Capítulo 02
Pedro e seu caderno de capa verde
O verde simboliza nossas matas.
Minha cidade foi fundada (ou foi aparecendo) no meio deste interior no Norte do Brasil num lugar cortado por um rio que vai seguindo o caminho dos ventos para a capital onde, como um suicida, se joga, gritando, no mar. O rio é barrento e na época de seca emagrece, deixando à mostra uma praia de areia grossa e criando um sem-número de pequenas ilhas logo se atapetando de vegetação e muito procuradas por pássaros, serpentes e jacarés para acasalar e construir seus ninhos. No tempo das chuvas o rio, agigantado, arrasta essas ilhas quando elas já se acreditavam eternas, e leva, guloso, tudo o que nelas, efêmeras, encontra: animais e homens, barcos, pontes e casas. Quem morre no rio são os da espécie dos corajosos, os que ousam enfrentar as águas violentas e traiçoeiras.
Os indígenas eram (há muitos séculos) os únicos donos das matas. Vieram os brancos, estabeleceram fazendas e mandaram trazer os negros d’África. Depois, as fazendas se arruinaram, a selva voltou a cobrir as plantações, os pretos fugiram e se ajuntaram em quilombos. Brancos, negros e indígenas brigavam e brigam entre si, e vão pelejar até o juízo final, embora se unam em sexo muitas vezes obtido à custa de ameaças e violência, e assim segue a vida em nossa cidade.
Brotou como uma pequena vila sem nome e sem dono. Pela localização (passagem dos interiores para a capital com seu porto) foi crescendo. Uma igrejinha de taipa, em seguida uma praça com casas em volta, um pequeno comércio, antigas trilhas de tempos imemoriais foram desabrochando em estradas de terra, depois um parador no meio do esqueleto de trilhos e dormentes de uma ferrovia.
Ao seguirmos desse interior de minha cidade para a direção norte, estamos no caminho para o mar e para a capital do nosso estado. No tempo do Brasil Colônia, com os escravos e o comércio do açúcar e do algodão, a capital enricou e hoje, por navio ou por avião, hoje podemos ir dela para todo o resto desse país imenso ou para as regiões da Europa, América e Ásia, basta ter dinheiro e coragem para viajar e ver coisas novas. Se para o oeste se chega às matas e florestas com árvores descomunais e o vapor pesado no ar e indígenas e seringueiros, para o leste a rota leva o viajante à aridez de sertões pedregosos com gado magro, mandacarus, pedras, igrejas e milagres, onde os rios são apenas fiapos de orvalho.
Meu nome é Pedro e sou o filho mais velho de três irmãos. Nasci nessa cidade, em um casarão na praça, de frente para a Igreja, e cujo terreno vai até o rio. A sólida moradia foi construída pelos avós ou bisavós de minha mãe, descendentes de portugueses vindos para o Brasil há muito muito tempo, por certo com mistura de sangue de indígena e de negro. O ascendente mais ilustre que tenho, meu tio-avô, esmolando, construiu a Igreja Matriz no lugar da capelinha de taipa. Bondoso, querido por todos, vida pura e dedicada ao bem, modelo de virtudes, recebeu de Sua Santidade o Papa a honra do título de Monsenhor e em breve, é nossa esperança, será canonizado pela Madre Igreja. Em outro caderno anotei os milagres feitos por ele em vida e depois de morto.
A família de meu pai é de imigrantes turcos, sírios ou libaneses; ao se estabelecer na capital trouxeram de sua origem a tradição do comércio e o gosto pela vida nômade e pelo arak leitoso e perfumado e as comidas apimentadas e com hortelã. Em outro caderno anotei as receitas mandadas por minha avó paterna para minha mãe, para que ela melhor prendesse meu pai em casa. Meu pai era caixeiro-viajante, conheceu minha mãe ainda menina em seus muitos percursos pelos interiores, matas e sertões, vilas e aldeias e, ao eleger minha mãe, adotou para sempre a cidade.
Mesmo nessa lonjura e nesse calor modorrento e cheio de mosquitos, de música de sanfonas e suores noturnos, não se sente falta de coisas de outras localidades maiores ou mais perto da capital. Uma prefeitura e uma câmara de vereadores, uma igreja católica com missas cantadas e cheiro de incenso. Um modesto templo evangélico com lâmpadas fluorescentes e uns poucos fiéis de roupas sem cor. Um posto de gasolina e um posto de saúde. Um grupo escolar e um campo de futebol. Um guichê dos telégrafos funciona na prefeitura. Sempre falam sobre a inauguração de agência do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica, mas isso é promessa de político, esquecida logo após a contagem dos votos.
Minha mãe se lembra de quando não havia eletricidade e se usava castiçais com velas e candeeiros e geladeiras de querosene; hoje tem, mas falta muito. Um projeto antigo de ampliar a estrada para a capital vai tornar o acesso melhor para os caminhões e possibilitar que a cidade receba mais viajantes em ônibus confortáveis. O trem faz sua parada antes de seguir para as terras do sul, e vice-versa, em uma estação minúscula, mas bem bonita, com grades de ferro, dizem, vindas de navio da Inglaterra. Às vezes chegam jornais atrasados e ficam à venda na farmácia. As principais festas são durante o meio do ano, as festas juninas, quando as praças se enchem de gente de longe, das tribos e dos quilombolas. As pessoas moram a vida toda em casas parecidas umas com as outras (mas alguns são endinheirados e muitos não possuem vintém, pela fachada da casa nunca dá para identificar, são todas semelhantes e todas muito limpinhas). Aqui, os moradores se conhecem, em um bar ou uma venda, perguntam logo “vai o de sempre?”, e você acaba sempre levando o de sempre.
Amo minha mãe, meus irmãos (sou o mais velho dos três) e minha avó. Rezo para que eles vivam para sempre, não sei o que farei se eles me faltarem. Tenho saudade de meu pai. Ele já nos deixou, mas está sempre presente em minha memória. Sou orgulhoso de ser sobrinho-neto de um santo. Moro em minha cidade e minha cidade mora em meu coração. Gosto do meu nome, Pedro. Gosto de ler, de aprender coisas novas e de escrever em meus cadernos.
Jozias Benedicto, maranhense radicado entre Brasil e Lisboa, construiu uma trajetória marcada por prêmios e pela interseção entre literatura e artes visuais. Formado em Tecnologia da Informação, atuou por quatro décadas antes de dedicar-se integralmente às artes após os 60 anos. Pós-graduado pela PUC-Rio, trabalhou como editor, curador e autor de textos críticos para exposições. Estreou na literatura em 2013 e já publicou nove livros, sendo reconhecido por prêmios como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, o Prêmio Moacyr Scliar, o Prêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e o Prêmio de Literatura do Estado do Pará. Jozias lança “As vontades do vento”, obra que mergulha nas entranhas de uma família envolta em segredos do clero, prostituição e herança escravocrata.


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