como vínculo, como forma de contato com aquilo que já não está, mas continua agindo.

Spectrophilia é uma obra que não busca oferecer respostas fáceis. Ao contrário, convida o leitor a habitar zonas de indeterminação entre presença e ausência, passado e presente, corpo e lembrança. Trata-se de um livro que provoca, inquieta e permanece, um diálogo entre literatura, filosofia e experiência contemporânea. Um dos aspectos mais complexos e instigantes da obra está na maneira como Shajara se deixa assombrar por figuras míticas e espectrais (Corina, Anhell69 e Nãna) para desenvolver uma escrita que opera em um tempo impreciso, deslocado das cronologias lineares. É nesse intervalo que emerge o conceito de Geschlecht, entendido não apenas como gênero, mas como um espectro ampliado que envolve geração, raça, espécie e entroncamentos históricos e corporais. O autor organiza esse campo em uma espécie de rondó em três atos, no qual vida e morte deixam de ser polos opostos para se tornarem experiências mutuamente implicadas. Nesse universo, a morte não aparece como fim ou interrupção, mas como dimensão constitutiva da vida. É bonita e fétida, erótica e amorosa, presença ambígua que contamina o cotidiano, os corpos e a memória. A espectralidade que atravessa o livro não é apenas simbólica ou metafórica: trata-se de uma força mais-que-material, que insiste, reaparece e produz efeitos mesmo depois da morte física. Em Spectrophilia, não é porque algo morreu que deixou de estar vivo.

Essa lógica se radicaliza quando o autor desloca o pensamento para Chungara (ex-América Latina), espaço onde Hilan é enterrada e, depois da vida, ritualizada. O gesto de “enterrar” e “rezar” se transforma em ato político: a árvore israelense que morre para fazer nascer a Palestina sintetiza uma disputa que não é apenas territorial, mas ontológica. O que está em jogo é um regime de vida e morte, um “regime florestal esquizo” que aponta para modos distintos de produzir pensamento, corpo e existência. Ao afirmar que a vida é política, e que a morte também o é, Shajara inscreve sua escrita em um campo de enfrentamento. Importa não apenas quem vive ou morre, mas como se nasce, como se morre e quem decide esses modos. A morte, assim, deixa de ser um destino naturalizado e passa a ser entendida como construção histórica, atravessada por violência, colonialidade e disputa simbólica.

Esse atravessamento reforça o caráter singular de Spectrophilia: um livro que não se limita à elaboração íntima do luto, mas que o expande para uma reflexão radical sobre corpo, memória, desejo e poder. Ao fundir mito, política e experiência sensível, Shajara Néehilan Bensusan entrega uma obra que desafia o leitor a repensar não apenas a relação com os mortos, mas também com os regimes de vida que sustentamos no presente.

Título: spectrophilia

Autor: shajara néehilan bensusan

192 páginas
Tamanho: 13x18cm
Preço: R$56,00
Editora: Cultura e Barbárie

ISBN: 978-65-87529-65-3
Imagem:  Raquel Nava. Série Polímeros Canibais 3, 2024

Orelha: Cecília Cavalieri


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*Shajara Néehilan Bensusan é professor associado no Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. Doutor pela University of Sussex, foi pesquisador e professor visitante nas seguintes instituições: University of Bristol, Université de Paris 8, University of Nottingham, New Mexico University, University of Madras at Chennai, Universidad Veracruzana de Xalapa, Louisiana State University, Universidad de Granada, Université Libre de Bruxelles. Publicou 66 artigos em revistas como Theoria, Acta Analytica, Philosophia, Croatian Journal of Philosophy, Analytica, Manuscrito, TransFormAção, Cosmos and History, Revista de Estudos Feministas, Epistemologia, Teorema, Discurso, Artemis, Process Studies, Kriterion, Speculations e Das Questões (que edita). Publicou Spectrophilia (Cultura e Barbárie 2025), Memory Assemblages (Bloomsbury, 2024), História Sul-Americana da Imortalidade (Cultura e Barbárie, 2024), Indexicalism (Edinburgh University Press, 2021), A moral do começo (Fi, 2019), A diáspora da agência (com Jadson Alves, EdUFBA, 2018), Linhas de Animismo Futuro (Mil Folhas, 2017), Being Up For Grabs (Open Humanities, 2016), Heráclito: Exercícios de Anarqueologia (com Luciana Ferreira e Leonel Antunes, Ideias e Letras, 2012) e Excessos e exceções (Ideias e Letras, 2008).







Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.