Quando Glen Hansard cantou para mim | Taciana Oliveira

 por Taciana Oliveira | 



Para Glen Hansard

Por volta de 2011 ou 2012, eu atravessava um dos momentos mais complicados da minha vida profissional. Estava no fundo do poço: desacreditada, humilhada, ridicularizada e completamente sem rumo. Pela primeira vez, comecei a duvidar se ainda valia a pena insistir naquele desejo quase sem noção de fazer cinema. Como se não bastasse, ainda tentava sobreviver ao fim de um relacionamento que, olhando em retrospecto, já havia nascido fadado ao fracasso.

Entre sessões de terapia e longas caminhadas embaladas por playlists intermináveis, reservei um dia da semana apenas para assistir a filmes independentes, fora do circuito comercial. Não me lembro se alguém chegou a indicar o filme de John Carney. O fato é que conheci a trilha sonora antes mesmo de assistir ao longa. Foi nesse contexto que conheci Once, escrito e dirigido pelo cineasta irlandês que sempre fez da música uma extensão de suas narrativas. Ali nasceu minha admiração por sua filmografia, que acompanho de ponta a ponta.

A produção é uma dessas raras preciosidades que parecem não fazer esforço algum para nos tirar do chão ou nos levar às lágrimas. O encontro entre um músico de rua e uma jovem imigrante que vende flores pelas ruas de Dublin lembra um roteiro chapliniano, um conto de fadas moderno, uma fábula musical. Nele não há grandes reviravoltas nem gestos heroicos. Tudo acontece como se a vida pudesse ser traduzida por uma conversa, um ensaio ou uma canção compartilhada. A atuação de Glen Hansard e Markéta Irglová impressiona justamente porque quase elimina a fronteira entre personagem e intérprete. A música não interrompe a narrativa; ela é a narrativa.

É impossível não citar a sequência em que os dois personagens entram em uma loja de instrumentos musicais e interpretam "Falling Slowly". Não por acaso, a música recebeu o Oscar de Melhor Canção Original em 2008 e permanece como uma das mais belas composições escritas para o cinema neste século.

Ao saber da passagem de Glen Hansard no dia de hoje, percebi que nunca consegui dissociar o artista do personagem. Talvez porque ele sempre foi tão genuíno em sua presença diante da câmera que era quase impossível estabelecer esse limite. Embora sua morte, em um acidente de motocicleta, tenha sido tão absurda quanto precoce, o personagem permanecerá vivo. E Glen continuará nas canções, no filme e na delicadeza que imprimiu à sua obra. 

No fim das contas, sou apenas uma brasileira que foi conquistada por um pequeno grande filme irlandês. Uma  produção  que reúne minhas grandes paixões: o cinema e a música. Once apresenta dois músicos em busca de um lugar no mundo. Naquela década, sem que John Carney, Glen Hansard ou Markéta Irglová jamais soubessem da minha existência, aqui em Pernambuco, eles ajudaram a reorganizar a minha rota.



Onde assistir: Prime Video e Google Play Filmes










Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.