por João Oliveira Melo |
Não temos outra terra, é por isso que sofremos por ela” — Testemunho de uma palestina expulsa de sua terra por colonos judeus e forçada a se abrigar em cavernas.
Sem Chão ( Lā arḍ ukhrá) é um documentário lançado, originalmente, em fevereiro de 2024 dirigido por quatro ativistas: Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham, e Rachel Szor. O longa-metragem foi vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2025 e acumulou mais de 60 prêmios, incluindo o Festival de Berlim (nas categorias público e melhor documentário), Gotham Awards e Spirit Awards. No centro da narrativa está a improvável amizade entre o jornalista e cineasta israelense Yuval Abraham e o ativista palestino Basel Adra, morador de Masafer Yatta, na Cisjordânia ocupada.
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A obra é um recorte da resistência dos moradores da vila palestina Masafer Yatta, que foram expulsos de suas terras pelo governo de Israel para transformar a região em uma zona militar de treinamento. A maioria das gravações foram realizadas por Basel Adra,que vivia na vila desde sua infância, Flmado ao longo de quatro anos, entre 2019 e 2023, o filme retrata os inúmeros casos de violência dos colonos, os protestos, a expulsão do povo palestino obrigado a morar em cavernas, o corte de água, a destruição de uma escola, entres outros tantos fatos perpetrados pelo apartheid promovido por Israel.
Produzido com recursos limitados e com apoio internacional, incluindo produção norueguesa e aportes do Sundance, a narrativa visual revela uma fotografia que privilegia o contraste entre a vastidão do deserto e a claustrofobia das cavernas onde famílias se abrigam após perderem suas casas. O longa aposta na força dos testemunhos diretos, no som das escavadeiras e no silêncio de quem já viu sua vida ruir por diversas vezes.
Um dos diretores do filme o palestino Hamdan Ballal, foi linchado por colonos israelenses e detido por militares das Forças de Defesa de Israel que atuam na Cisjordânia. Yuval Abraham criticou publicamente o silêncio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, que não se pronunciou em defesa do cineasta palestino. O ativista Odeh Hadalin, que participou do documentário, foi executado por um colono israelense. A narrativa documental traduz uma ambientação emocionalmente pesada, direta, “crua”, silenciosa, sem suavizar as atrocidades cometidas pela extrema direita israelense.
Esses episódios traduzem a urgência de um filme que não somente documenta, mas denuncia e humaniza uma realidade que, para muitos, permanece invisível.
Assista na plataforma de streaming Mubi.
João Oliveira Melo é natural de Recife. É aluno do oitavo período do Curso de Ciências Sociais (UFRPE)


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