Popular

Quem Balança a jangada é a maré | Davison da Silva Souza

por Davison da Silva Souza |


Foto de Rafael Oliveira na Unsplash


Quem Balança a jangada é a maré 

Me chamo Maria Simôa da Conceição, sou uma negra-mulher, com pele escura como a noite, tenho estatura mediana. Às vezes uso um lenço na cabeça, por vezes deixo meus cachos soltos, balançando como as jangadas na sinfonia dos ventos vindos do mar. Sou uma livre-mulher, graças ao esforço coletivo dos meus companheiros e companheiras, em especial de meu marido, José. Minha idade não me recordo, mas sou nova o suficiente para ter meus mais velhos e mais velhas, e vivida o suficiente para ser chamada de Tia pela moçada que está sempre pela Praia do Peixe. 

Me localizo próximo ao Atlântico — o mais perto de casa —, mas necessariamente na “Terra da Luz”, nome esse dado por um tal de José do Patrocínio, jovem poeta, quando soube que o Ceará foi a primeira província a abolir a escravização de pessoas, ainda em 1884, quatro anos antes do restante do país. Mas, em meio a esse cenário mítico, muita coisa ficou na conta do esquecimento ou como vitória dessa gente branca que se acha sabida. Uma coisa que aprendi com meus ancestrais é que, diferente do papel, a memória não se rasga; podem tentar apagar, mas sempre fica um pouco, e é desse pouco que ainda me lembro que quero registrar, para além da oralidade. 

Há algum tempo, ainda em cativeiro, em meio à fome, às cargas de trabalho excessivas, frente às chicotadas e torturas, me pego refletindo sobre a memória. Algo tão essencial, mas ao mesmo tempo tão escorregadio. Que às vezes vem e às vezes se vai, como as ondas do mar, indo e vindo num ritmo que não pode ser ditado pelo ser humano. Afinal, memória e história são registros de poder; quem conta e onde conta pode mudar significados, acrescentar e até apagar o que achar necessário. E então, como forma de preservar nossa memória coletiva e contradizer o imaginário social de que no Ceará não tem negros e negras, resolvi tecer alguns parágrafos sobre a libertação do nosso povo. 

Toda história tem que começar por algum momento; a minha — que é nossa — escolhi começar por 1850, quando foi proibido comercializar pessoas negras no Brasil. No entanto, como a brancaiada sempre busca burlar qualquer medida que beneficia as pessoas de cor, essa lei favoreceu a circulação de uma prática — não tão nova assim — a venda de pessoas negras escravizadas para fazendas e engenhos do Sudeste e Sul do país, gerando assim uma migração interna, ou como dizem os senhôzin, um tal de tráfico interprovincial.

O Ceará sempre foi uma terra que abarcou muitos negros e negras, tanto é que algumas notícias, que corriam tão rápidas como jumentos nesse sertão, nos alertavam para fazendas, como, por exemplo, em Lavras da Mangabeira, com mais de 200 pessoas em cativeiro, dentre outras que existiam. Nesse contexto, Fortaleza, uma cidade de uma belezura imensurável, banhada pelas águas de Yemanjá e pelos ventos de Oyá, estava passando por um processo de modernização — do ponto de vista do homem branco — com a chegada da iluminação, clubes e da vinda da classe média para morar em diversas áreas da cidade. 

Em 1881, meu marido e eu, juntamente com algumas pessoas negras indignadas com a situação de nossos irmãos e irmãs, que ainda sofriam as amarguras do cativeiro, do açoite, da saudade de casa e da família, resolvemos nos mover rumo ao horizonte de uma mudança possível. Articulamos, na boca miúda, de um em um, de uma em uma, acreditando na conscientização do nosso povo e buscando gente disposta a lutar contra o sistema escravista que assolava nossa gente. Compramos algumas alforrias com o dinheiro que havíamos juntado com muito trabalho — foi justamente assim que José se libertou: fez um acordo com o sinhôzin e comprou primeiro sua alforria e depois a minha e a de nossos filhos. 

Conversando com nosso povo, falamos sobre a importância dos negros-jangadeiros no tráfico interprovincial, que, se eles se negassem a transportar nosso povo até o navio, não tinha mais tráfico. Após muita conversa, paralisaram as jangadas; isso foi nos dias 27, 29 e 30 de janeiro de 1881. No dia 30 de agosto do mesmo ano é que foi o auge desse movimento. Eram manhãs ensolaradas que ardiam na cabeça, e a areia da praia ardia a sola dos pés, sabe, de tão quente. Mas não arriamos, enfrentamos o sol — pois queríamos ser livres como ele — e a brancaiada, que tentou nos intimidar para que o movimento parasse. E, quando eles gritavam para que levássemos mais pessoas, a resposta saía em coro: “No Ceará não se embarcam mais escravos”. 

Com nossa persistência, ação e audácia, conseguimos reunir na Praia do Peixe mais de mil e quinhentas pessoas, corajosas e dispostas a enfrentar essa luta conosco. Contudo, muita coisa dessa luta a memória me levou; há nomes, locais e demais acontecimentos que me fogem da lembrança. Mas relembrar esses fatos, por mais nublados que me pareçam, é importante como forma de resgatar a luta negra do Ceará. 

Nomes como o meu e o de José Luís Napoleão — meu marido — foram apagados do imaginário coletivo, assim como da memória de nossos ancestrais e descendentes. Foi se

alvejando a história, quarando em meio ao sol, cada vez mais branca, de maneira intencional, arquitetada para que não haja, na memória individual e coletiva, a lembrança do nosso povo aguerrido. 

Fruto dessa e de outras lutas, de tanta gente de cor, cujos nomes me escapam pela memória, foi que, em 1884, decretou-se que o Ceará era terra livre, que não existiam mais pessoas escravizadas. Pense numa alegria, daquelas que escorre uma gota de mar dos nossos olhos. Contudo, em meio à euforia, soubemos de alguns locais que, mesmo após a lei, ainda mantinham pessoas em cativeiro; afinal de contas, a história não se transforma do dia pra noite, né. 

Eu, Maria Simôa da Conceição, ou, como me chamam meus mais novos, Tia Preta Simôa, pessoa negra-livre, combatente do sistema escravista, escrevo isso para permanecer viva, mesmo após minha morte física. Pois quem habita o terreno da memória não pode morrer. Que nosso nome seja gritado à beira mar, que nossa luta seja levada pelos ventos, que em cada jangada à deriva no mar represente um pedaço de nossas estórias. 

Esperanço que outras negras-vozes ecoem para além do rugido do dragão.1 



1 Crônica ficcional narrada partir da mente do autor, após as leituras de artigos como:


FERREIRA, Hilário. 140 anos do movimento dos jangadeiros: um novo olhar. Ceará Criolo, 27 jan. 2021. Disponível em: https://cearacriolo.com.br/140-anos-do-movimento-dos-jangadeiros-um-novo-olhar/. Acesso em: 21 mar. 2026. 

GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra. Hoje na História, 1881: o Dragão do Mar lidera o movimento de jangadeiros no Ceará, impedindo o transporte de escravos nas jangadas. disponivel em: https://www.geledes.org.br/hoje-na-historia-1881-o-dragao-do-marq-lidera-o-movimento-de-jangadeiros-no-cear a-impedindo-o-transporte-de-escravos-nas-jangadas/. Acesso em 21 de março de 2026 

PAULINO, Nícolas. Entenda os mitos sobre a Abolição no Ceará, que libertou escravizados 4 anos antes do Brasil. Diário do Nordeste, Fortaleza, 13 maio 2024. Disponível em: 

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/entenda-os-mitos-sobre-a-abolicao-no-ceara-que-libertou-escr avizados-4-anos-antes-do-brasil-1.3510703. Acesso em: 21 mar. 2026.


 


Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.