Fotolivro reúne imagens da pandemia para preservar a memória das ruas e das vidas atravessadas pela Covid-19



 por Taciana Oliveira| 





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Lembrar é um ato de luta": O fotoativismo nas ruas do Brasil durante a pandemia



Produzido de forma independente, Vida que segue reúne fotografias de Maneco Magnesio, textos de jornalistas, pesquisadores e ativistas, além de poemas que transformam a experiência coletiva da pandemia em um registro histórico e artístico.

Cinco anos após o período mais crítico da pandemia de Covid-19, o Brasil ainda convive com as marcas deixadas por uma crise sanitária que alterou profundamente a vida social, política e econômica do país. Em meio ao risco de que esse capítulo recente da história seja diluído pelo tempo, o fotógrafo e artista visual Maneco Magnesio Guimarães lança o fotolivro Vida que segue – A Pandemia da Covid-19 nas Ruas do Brasil, obra que transforma a fotografia em instrumento de memória, reflexão e resistência.

Resultado de um projeto coletivo viabilizado por financiamento colaborativo, o livro reúne imagens produzidas entre 2020 e 2022 nas ruas brasileiras, registrando o cotidiano de trabalhadores informais, manifestações políticas, gestos de solidariedade e os impactos sociais provocados pela pandemia. O material destaca o trabalho iniciado na exposição homônima, apresentada em galerias e centros culturais de São Paulo, Suzano, Santos, Santo André e Praia Grande.

Ao combinar fotografias, manchetes de jornais e dados sobre a pandemia, a publicação propõe uma narrativa fragmentada que dialoga com a própria experiência vivida durante aqueles anos de incerteza. Segundo o fotógrafo, preservar essas imagens significa impedir que o sofrimento coletivo seja apagado pela passagem do tempo. A obra parte da compreensão de que recordar é também uma forma de reivindicar responsabilidade histórica diante de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

O livro foi construído a muitas mãos. A organização e edição são da jornalista e escritora Laura Prado, responsável também pela curadoria das exposições que deram origem ao projeto. O prefácio é assinado pelo fotógrafo e curador João Kulcsár, que ´pontua o lirismo presente nas imagens e a opção por uma estrutura narrativa que rompe com a linearidade para reproduzir a sensação de desorientação característica dos primeiros anos da pandemia.

A publicação reúne ainda textos da jornalista Cynara Menezes, da presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (AVICO Brasil), Rosângela Silva, da militante Maria Salete Magnoni e da psicóloga Camila Tuchlinski, além de poemas de Dill Magno e Clóvis Gomes Silva (Revolucionário Distraído). O conjunto discute as conexões entre fotografia, jornalismo, literatura e ativismo, oferecendo múltiplas perspectivas sobre um dos períodos mais traumáticos da história recente do país.

Nascido em Manaus e radicado em São Paulo, Maneco Magnesio atua como fotógrafo, curador e designer gráfico. Integrante do Coletivo Fotógrafas e Fotógrafos Pela Democracia, desenvolve pesquisas em fotografia de rua e urbana, com trabalhos reconhecidos internacionalmente pelo Paris International Street Photo Awards (PISPA).

Em entrevista, o fotógrafo Maneco Magnésio  detalha como 10 mil registros da pandemia de Covid-19 se transformaram em um fotolivro que desafia o apagamento histórico e documenta a resistência nas ruas do Brasil.



1. O livro nasceu a partir de uma exposição fotográfica e depois ganhou forma como fotolivro. Em que momento você percebeu que aquelas imagens precisavam ultrapassar o espaço expositivo e se transformar em um registro permanente da pandemia?

A minha primeira ideia para o projeto foi de criar apenas um catálogo da exposição, com as 24 fotos selecionadas pela Laura Parado e pelo Alexandre Andrade, que fizeram a curadoria da mostra. Mas, à medida que retornei aos meus arquivos para organizar o que seria esse catálogo eu fui revendo todo o material que tinha produzido naqueles anos mais graves da pandemia de COVID-19, nesse momento ficou claro para mim que o meu trabalho como fotoativista era tão ou mais importante que o material que tinha composto a exposição. Assim fui organizando de forma cronológica todo aquele material para compor o livro. Ao todo, foram selecionadas 110 imagens, entre as fotos da exposição, mais uma série extensa de fotografia de rua, juntamente com as imagens de atos, carreatas e manifestações que eu cobri em 2021.

A ideia central foi mesclar o trabalho poético da fotografia de rua, que é a base da minha linguagem como fotógrafo, e que compôs toda a exposição, com o fotojornalismo ativista que desenvolvo desde 2016. 

Foram mais de 10 mil imagens produzidas entre julho de 2020 e agosto de 2022, no total foram 5 anos de trabalho para a conclusão do fotolivro. Como a materialidade de um livro é bem diferente de uma exposição, eu precisei focar em uma linha narrativa mais ampla para estruturar a obra. A ideia de agregar notícias de jornal com as imagens também necessitou de uma pesquisa grande nos arquivos dos veículos de comunicação brasileiros como Globo, Folha de São Paulo, Estadão, Brasil de Fato, UOL, entre outros, além do portal do Ministério da Saúde sobre o Coronavírus. Porém, o arco narrativo só ficou completo com a inclusão dos textos das parceiras, contextualizando todo o material que incluí ao final do livro e com o fechamento editorial feito pela Laura Parado e pela Mariane Lima.


2.  As fotografias de Vida que segue retratam trabalhadores, manifestações, ruas vazias e cenas cotidianas marcadas pela crise sanitária. Como foi o desafio de documentar um período tão doloroso sem perder de vista a humanidade e a dignidade das pessoas fotografadas?

Toda a linguagem que desenvolvi capturando as ruas nesses 13 anos como fotógrafo é baseada no humano. Se existe alguma escola da qual o meu trabalho faz parte, é o da fotografia humanista. Retornar às ruas em 2020 foi retornar ao encontro do humano e suas questões sociais e políticas expostas no espaço urbano.

A decisão de me afastar da minha família e sair às ruas em julho de 2020 para fazer os primeiros registros que estão no livro foi bem difícil, mas era claro para mim que o momento que a gente estava vivendo era um momento ímpar na nossa história. Quando fiz a primeira saída para fotografar, eu tive uma triste surpresa: as ruas não estavam vazias como eu imaginava, e sim lotadas de pessoas circulando, na sua maioria trabalhadores. Entregadores, catadores, trabalhadores informais, funcionários de mercadinhos, padarias, centros comerciais, pessoas em situação de rua, juntamente com pessoas que negavam a letalidade do vírus e circulavam sem máscara, todos convivendo nos mesmos espaços. Naquele momento,  percebi a gravidade da situação. A realidade de grande parte da população que não podia ficar em casa, protegida em quarentena com seus familiares. A urgência pela sobrevivência ou o negacionismo mantiveram o fluxo de pessoas nas ruas muito maior que o previsto, e entender isso me fez insistir mais ainda em acompanhar de perto este fluxo humano. 

Foto: Maneco Magnesio


3. A obra combina fotografia, manchetes de jornais, dados e textos de diferentes colaboradores. Como surgiu a ideia de construir um livro coletivo e de que forma essas múltiplas vozes contribuíram para ampliar a narrativa visual proposta pelas imagens?

Bom, eu acredito que não se constrói nada sozinho e que algum futuro só é possível de existir coletivamente. Desde o início do projeto, eu procurei parceiras para estruturar a parte de textos que pudessem contextualizar o momento histórico em que as fotografias foram clicadas. O arco narrativo que estrutura o livro só foi possível através dessa combinação de fotografia de rua, fotoativismo, notícias de jornal e textos que trouxessem dados embasando todo o conteúdo proposto. Os textos poéticos são de dois parceiros que me acompanham já há muitos anos, fazem um contraponto poético aos textos mais técnicos ou críticos, foram criados exclusivamente para as fotografias e fizeram parte da exposição. São muitas mãos com o objetivo de contar uma história sobre as nossas fragilidades como cidadãos e nossas escolhas como nação.


4.  Você afirma que a memória é fundamental para que a história não se repita. Em um momento em que parte da sociedade parece querer esquecer os impactos da Covid-19, qual é o papel da fotografia na preservação dessa memória coletiva?

Fotografar é um ato político. Cada clique pode capturar a poética de uma rosa ou de um trabalhador. São escolhas que o fotógrafo faz no seu trabalho. E a fotografia de rua, juntamente com o fotojornalismo, capturam de certa maneira o espírito do tempo. Esse espírito é carregado de uma realidade tão dura que é difícil de ignorar. 

Tudo que registrei naquele período de dois anos que o livro engloba, traz luz aos acontecimentos que todo o povo brasileiro passou nos momentos mais difíceis de pandemia. Não têm maquiagem, não tem Photoshop, é o que consegui editar mais próximo do real do que vi nas ruas. As fotografias não estão apenas no meu livro, estão nas redes, algumas foram compartilhadas milhares de vezes. Isso que eu busco fazer e que um grupo enorme de fotógrafos traz diariamente nas redes, portais de notícias, jornais impressos, contextualiza a nossa vivência e o nosso momento histórico como um documento pro futuro. Ignorar isso tem feito com que políticos da extrema direita assumam posições estratégicas dentro da câmara dos deputados, do senado e dos governos estaduais e municipais, prejudicando a vida de milhões de pessoas. Apagar da memória o período de crise sanitária e seus desdobramentos é como apagar da nossa história períodos como os da ditadura militar, que causou mais de 20 anos de atraso e trouxe violência e sofrimento para milhares de famílias e para o nosso país. O luto vira luta para trazer o mínimo de justiça e reparação para os familiares de vítimas do COVID-19. O estado brasileiro ainda deve isso para essas famílias.


5.  Ao longo do livro, convivem imagens de sofrimento, resistência, solidariedade e afeto. Após revisitar esse período durante a produção da obra, qual foi a principal lição que ficou para você sobre o Brasil e os brasileiros durante a pandemia?

Difícil uma resposta simples sobre essa questão. O povo brasileiro tem uma relação com a luta por inclusão social muito complexa. Quando falamos de consciência de classe e posicionamento político, a maior parte da população tende a torcer o nariz para esses temas. Mas as escolhas que foram feitas com relação ao golpe contra a presidenta Dilma em 2016 e com a eleição de Jair Bolsonaro para presidência em 2018 explicam todo o sofrimento que passamos nos anos de pandemia. Mesmo assim, o Sr. Jair Bolsonaro quase foi reeleito em 2022. Isso mostra que o conservadorismo segue firme e forte em nossa sociedade. São crenças muito profundas que o trabalho de conscientização que procuramos fazer indo às ruas entre 2020 e 2022, lutando pelo direito à vacina, por uma renda básica que assegura a mínima sobrevivência e dignidade das famílias de baixa renda afetadas pela economia, parece que praticamente não surtiu efeito. A luta é inglória, complexa e a mudança é muito lenta. Seguimos lutando contra a maré conservadora. 

Estamos novamente em ano eleitoral e vivemos mais uma vez a possibilidade de reeleger um presidente que representa os interesses da maior parte da população ou eleger um representante dos interesses do governo estadunidense e de grandes corporações, colocando mais uma vez o povo brasileiro imerso em um projeto excludente, o mesmo projeto que levou à morte de 600 mil pessoas durante a pandemia de COVID. O risco é real. É por isso que não podemos baixar a guarda em nenhum momento. Lembrar é um ato de luta!



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Em livraria: exemplares comercializados pela La Librería, localizada no Café Colombiano, Alameda Eduardo Prado, 493, São Paulo/SP.

FICHA TÉCNICA

Livro: Vida que segue

Autor: Maneco Magnesio Guimarães

Rede social do autor: acesse

Número de páginas: 100

ISBN: 978-65-01-85406-9

Gênero: Fotografia

Ano: 2026


Foto: Maneco Magnesio




*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.