por Taciana Oliveira |
Homens e Insetos, de Silvio Costta
“Em Homens e Insetos” (Laranja Original, 2025), Silvio Costta desenvolve um romance que problematiza as fronteiras entre o realismo social e o horror fantástico, elaborando uma narrativa no qual a miséria urbana se apresenta não apenas como condição histórica e política, mas como força deformadora, quase sobrenatural. Dividida em quatro partes de níveis não lineares (“Os meninos levitam”, “Segunda chance”, “Libélula” e “Primeira chance”), a obra aposta numa estrutura fragmentada para representar a descontinuidade da experiência periférica, atravessada por violência, abandono e desumanização.
A abertura do romance já estabelece o tom ambíguo e perturbador: uma velha cega encontra um bebê recém-nascido abandonado num jardim e o leva para casa, inaugurando aquilo que o texto chama de “o começo da história de um miserável esgoto de periferia construído pelos homens”. Desde esse primeiro movimento, Costta sugere que a tragédia social é inseparável de algo mais obscuro, como se a própria favela fosse um território onde o horror não é exceção, mas regra. O bebê, descrito como uma criatura de “pele líquida”, sem rosto definido, funciona como entidade simbólica e disruptiva. Sua presença desestabiliza tanto os aparelhos tecnológicos, rádios que entram em colapso, câmeras que queimam, quanto a percepção humana. A velha, ao tocá-lo, recupera a visão paradoxalmente: passa a enxergar “além das coisas”, atravessando paredes e percebendo o invisível. A cegueira, aqui, se converte em metáfora: somente quem já foi privado da visão pode acessar uma dimensão mais profunda da realidade, enquanto os demais permanecem anestesiados pela normalidade da violência cotidiana.
A narrativa torna-se ainda mais sombria quando meninos ladrões, habituados a roubar os rádios da velha, entram em contato com o fenômeno e passam a levitar, imagem que dá título à primeira parte e que condensa o gesto central do romance: a suspensão do real como modo de revelar a brutalidade estrutural. A periferia, nesse sentido, não é apenas cenário, mas organismo contaminado por forças que ultrapassam o humano. Na segunda parte, o foco recai sobre um investigador policial, cuja trajetória evidencia a corrupção como componente constitutivo das instituições. Ao investigar a morte de um garoto, ele se vê enredado numa rede de medo e submetido diante do chefe do tráfico, “O Coiso”, figura que encarna o horror cósmico em sua forma mais explícita. O encontro com essa entidade, escrito com olhos amarelos e vermelhos, cheiro nauseante e “sombra de asas”, rompe definitivamente qualquer possibilidade de leitura realista convencional. O crime organizado, aqui, se apresenta uma monstruosidade literal: o poder é inumano.
Essa mudança do tráfico para o monstruoso não funciona como escapismo, mas como radicalização simbólica: Costta sugere que a violência social é tão extrema que só pode ser narrada por meio do insuportável, do aberrante. Como sintetizar uma das passagens mais emblemáticas: “Disformar e transformar, a miséria específica”. A miséria, portanto, é estrangeira e íntima ao mesmo tempo, uma presença que invade, corrói e metamorfoseia corpos e destinos.
A terceira parte, “Libélula”, talvez seja a mais brutal do romance. Nela, a obra explícita o tema da desumanização absoluta: uma menina de 13 anos é oferecida pelo pai como pagamento de dívida ao tráfico. Libélula se torna mercadoria, corpo de troca, evidenciando a lógica perversa em que vidas periféricas são diminutas a objetos espaciais.O desfecho (o parto grotesco seguido da combustão interna da personagem) condensa a violência patriarcal e social numa imagem extrema, insuportável, mas profundamente reveladora.
O romance recusa qualquer conciliação. Não há redenção, apenas ciclos: “Quebrada é quebrada… insetos e nada mais”. A repetição insistente da metáfora dos insetos, formigas operárias, seres minúsculos e sociais, reforça a percepção de que os assuntos periféricos são tratados como vidas insignificantes na particularidade social. “Em Homens e Insetos”, o horror não vem de fora: ele emerge das estruturas. O fantástico não substitui o real, mas o intensifica. Ao fundir miséria e monstruosidade, Silvio Costta produz uma narrativa que incomoda justamente por revelar que, na periferia, o cotidiano já é apocalipse. Trata-se, assim, de um livro que mobiliza o horror cósmico como linguagem política, transformando a favela em espaço onde o social e o sobrenatural se confundem, e onde a violência histórica assume forma de entidade. Um livro duro, fragmentário e, por isso mesmo, necessário.
Homens e Insetos
Texto de Silvio Costta
Arte de Pedro Costta
140 páginas/ Editora Laranja Original
Primeiro capítulo disponível em: www.laranjaoriginal.com.br
conheça meus trabalhos em
silviocostta.com
@scostta
Silvio Costta é escritor, compositor, ator e professor, com atuação artística e educacional há mais de 30 anos. Formado em Jornalismo e licenciado em Filosofia, possui pós-graduação pela Unesp e especialização em psicanálise dos contos de fada. É professor da rede estadual, além de trabalhar com educação sonora e musical. Ator profissional e músico, lançou álbuns e singles independentes no Spotify. Autor de mais de 30 publicações, desenvolve projetos nas áreas infantil, juvenil e adulta, unindo literatura, pedagogia e arte.
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.



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