por Vinícius Ferreira |
Quem conhece a literatura de Minas Gerais não esquece jamais
Neste ano de 2026, quando se completam os 70 anos de publicação do Grande sertão: veredas, não é difícil perceber o crescente interesse dos leitores pela obra de Guimarães Rosa. Renovado por publicações, como as de Italo Moriconi (Para ler Grande sertão: veredas) e Bruna Lombardi (Diário do Grande sertão), ambos pela Editora Autêntica, novos e habituais leitores encontram imenso prazer em percorrer a mítica paisagem do sertão inventado pelo mineiro de Cordisburgo. Embora a obra tenha se convertido ao longo do tempo em um dos grandes emblemas da pluralidade da identidade brasileira, sempre é bom aproveitar o mote rosiano para glosar a força e a importância da prosa de ficção para o melhor entendimento das múltiplas faces culturais amalgamadas sob o nome de Minas Gerais.
Sem pretender esgotar ou exaurir o tema, pode-se fazer um mapa breve da mitologia da mineiridade, conforme a feliz concepção que dá título ao estudo da identidade cultural do estado proposto por Maria Arminda do Nascimento Arruda, recorrendo à lembrança de alguns autores de romances que são nascidos nas diferentes regiões do estado.
O possível leitor, por suposto, tal como fazem os torcedores apaixonados, poderá acrescer ou suprimir e avaliar, conforme ditar o seu gosto, se a lista formaria uma seleção digna de desfilar nos melhores gramados da literatura mundo afora, jogando o fino das letras.
Começando a viagem pelo Norte, na porta de entrada para o Vale do Jequitinhonha, paramos em Montes Claros. É lá que nasceu Cyro dos Anjos, o autor da obra-prima O Amanuense Belmiro, narrativa híbrida, saudada com entusiasmo por estudiosos do porte de Antonio Candido e Wander Melo Miranda. Caminhando um pouco em sentido do Triângulo Mineiro, visitamos Patos de Minas, no Alto Paranaíba, para encontrar os romances Os Sinos da Agonia, Uma vida em segredo, Ópera dos mortos, A barca dos homens. O autor deles atende pelo nome de Autran Dourado e se o leitor não o conhece, pode apressar o passo rumo à primeira livraria que achar pelo caminho. Certo, não vai se arrepender, pois a região abriga belezas como a Serra da Canastra, que pode ser visitada a partir da cidade de Sacramento, onde nasceu Carolina Maria de Jesus, a autora que fez sua voz ser lida no comovente Quarto de despejo. Assim como também não se arrependerá de seguir sua viagem até o coração do Triângulo e, em Uberaba, topar com as obras do cismado, ensimesmado, arredio e genial Campos de Carvalho. Não vai ser nenhuma surpresa, possível leitor, se a sua estadia em companhia de obras como A Lua vem da Ásia, O Púcaro búlgaro, Vaca de nariz sutil ou A Chuva imóvel for daquelas em que as 5 estrelas do aplicativo não serão suficientes para responder à avaliação.
Vinícius Ferreira é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), doutor em Estudos Literários e autor do livro “Não existe acaso no inferno”


Redes Sociais