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Nga Yin | Valdocir Trevisan

 por Valdocir Trevisan |

 

    

Estátua de  Donald Trump e Jeffrey Epstein instalada no National Mall
    Nga Yin?

    O que é isso?

  Segundo George Orwell em “Dias na Birmânia”, tratava-se de um gigante adormecido que a população local acreditava estar enterrado sob a crosta terrestre, causando terremotos.

   Terremotos que abalam nossa psique ou uma alma doente.

   Terremotos…

   Nunca senti uma embaixo das pernas, mas deve ser assustador, muito assustador.

    Assustador, tal qual quando saí do cinema Coimbra, em Tramandaí, na década de 70, com meus nove ou dez anos, depois de assistir a Terremoto, com Charlton Heston: abalado, mas satisfeito por ter saboreado três Kibambas e dois “confeti”.

   Orwell desnuda o que outrora foi o imperialismo inglês na Índia e Birmânia no século XX, mas outro Terremoto chamado Trump lembra que os doentes por terras alheias não desaparecem em abalos sísmicos.

   Os micos são resilientes…

   Os “nga yin” podem ter formas humanas, ou melhor, desumanas.

   Mas não serão os terremotos que vão esmorecer os que sofrem. Já houve tempos piores e se hoje temos Trump, Malafaia, entre outros, já passamos por Hitler e Mussolini.

   Porém, nunca houve tamanha desesperança quanto após ver Cristo na cruz, quando Tiago e Pedro ainda tiveram forças para reunir o mesmo grupo que celebrara a Última Ceia e, como num terremoto celestial, acreditar em novos tempos.

   Ora, deve existir um Nga Yin divino…

   E, na busca de um equilíbrio essencial para não esmorecer diante da propagada angústia do filósofo Søren Kierkegaard, recorro a outro filósofo, Baruch de Espinosa, que dizia: “a esperança só é possível se houver um futuro incerto”.

   Eis a “graça” cotidiana, o sabor da dúvida, pois se eu tiver certeza de que o Imortal Grêmio vai ganhar todas, ora, eu e mais ninguém iríamos aos jogos.

   Vejam só, o sofrimento é necessário…

   Tá loko.!

   E não é que o Nga Yin tem que dar seus gritos para que seus terremotos despertem almas adormecidas?

   Para alertar esperanças

   Para motivar minha presença na Arena do Tricolor mais querido do Brasil.

   O Banquete de Sócrates me avisa, “vá ao jogo”, participe, só assim poderemos ser campeões do mundo. Se bem que Sócrates dizia que amamos o que não temos e o Grêmio já foi campeão do mundo.

   O Nyg Yin tricolor foi em Tóquio em 1983, um dos terremotos mais agradáveis que já vi.

   Tenho esperança que um dia voltaremos à paz mundial longe dos piores terremotos fabricados por Trumps e Malafaias.

   Esperança.

   Lembro que na década 90, quando morava em Porto Alegre, sempre discordava com um amigo sobre a essência, ou não, da esperança.

   Seu argumento era que a esperança corrobora com a alienação do indivíduo, o que de certa maneira pode ter suas sequelas, mas viver sem esperança, sem um Nyg Yin do “bem” seria impossível perceber que a alma derreteria o homem ridículo de Dostoiévski.

    Bom, aí o Terremoto afetaria de vez meus saborosos kibambas e confetis.



Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)