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Uma orientação | Valdocir Trevisan

 por Valdocir Trevisan |

Foto de Jr Korpa na Unsplash

Uma Orientação 


   Dizem que o fato ocorreu numa cidade pequena no norte do Brasil.

   Outros afirmam que foi no interior do Rio Grande do Sul. 

   Buenas, vamos ao estranho caso do querido senhor Adalberto.

   Seu Adalberto era conhecido de todos, simpático e como a cidade não era grande, todos se conheciam e gostavam dele.

   Porém, algo incomodava muito sua vida cotidiana simples em seus passos diários.

   Resolveu ir à delegacia local para uma… orientação…

   O inspetor que o atendeu estava atento e perguntou no que poderia ajudar.

  Seu Adalberto, confuso e já arrependido por estar naquele local, inicia suas lamúrias e angústias.

  Os reveses são estranhos, o inesperado pode empolgar, mas por vias deslocadas, assustar o desavisado.

   Adalberto, enfim, estava confuso.

   Na região, um grande fazendeiro, bilionário, parece viver como um “poderoso chefão”.

  Nosso amigo conta que alguns dias passados estava tomando um cafezinho na padaria central quando o poderoso senta em sua mesa, afinal na pequena cidade todos se conhecem.

   Uma padaria árida, escura e com paredes infelizes.

  O magnata tem um pacote e diz para seu Adalberto que dentro, tem uma arma linda para mostrar. Nosso personagem afirma que não gosta de armas, nunca tocou numa, nunca deu um tiro em toda sua existência. 

   Dá um jeito de ir embora.

   O inspetor não está entendendo a visita do morador à delegacia.

   “O senhor inspetor, veja minha situação… não está percebendo minha preocupação?”

   O inspetor diz que… não…

   Seu Adalberto, cada vez mais apreensivo, com toda delicadeza, medindo as palavras, desabava, “veja bem, todos conhecem o poder do fazendeiro e, no fundo, temos medo e receio de suas influências. Ninguém duvida de que há algo de podre no reino da Dinamarca”. O senhor não concorda?

   “Não”, responde o nobre inspetor.

   Bom, nessas horas o arrependimento é total da visita do simples mortal seu Adalberto à polícia… ele queria, apenas, uma… orientação…

   Nervoso, comenta que acha que está assistindo muito filmes (adora a série “Lei e Ordem”) e tenta ser simpático ao estranho diálogo com o inspetor.

   Talvez sua preocupação seja “coisa de filme”.

   A verdade é que na região todos sentem a presença do poderoso chefão, seus aliciamentos, todos “sentem” o peso de suas palavras (com sua hipálage), seu poder, arrogância, enfim, deve haver podres, mas ninguém faz nada, ninguém sabe nada…

   O fato é que alguns dias depois da visita à delegacia com suas “denúncias vazias”, seu Adalberto teve uma morte estranha, muito estranha.

   E como a cidade era pequena, centenas de pessoas foram ao seu enterro.

   Inclusive o inspetor e o poderoso chefão…




Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)