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Deixa o pagode romântico soar | Luiz Henrique Gurgel

 por Luiz Henrique Gurgel |



Deixa o pagode romântico soar


Eu era criança, tinha uns seis anos, quando ouvi pela primeira vez Você Abusou. Era da trilha sonora de uma novela da Globo. Nem sei bem porque a canção me impactou, mas na manhã seguinte, quando fui comprar pão antes de ir à escola, saí cantarolando pelo caminho: “você abusou, tirou partido de mim, abusou...”.


Na volta para casa, agarrado ao saquinho com pão quente, a mão batucava nele, e eu continuava cantando "mas não faz mal, tão normal ter desamor, é tão cafona sofrer dor que eu já nem sei se é meninice ou cafonice o meu A A AMOR...”


Uma moça passou por mim espantada e rindo: "Que é isso, menino? Tá cedo ainda pra essas coisas!"


Ela não deve ter entendido.


Essa história veio porque sonhei, noite dessas, com Antônio Carlos e Jocafi, acordei com o samba na cabeça. No despertar, as imagens do sonho foram se recompondo devagar, como uma paisagem que se remonta por traz da névoa que dissipa.


Exagero. Não era um sonho tão idílico assim.


Nunca mais ouvi falar deles e por estranhos descaminhos da inconsciência, a dupla baiana me surge agora no devaneio. Na minha história, eu ia abrir um bar só para tocar samba das antigas, quando os dois apareceram cantando, violões em punho, se oferecendo para a inauguração.


A voz suplicante de Antônio Carlos me propondo uma temporada no bar era igual à da canção: “que me perdoem se eu insisto neste tema, mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o A A AMOR”. 


Não sei o quanto Freud explicaria essa minha fantasia, mas a imagem de amores passados começaram a rondar a rádio cabeça, mais ou menos como aquelas cenas de desenho animado em que a personagem depois de levar uma pancada vê passarinhos circulando pela testa.


Essa conversa de que amor romântico está fora de moda ainda não me convenceu. No fundo, de verdade, sempre esteve fora de moda, ainda que essa ilusão jamais tenha deixado de existir e agitar a vida. Na prática mesmo, só um bom contrato amoroso honestamente construído é que tem alguma chance de dar certo. Depois, de vez em quando, se coloca na relação uma pitada de romantismo para dar graça. Legal é a parceria, sentir-se parceiro e saber dançar o samba junto. Até Caetano Veloso, sempre muito romântico, recentemente se soltou noutra linda canção de amor: “deixa o pagode romântico soar, deixa o tempo seguir, mas quedemos aqui, deixa o galo cantar”.


Aquele menino do começo da história não devia ter muita ideia do que era essa sensação amorosa. Mesmo assim, seu entusiasmo com a canção fez ele dar uma volta a mais no quarteirão só para continuar a cantar e batucar no saco de pão quentinho.


Lembrei também do embaixador da Coréia do Sul, em Brasília, fascinado por pagode e que até se apresentou para o presidente Lula cantando Cheia de Manias, do Raça Negra.


É sempre bom falar dos sonhos e desejos do homem comum. No meu caso de um menino incomum. Onde já se viu cantar uma fossa dessas aos seis anos de idade e ainda prolongá-la até a meia idade?


Você abusou foi o primeiro grande sucesso de Antônio Carlos e Jocafi, logo no álbum de estreia da dupla, Mudei de Ideia (1971). Virou hit internacional depois da curiosa versão de um francês, Michel Fugain, “Fais Comme L’Oiseau”. Até Steve Wonder cantarolou "vucê ébusô..." ao lado de Gilberto Gil num Rock in Rio de 2011 com milhares de pessoas no coro. Foi ultrapassando fronteiras em versões e interpretações de artistas como Sivuca, Sérgio Mendes, além de Ella Fitzgerald, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, Toquinho, Maria Creuza, Maysa, Jorge Aragão, MPB-4, Pauline Croze, Daniela Mercury e Diogo Nogueira.


Mas o sujeito que sonhou tudo isso e que já passou dos 50 acordou feliz naquele dia com a possibilidade de Antonio Carlos e Jocafi inaugurarem o imaginário bar. Foi à padaria cantarolando alto desafinado e contente. Uma garotinha cruzou seu caminho, ela ia para a escola de mãos dadas com a mãe distraída, admirou-se com o falsete, deu risadinha discreta e irônica com mãozinha na boca e piscou para ele.


Que me perdoem os leitores, então, pelo quadradismo das minhas palavras que vão de encontro aos intelectos dos que não usam o coração como expressão. Mas não dá para ficar indiferente a um sambão dor-de-cotovelo desses.




Luiz Henrique Gurgel é jornalista, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é autor do livro de contos “amores malfadados” (Ed. Primata, 2020) e “Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias” (Caravana Editorial, 2023).