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Escritor Jozias Benedicto fala sobre processos de escrita de “As vontades do vento”, romance finalista do LeYa Portugal
Em “As vontades do vento”, escritor maranhense aposta em estrutura polifônica e realismo fantástico para narrar o Brasil profundo, suas contradições e heranças familiares.
Aos 74 anos, o artista visual e escritor maranhense Jozias Benedicto consolida sua trajetória literária com o lançamento de “As vontades do vento” (Caravana Grupo Editorial), romance finalista do Prêmio LeYa Portugal de Literatura 2024. Autor de nove livros e premiado em diferentes estados brasileiros, ele encontrou na maturidade um novo tempo de criação. Neste livro, transforma perdas pessoais e memórias familiares em ficção, construindo uma narrativa que atravessa gerações para refletir sobre tempo, luto e reconstrução.
Dividido em três partes — “O Interior”, “A Travessia” e “A Capital” —, o romance é composto por capítulos narrados em primeira pessoa por múltiplas vozes. Ambientada no Meio-Norte brasileiro, região entre a Amazônia exuberante e o árido Nordeste, nos anos 1950, a trama acompanha uma família marcada por segredos envolvendo clero, prostituição e heranças escravocratas. A morte da mãe e o cumprimento de seu último desejo funcionam como ponto de partida para uma narrativa que retorna ao passado e revela a ascensão e a queda dos herdeiros. Ao incluir também as perspectivas daqueles que já partiram, Jozias incorpora elementos de realismo fantástico e constrói uma estrutura polifônica que amplia a força dramática dos acontecimentos.
Nascido em São Luís (MA), em 1950, Jozias Benedicto mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde viveu grande parte da vida, e hoje divide seu tempo entre o Brasil e Lisboa. Formado em Tecnologia da Informação, atuou na área por quatro décadas antes de se dedicar integralmente às artes após os 60 anos. Com duas pós-graduações pela PUC-Rio e experiência como editor, curador e crítico de arte, estreou na literatura em 2013 e, desde então, acumula premiações como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, o Prêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e o Prêmio de Literatura do Estado do Pará.
Na entrevista a seguir, o autor fala sobre maturidade criativa, processos de escrita da obra “As vontades do vento” e os caminhos ficcionais que escolheu para abordar as contradições do Brasil contemporâneo.
1. Em “As vontades do vento”, você combina realismo fantástico, decadência familiar e transformação social. De que forma esses elementos se articulam para contar a narrativa do livro?
Em meu romance “As vontades do vento” utilizo o que se pode chamar de realismo fantástico para contar a história de uma família no Meio-Norte brasileiro – região entre a Amazônia exuberante e o árido Nordeste – em meados do século XX. A família mora em um casarão em uma cidade do interior, à beira de um rio em cuja foz está a capital do Estado, e vive entre lembranças de um tempo que já foi melhor, com os resquícios de privilégios de parentesco da antiga aristocracia rural e com muitos segredos e pequenas tragédias. Quando a narrativa se inicia, a mãe agoniza e, morta – “as mães nunca morrem” – pede aos filhos que a levem com o pai, também já morto, para a mítica capital, comemorar seu aniversário e reviver as lembranças dos dias felizes. O casarão fica sob a guarda de uma mulher negra, antiga “cria da casa”, como nos tempos da escravidão, e os irmãos enfrentam o périplo. Partem cheios de esperanças, que aos poucos vão perdendo no doloroso embate com as realidades de um mundo em transformação, no qual quem talvez melhor se adapte são os antigos subalternos e marginais, agora os novos protagonistas.
O livro é narrado por diversos personagens, cada qual conta sua versão das histórias com sua própria voz, e eu trabalho esta fragmentação para não fechar significados, assim posso citar alguns temas que considero relevantes, mas meu objetivo é que cada leitor busque na diversidade das vozes narrativas os motivos que mais lhe tocam. É um livro que fala de efemeridade e também de permanência, de memória e esquecimento, de laços familiares, de transformações e de como “os mortos comandam os vivos”. Fala também das contradições entre o Brasil tradicional e um país que procura se desenvolver e superar a herança escravocrata; e os problemas trazidos pelo desenvolvimento desigual, como a violência e o rompimento de vínculos e relações.
2 A obra reflete as contradições entre o Brasil tradicional e a busca de modernização, trabalhando temas como memórias, esquecimento e laços familiares. Por que escolheu trabalhar estes temas?
Creio que hoje o Brasil e o mundo estejam vivendo momentos de transição e incerteza que talvez sejam semelhantes a outros períodos da história ocidental, porém nunca em ritmo tão acelerado. A realidade se torna mutante e frágil, moldada pelas novas tecnologias como a AI e por desafios como a ascensão de totalitarismos, a questão dos refugiados, o envelhecimento e o empobrecimento das populações, a destruição ambiental e os conflitos entre etnias, crenças e países.
Neste livro optei por recuar para um passado, meados do Século XX, para melhor entender este Brasil que “custa a entrar no Século XXI”. É um período no qual éramos um país majoritariamente jovem que deixava de ser rural e tinha um projeto de futuro – mesmo que tentasse implantar este projeto sem resolver as contradições e através de instituições autoritárias. O escravagismo ainda estava presente, oculto sob outras formas; a péssima distribuição de rendas; a concentração da propriedade de terras; mas havia um projeto de desenvolvimento econômico e de investimentos na educação, visando formar um Brasil que poderia, um dia, “se ombrear às grandes nações desenvolvidas”. E o que deu errado? E por que? Terá ainda conserto? Estas coisas estavam em minha cabeça, mas nunca quis escrever ensaio ou não-ficção, nem um romance realista e engajado – meu caminho foi o oposto, desenvolver estes temas usando a ficção e suas vertentes mágicas e fantasiosas. Criar personagens e permitir que eles seguissem em sua busca – que é também a minha busca. Conduzidos pelos mortos, os personagens abandonam seus paraísos originários, mas o destino que os espera não é nada promissor – e não há como voltar atrás, os paraísos já se perderam.
3. O que motivou a escrita de “As vontades do vento” e como foi este processo criativo?
Comecei a escrever o livro após o lançamento do meu livro de contos “Como não aprender a nadar”, e tive duas motivações importantes. Uma, formal, o desejo de me desafiar além das narrativas curtas, partindo para escrever um romance que também fosse fragmentado como um livro de contos e que desse a voz não só a um personagem/um narrador, mas que tivesse várias vozes, uma polifonia, como um coro em uma orquestra. A outra motivação, pessoal, veio de duas perdas que sofri na época, separadas por poucos meses, a morte de minha mãe e um incêndio que destruiu meu apartamento – a vivência destas perdas, da fragilidade da vida e das coisas, me levou às primeiras visões deste romance.
O processo de escrita foi longo, quase 10 anos, me dedicando em paralelo a outros projetos. Nesta construção do livro, várias pessoas leram os originais em diversas fases e me deram sugestões, mas o longo período de escrita e a enorme quantidade de ideias e personagens que afloravam levou o romance a crescer demasiadamente, tornando-se mais e mais complexo, até que cheguei a um impasse criativo, quando fiz o processo contrário e parti para reduzir, cortar enredos e personagens, e assim cheguei a esta versão que foi finalista do Prêmio LeYa e publicada em 2025 pela Caravana Editorial.
4. Que reflexões você espera que o livro desperte nos leitores?
Acho que uma mensagem importante é a frase de um personagem, Bento, um dos filhos: “Dizem que as mães nunca morrem”. É claro que não no sentido literal, as mães morrem e todos nós morremos, e a dolorosa consciência desta transitoriedade foi um dos estopins para minha escrita. Mas tão importante como viver as mortes e as perdas para assimilá-las e superá-las, é guardar as pessoas e os objetos perdidos – nas memórias e na arte. Seguir caminhando, mesmo que não se saiba para onde, não morrer junto com os nossos mortos. E outra mensagem não menos importante seria a de que talvez os destituídos, os subalternos, sejam mais capacitados para resistir que os privilegiados, em um mundo onde não há mais certezas, onde todas as estruturas desmoronaram.
5. Você mencionou que o romance foi desenvolvido ao longo de quase dez anos. Como a escrita de “As vontades do vento” te transformou enquanto pessoa e escritor?
Acredito que escrever um livro é uma experiência que é sempre transformadora, em maior ou menor grau. Da mesma forma, ler um livro – quando o leitor mergulha, se envolve, não apenas folheia as páginas tentando descobrir “como termina” – também pode ser uma experiência transformadora.
O processo criativo pode ser visto como não apenas a produção de algo novo, mas também uma reorganização interna, um caminho de cura.
Como disse anteriormente, uma das motivações para a escrita de meu romance “As vontades do vento” foram os traumas pelos quais passei em 2015, a morte de minha mãe e o incêndio em minha casa. Certamente que a escrita do romance foi um dos fatores que me levou à superação desses traumas, mas ao meu ver este efeito terapêutico e individual não é o que me move como artista e também não é o que valida a obra de arte. Ou seja, ao meu ver o importante, independente do efeito transformador que o livro teve em mim, é saber se ele atinge o leitor.
Estes 10 anos – 2015 a 2024 – foram anos de muitas mudanças para mim, em particular, e também mudanças mundiais como a pandemia, a ameaça de regimes autoritários e da extrema-direita, crises políticas e econômicas. “As vontades do vento” como que reagiu a estas mudanças e às minhas mudanças internas, e ele, o romance, também foi mudando. Para mim, o livro é hoje um ser autônomo, como um filho que atingiu a maturidade e que tem sua própria vida.
6. Sua trajetória inclui contos e poesia antes deste romance. De que maneira essa experiência prévia influenciou a escrita de “As vontades do vento”?
“As vontades do vento” é o meu segundo romance a ser publicado, após 5 livros de contos e 2 de poesia. Mas quando comecei a escrevê-lo, era o meu primeiro romance depois de 2 livros de contos. Hoje tenho 2 romances ainda inéditos e estou com outros em projeto. Para mim não há muita diferença entre escrever um livro de contos e um romance, mas isto é uma característica de minha escrita. Meus livros de contos não são simples reuniões de textos sem relação entre eles, eu sempre trabalho dentro de um tema ou ideia comum, como se construindo um mosaico, cada conto é uma pedra deste mosaico e tem sentido em si mas o conjunto tem um significado maior. Em meu livro de contos tenho personagens e situações que reaparecem em um e outro conto, da mesma forma que neste meu romance tenho vários narradores com suas vozes. A função de juntar esses pedaços em um todo coerente, que pode ser até diferente da coerência que eu projetei, fica para a imaginação dos leitores.
7. Quais são as suas principais influências artísticas e literárias?
Sou um leitor obsessivo. Creio que a minha maior influência é o argentino Jorge Luís Borges e os brasileiros João Gilberto Noll, Bernardo Carvalho, Rubem Fonseca, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Para a escrita de “As vontades do vento”, o escritor Luiz Ruffato, que leu uma versão inicial do manuscrito, me sugeriu: “Leia Pedro Páramo”, e este romance do escritor mexicano Juan Rulfo é uma influência direta para este meu livro. Outras leituras que me marcaram e me guiaram na escrita deste meu romance foram o “Nove noites” do Bernardo Carvalho e “As meninas” da Lygia Fagundes Telles.
8. Qual você considera ser a marca principal do seu estilo de escrita e quais escolhas estruturais orientaram a construção desta obra?
Como citei antes, “As vontades do vento” é um romance que apresenta múltiplas vozes se entrelaçando, uma polifonia. Mas coloquei estas vozes e pontos de vista dentro de uma estrutura simples, que reflete o percurso dos personagens Pedro, Joaquim e Bento: o livro se divide em 3 partes, “O interior” (que apresenta a cidade onde os personagens vivem e que deixam para atender ao desejo da mãe já morta), “A travessia” (uma espécie de intervalo onde Pedro imagina o que será o destino de sua viagem) e “A capital” (onde as esperanças e fantasias dão lugar à dura realidade); cada uma das partes marcada por um monólogo da agonia da mãe. Dentro destas três partes os capítulos se sucedem com as narrativas de cada personagem, muitas vezes se contradizendo ou contando os mesmos acontecimentos com pontos de vista diferentes.
Não acho que esta estrutura seja um meu estilo único de escrita, pois em cada livro adotei estruturas diferentes, conforme considerei adequadas a cada projeto. Mas características comuns às minhas obras são: a fragmentação e seu oposto, a criação de fios unindo os fragmentos em um mosaico; ironia, humor sutil; um certo “derramamento” barroco – nada é seco, minimalista, as palavras fluem como, no caso deste romance, as águas do rio que vai da cidade no interior até a capital levando as ilhas provisórias, cheias de fauna e vegetação, e que são na verdade os personagens dos irmãos e também todos nós.
9. Desde quando a escrita faz parte da sua vida e como se deu o início do seu percurso de autor?
Fui sempre um leitor, um colecionador de livros, um rato de biblioteca, e sempre escrevi – os sonetos de pé quebrado e os poemas angustiados que todo adolescente ensaia, as anotações e os diários que, felizmente ou infelizmente, foram consumidos no incêndio em minha casa em 2015. Porém, sempre considerei minha escrita como uma ferramenta para meu trabalho em artes visuais – desenhos, pinturas, arte conceitual. Com as oficinas de escrita já aos 60 anos e com o trabalho de editor na Apicuri, comecei a levar a sério a escrita. Ter meu primeiro livro, “Estranhas criaturas noturnas”, como finalista de um concurso importante como o Prêmio SESC foi um marco, um reconhecimento; comecei a ousar e me sentir “escritor” e os outros prêmios vieram reforçar esta certeza, apesar de todas as dificuldades. Hoje, escrever é parte do meu dia a dia.
10. Existe algum ritual ou prática que te ajude a se preparar para escrever?
Não sou nada disciplinado na escrita, na verdade em todas as minhas atividades, sou muito intuitivo mesmo quando pareço totalmente racional e organizado. Sou o típico procrastinador, o que parece ser uma característica comum da maioria dos escritores.
O tempo todo faço anotações, pesquiso material que nem sei mesmo se vou usar, penso em vários projetos ao mesmo tempo; e quando tenho um prazo a apertar meu pescoço, adoto a tática do mutirão, virando noite até concluir um projeto. Sempre trabalho em jorros rápidos de escrita, como se psicografasse; mas depois vêm as intermináveis revisões.
Não tenho horário certo para escrever nem meta diária, mas no geral sou uma pessoa noturna, produzo melhor à noite; nas manhãs geralmente sou um alienígena dentro de uma nuvem que procuro dissipar com xícaras e xícaras de café forte.
11. Em que projetos você está trabalhando atualmente e quais são os próximos passos da sua trajetória literária?
Da mesma forma que “As vontades do vento” ficou sendo trabalhado cerca de 10 anos até sua publicação, tenho sempre alguns projetos nos quais trabalho sem parar – faço revisões e reformulações, mudo títulos e nomes de personagens. Alguns manuscritos crescem sem parar até uma fase de cortes drásticos, como foi com este romance; eventualmente os submeto à leitura de alguns leitores fiéis, ou envio para concursos. São hoje 2 romances e um livro de contos “quase prontos” que podem ficar um bom tempo nesta “cozinha” até virem à luz. Um desses romances já em trabalho é parte de um projeto maior, uma série sobre sexualidades divergentes no Brasil nas diversas décadas – este será o primeiro da série, o que trata dos anos 1960; o livro final desta série, o da década que se encerra em 2020, é o já publicado “Doze noites e seus trabalhos”. É um projeto de longo prazo e espero que eu tenha tempo para concretizá-lo.
E tenho outros projetos mais específicos e pontuais. Um deles é um livro de contos eróticos, os “Contos do Falo”. São contos que venho escrevendo desde 2022 para uma revista online LGBTQIA+, a “Falo Magazine”. São hoje 17 contos e cada um é publicado com uma diagramação criativa do designer Filipe Chagas, que edita a revista. A ideia é fazer um livro de arte, onde diagramação/design dialogam com o texto em um livro transgressor.

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