Popular

Obra do poeta da Primeira Guerra Mundial ganha edição inédita no Brasil


Obra do poeta da Primeira Guerra Mundial ganha edição inédita no Brasil


Pela primeira vez, o leitor brasileiro tem acesso a uma antologia dedicada ao poeta e soldado inglês Wilfred Owen, considerado o principal nome da poesia de guerra do século XX. O livro A velha mentira — poemas da Grande Guerra por Wilfred Owen chega ao país em tradução inédita, organizada e comentada pela historiadora e escritora manauara Clarissa Desterro. Publicada pela editora Caravana Grupo Editorial (176 págs.), a obra reúne trinta poemas do autor, acompanhados de capítulos de análise literária, uma breve biografia e contextualização histórica da Primeira Guerra Mundial.


Wilfred Owen


Wilfred Owen tornou-se referência incontornável da poesia moderna ao expor, em versos marcados por lirismo e indignação, o horror vivido nas trincheiras. Sua escrita desmonta os discursos de heroísmo e dever patriótico que sustentavam a propaganda belicista da época, revelando a guerra como experiência de sofrimento e desumanização. Nascido em 1893, na Inglaterra, Owen faleceu em combate aos 25 anos, poucos dias antes do armistício de 1918.Grande parte de sua produção poética foi escrita durante o período em que esteve hospitalizado na Escócia, após desenvolver Transtorno de Estresse Pós-Traumático, então conhecido como shell shock, em decorrência de ferimentos e traumas repetidos na linha de frente. Seus poemas transportam o leitor para o cenário brutal da guerra: os odores, os cadáveres, as metralhadoras e os gemidos dos soldados feridos. Trata-se de uma poesia visual, como destaca Clarissa em seus textos críticos presentes no volume.

Segundo a tradutora, a decisão de transformar Owen em projeto editorial veio da constatação de que não existia no Brasil uma tradução ampla de sua obra, apesar de sua importância no cânone internacional e de seu papel como precursor do modernismo. Para Clarissa, publicar esses poemas mais de cem anos depois é também uma forma de refletir sobre conflitos contemporâneos e sobre o impacto psicológico e cultural das narrativas de guerra.


“Meu tema é a Guerra, e a Lástima da Guerra. A poesia está na Lástima”, escreveu Owen, frase que guiou todo o trabalho de pesquisa e tradução. Clarissa afirma que sua prioridade foi preservar as imagens e a força da mensagem do poeta, cuja intenção era expor a futilidade e a tragédia da guerra contra qualquer idealização honrosa do combate.


Historiadora formada pela Universidade Federal do Estado do Amazonas, Clarissa Desterro desenvolveu sua pesquisa acadêmica sobre a Primeira Guerra Mundial, suas representações e suas consequências físicas e psicológicas para veteranos. Seu estudo investigou a interseção entre trauma, masculinidades, vícios e suas representações literárias. Esse repertório foi fundamental para compreender o vocabulário específico do período e traduzir termos técnicos e expressões próprias do universo militar.


Clarissa Desterro


Clarissa conheceu a poesia de Owen aos 16 anos e destaca também a influência decisiva de Siegfried Sassoon, poeta de guerra e mentor de Owen, que o incentivou durante a internação no hospital Craiglockhart. Após a morte precoce do autor, foi Sassoon quem viabilizou a publicação de seus poemas na década de 1930. Entre os projetos futuros da tradutora está a intenção de publicar a primeira tradução brasileira da peça clássica Journey’s End, de R. C. Sherriff, além de organizar novas antologias de poesia de guerra, incluindo outros poemas de Owen. Clarissa também atua como crítica literária e produtora de conteúdo cultural, colaborando com veículos como Jornal Nota, Real Time Um, Querido Clássico e Delirium Nerd, além de compartilhar reflexões sobre literatura e história em seu Instagram, @clarissadesterro


FICHA TÉCNICA

 

Título: A velha mentira — poemas da Grande Guerra

Autor: Wilfred Owen
Tradução e Organização: Clarissa Desterro

Capa e editoração eletrônica: Ayumi Shimamoto

Editora: Caravana Grupo Editorial

Gênero: poesia, poesia internacional

ISBN: 978-65-5223-667-8

Páginas: 176

Adquira no site da editora: clica aqui



Hino para a juventude condenada”, de Wilfred Owen, traduzido por Clarissa Desterro (página 109):



Quais serão os sinos fúnebres para estes que morrem como gado?

— Apenas a monstruosa fúria das armas.

Apenas o gaguejar apressado dos rifles

Pode elevar suas apressadas orações.

Nenhum fingimento por eles agora; nem orações, nem sinos;

Nem qualquer voz de luto, exceto os corais, —

Os estridentes, dementes corais de bombas chorosas;

E clarins que os chamam de seus tristes lares.



Que velas podem ser acesas para guiá-los?

Não nas mãos de meninos, mas em seus olhos

Brilhará o lampejo sagrado do adeus.

A palidez nas faces das moças serão suas mortalhas;

Suas flores, a ternura de mentes pacientes

E cada lento amanhecer, um fechar das cortinas.