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A noite e a cidade | Poemas inéditos de Manoel T. R.-Leal (1967)

 por Manoel Tavares Rodrigues-Leal | 


Uma imagem com desenho, esboço, desenhos de criança, arte

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“Varanda” (c 1987) — Desenho a caneta de feltro e lápis de cera em papel cavalinho — 30cm x 20,5 cm — © Luís de Barreiros Tavares — Colecção do artista


A noite e a cidade | Poemas inéditos de Manoel T. R.-Leal (1967)


Explico uma cidade quando as luzes evoluem.
Quando é assaltada pelos gestos devotados.

(Herberto Helder)


Oito poemas inéditos do caderno A Noite (1967)

Nota prévia — O poeta contava entre os 25-26 anos quando escreveu estes poemas, em Lisboa, no Porto, mas também numa região de província (Souto de Lafões, onde se localizava um solar e uma propriedade da família, perto de Viseu). Alguns destes poemas reflectem de uma certa maneira um desconforto urbano (“urgência de outra cidade”). Talvez isto se deva a uma insatisfação relativamente ao clima social da época (“a menor liberdade”). Faltavam cerca de sete anos para o 25 de Abril de 74. Mas não deixa de haver um desfrute erótico onde se dá o corpo ao manifesto, digamos assim, usando uma expressão já desusada (“no corpo que invado”; “corpo que não retive / ao travo dos meus lábios”). Há também uma manifestação de liberdade (“continuo os gestos que escolho”) traduzindo uma certa busca urbana de sexo que o caracterizava (p. ex., revista Triplov).

O “poema extra” que seguirá por último é um poema que surge agora completo, e que se publicou num artigo anterior nesta revista (poema 3), mas que, por uma qualquer distracção da nossa responsabilidade, não foi publicado por inteiro.


*


1

comboio


centro da noite e periferia

e o trajecto isolado

tristeza circundante e com gente

retina fixada de mãos

silêncio visualizado sempre


(No comboio, em direcção ao Porto) — 1/7/967 — Souto de Lafões — 21/8/67


2

acto de silêncio


acto de silêncio no corpo

e ruas que percorro

corridas        corredores

enigma de linhas

retina na noite


Lx. 16/6/67 — Souto de Lafões — 20/8/67


3

porque outono qualificado

              ou nua humidade

       porque doendo as ruas

           e as paredes frentes

urgência de outra cidade


Porto — 1/7/967 — Souto de Lafões — título rasurado: “Porto”


4

o mesmo grito         a mesma cidade

o mesmo ódio       a menor liberdade 

superfície da noite

                         com vontade

e recusa


Porto — 2/7/967 — Souto de Lafões — 26/8/67  


5

corpo que não retive  

ao travo dos meus lábios

pois era limite

bastante dos dias ousados


Lx. 30/7/967


6

continuo

os gestos que escolho

no silêncio mais longínquo

na rua mais próxima

ou no corpo que invado e ignoro


Lx. 31/7/967


7

fulgor duma flor

a chegar à cidade

onde e quando for


Lx. 1/8/67 — caderno A Noite


8

na atmosfera 

              aterrando a tarde

(no café)

            a fome da antiguidade dos dias

nos dedos

                   um frasco de bílis


Lx 14/11/67


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Manuscrito do poema 2


Poema extra (ver nota prévia)


Não me esqueçais: para além do poema

há a lisa alma simples irredutível a um esquema.

E quando a harpa do poeta profanais,

lembrai seu olvido e apelo: ele será poeta

quando olhardes e pensardes na sabedoria de um poente.



Belas – 18-11-1976 – caderno Fragmentos de um livro dividido (anónimo do séc. XX). Poema escrito na Casa de Saúde do Senhor da Serra, em Belas, perto de Sintra. “Belas, casa de saúde mental; manicómio para gente fina; uma duquesa iria para ali.” (M. T. R.-Leal — 1976).

*Com o caderno A Noite (revista Athena). Com poemas sobre a cidade (revista Caliban). 

*Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares






Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.